Em 2023, vendas de ‘bolachões’ tiveram alta de 136% no País; negócios como a nova Lado 2 e a tradicional Merci são boas opções na região
ouça este conteúdo
|
readme
|
Apreciar o disco do começo ao fim. Sair à procura do álbum preferido, garimpar, encontrar o melhor preço ou uma versão rara. Chegar em casa e ter a experiência de olhar com calma cada detalhe da capa. Ler o encarte, ouvir todas as músicas, preocupar-se com as agulhas e curtir até o chiado do disco. A experiência de consumir música no vinil vai além da qualidade sonora e, agora, esse item – que já foi dado como ultrapassado – volta a dominar o interesse do público.
No Brasil, as receitas de vendas físicas da indústria fonográfica foram puxadas pelo vinil, com faturamento de R$ 11 milhões em 2023, o que representou alta de 136,2% em relação ao ano anterior, segundo pesquisa da Pro-Música Brasil. De olho nas tendências nacionais, o Grande ABC chama a atenção pelo surgimento de lojas que trazem os “bolachões” nas prateleiras, além da manutenção de endereços tradicionais para os amantes do vinil.
A Lado 2 Discos, lançada em 2023, na Rua Santo André, é um exemplo disso. O proprietário, Márcio Carneiro, é uma das personalidades da região que contribuem para manter a cultura do vinil viva.
“Vivemos um momento em que é tudo muito imediato. As pessoas não ouvem o álbum inteiro nos streamings. O vinil exige um tempo de qualidade. Apreciar a capa, as músicas, levantar do sofá para virar o disco. Ele traz a necessidade de prestar atenção no que está acontecendo. Existem aquelas pessoas que cresceram com isso e ainda consumem pela nostalgia, mas os jovens têm se interessado em aprender a ouvir música desse jeito. O disco te transporta para diversos momentos da sua vida e te dá repertório, assim como qualquer outra cultura”, comenta Carneiro, que trabalha com venda de discos desde 2013.
Ele pontua que a qualidade sonora e a duração do item também são atrativas. “É claro que você precisa ter um bom equipamento, mas o som do vinil é mais encorpado. Você sente o som. No CD, é mais pasteurizado. No streaming, percebo uma queda na qualidade. Apesar de terem máquinas novas hoje, a fabricação do vinil continua sendo a mesma e é um sistema muito perfeito. O grande diferencial é a validade do vinil. Ele não vai descascar ou oxidar como o CD. Se bem cuidado e armazenado, vai durar a vida inteira e ainda ser passado para outras gerações”, diz.
Em relação aos preços, Carneiro aponta que o vinil é uma cultura democrática. “Se quiser comprar lançamentos, raros ou importados, serão mais caros, ainda mais considerando a tributação nacional. Mesmo assim, existem opções mais baratas. Hoje, são inúmeras possibilidades. Para quem quer começar uma coleção, dou a dica de vasculhar o acervo da família.”
Além da venda de LPs, a Lado 2 funciona como selo musical. Os discos 74 Club, de Otis Trio, e Lúcido, de Diego Estevam (ambos artistas da região) já foram lançados. “Queremos inverter a lógica e fazer com que as pessoas de São Paulo também venham para cá conhecer as produções locais.”
Antiga no mercado, a Merci Disco, no Rudge Ramos, completa 64 anos de história. De acordo com o vendedor João Carlos Júnior, 54, a loja, comandada por Sérgio de Anuncio, trabalhava no início somente com vinil. Depois, focou em CDs e, há cinco anos, decidiu retomar a venda dos LPs.
“Quem escuta no digital, descarta a música. Pula de uma para a outra. O vinil propõe o prazer de ouvir o som. Na Merci, só trabalhamos com produtos novos e, no Brasil, ainda são poucas fabricas e as que existem produzem apenas artistas nacionais. Então, precisamos pegar muitos importados”, explica Junior. “No Grande ABC, o mercado ainda está se estabelecendo novamente. Santo André tem bastante opção, mas aqui em São Bernardo ainda vemos que competimos mais com a Capital mesmo.”
Em levantamento realizado pelo IPC Maps 2024, a pedido do Diário, a região apontou 82 lojas do comércio varejista de discos, CDs, DVDs e fitas.
Estética ‘vintage’ atrai público jovem
As estudantes Isabela Machado Passeti, 20, do bairro Jardim, e Vitória Oliveira Williamson, 20, da Vila Curuçá, compartilham a paixão pelo vinil. Entre uma atividade e outra do dia a dia, as amigas encontram um tempo na agenda para procurar os álbuns favoritos de MPB (Música Popular Brasileira), pop internacional e rock. Para elas, o interesse dos jovens pelos “bolachões” é cada vez mais nítido, principalmente nas redes sociais, e justificado pela “valorização da nostalgia e tendência retrô”.
“A indústria musical está se inovando tanto nos diversos gêneros e o vinil entrega essa sensação de estar escutando ‘uma verdadeira música’. Vejo a própria estética vintage ser popular entre os jovens e o vinil é um grande símbolo disso. Esse movimento fez com que os próprios artistas atuais começassem a lançar o álbum tanto no streaming quanto em vinil”, observa Vitória, que começou a gostar de vinil ainda na infância, ao acompanhar de perto a coleção de discos da madrinha.
Já Isabela assume que recorre à internet para encontrar álbuns internacionais, mas não deixa de lado o garimpo. “A experiência de visitar uma loja de vinil é muito gostosa. Quando quero comprar discos de cantores nacionais ou até aumentar minha coleção sem ter algum específico em mente, opto pelas lojas. Aqui no Grande ABC, elas estão cheias de opções, organizadas e com bons preços”, comenta a estudante.
De acordo com Isabela, a família também foi essencial para despertar esse hobby de colecionadora. “Minha mãe sempre influenciou no meu gosto musical. Ela é apaixonada pela MPB. Então, é muito legal comprar discos e dividir essa experiência com ela”, relata.
A estudante ainda indica que a frase “saudade do que a gente não viveu” se torna realidade quando se trata dos vinis. “A tendência retrô, a valorização da nostalgia, a paixão pelos artistas e o desejo de ter uma experiência mais autêntica e tangível são alguns dos motivos para mais jovens consumirem o vinil”, diz.
Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.