ouça este conteúdo
|
readme
|
O ano de 2004 ficou marcado na história do futebol do Grande ABC. Por tragédia, com a morte em campo do zagueiro Serginho, do São Caetano, em duelo com o São Paulo pelo Brasileiro, e também por alegrias,com o título do Paulistão pelo próprio Azulão e, principalmente, com a conquista da Copa do Brasil pelo Santo André, feito que irá completar 20 anos no próximo domingo (30).À época vice-presidente de futebol, o agora mandatário Celso Luiz deAlmeida recorda situações que envolveram a vitória por 2 a 0 sobre o Flamengo, diante de 71 miltorcedores no Maracanã,como o jantar comemorativo bancado pelo ex-lateral Branco em shopping da Capital fluminense, além de analisar o momento do clube e do futebol brasileiro.
RAIO X
Nome: Celso Luiz de Almeida
Idade: 69 anos
Local de nascimento: Santo André
Formação: Administração de Empresas
Hobby: Esportes/Futebol
Profissão: Consultor administrativo/financeiro
Onde trabalha: EC Santo André
Depois de 20 anos, o que mudou na história do clube com a conquista da Copa do Brasil?
O status mudou muito. Afinal, você tem um título brasileiro, uma conquista muito importante.E não é qualquer clube que tem a Copa do Brasil. Vide o São Paulo, que acabou de ganhar (2023). Penaque esse título veio há 20 anos.
Pena? Por quê?
Seria bom se tivesse sido atualmente pela vantagem financeira que existe hoje. Na época, a premiação era muito baixa (R$800mil). Hoje é muito maior (R$ 73,5 milhões apenas pelo título e, no total, R$ 96 milhões se contadas todas as etapas). Essa quantia significaria a liberdade financeira do Santo André. Todos os problemas do clube seriam resolvidos. Não deu para ganhar dinheiro. Mas na atualidade dificilmente um clube comoo Santo André e o Paulista (campeão em 2005) conseguiriam o título da Copa do Brasil.
Qual a razão?
É muito difícil, até porque o formato de disputa mudou. A entrada dos times grandes da Libertadores na Copa do Brasil (na terceira fase) torna a situação ainda mais complicada.Pode ver que sempre se tem um clube grande chegando e sendo campeão. Você tem o Palmeiras muito forte, o Flamengo. Sem contar outros.
A conquista trouxe algum malefício ao Ramalhão?
O título não atrapalhou. Aumentou a cobrança. Uma coisa: em 2003, o Santo André foi campeão da Copa São Paulo de Futebol Júnior. E alguns atletas daquele time fizeram parte da campanha da Copa do Brasil em 2004. Você tinha o Alex, o Gabriel, o Makanaki, o Tássio. Então, o que acontece? Naquela época, tínhamos 13 jogadores da base compondo o profissional. Hoje, você não consegue mais isso, porque quando o clube começa a fazer jogadores, não consegue mais segurá-los para formar uma base dentro de casa. Os melhores e outros que sedestacam vão embora rapidamente.
E como fica?
Temos um trabalho de base de sub-11, 13, 15 e 17 juntamente com a Prefeitura Municipal de Santo André, via departamento de Esportes. Tem um menino de 12 anos (volante Igor). Ele estava disputando o sub-15. O Palmeiras já levou. Ele é amador. Você não consegue fazer um contrato profissional com um menino de 12 anos. Se fala tanto: ‘Você tem que usar trabalho de base’. Mas você não pode colocar jogador ainda verde para atuar no time de cima.
A que o sr. atribui o título do Santo André?
Na primeira fase (da Copa do Brasil) nós perdemos vários jogadores. Por exemplo, o Fumagalli. Tivemos que remontar o time. Trouxemos o Dirceu, o Osmar, o Sandro Gaúcho. O Romerito teve de jogar de lateral-esquerdo que não tinha ninguém para a posição. E o que aconteceu? Tínhamos jogadores naquela época que vestiram a camisa do Santo André. Viviam a camisa do Santo André.Você tinha o goleiro Júlio César, o Dedimar. Jogadores comprometidos com o Santo André. Que tinham vontade acima do comum. E aí também a sorte tem que ajudar. Você acha que o se (Luiz Carlos) Ferreira tivesse seguido como técnico, o time teria sido campeão? (O treinador trocou o Santo André pelo Sport antes das quartas-de-final, contra o Palmeiras. Péricles Chamusca foi contratado para substituí-lo). Acho que não. Acho que ele saiu na hora certa. Nós queríamos que ficasse, mas ele saiu na hora certa. Foi para um lugar melhor, para um time melhor, para um clube de expressão. E a sorte também estava do nosso lado na hora que ele foi embora. Nos ajudou.
Alguma situação que vocês (da diretoria) não puderam ou não quiseram revelar à época?
Quando chegamos (delegação) ao hotel (no Rio), antes da final, cada atleta desceu para o almoço com um boné de um patrocinador. O (presidente) Jairo (Livólis) ficou louco. Falou pra eles: ‘Vocês não podem fazer isso, vocês têm de pedir autorização ao clube’. Naquele dia choveu patrocinadores. Já no fim da tarde, subimos para a cobertura do hotel Othon. O Jairo me falou: ‘Nossa, se nós formos campeões, não sei o que vai ser’. Eu falei: o futuro estará lançado à noite. Vamos ver o que acontece. E deu no que deu. E como foi o tratamento dispensado à diretoria do Santo André durante e no pós-jogo? Foi tranquilo? Não. Não tinha lugar separado para a gente. Quando terminou o jogo, não abriram o acesso para entrarmos em campo para comemorar, o que só ocorreu praticamente na hora de premiar o time. Você não vai ver foto minha em campo. Por outro lado, nós tivemos um apoio muito grande da Federação Paulista de Futebol, porque toda a cúpula foi ao jogo: Marco Polo Del Nero (então presidente), Reinaldo Carneiro Bastos (atual presidente). Foram todos para dar uma força para o Santo André.
Outras mais?
Teve a situação do Chamusca. Ele foi obrigado a se esconder, porque o (Luiz) Szveiter (presidente do Superior Tribunal de Justiça Desportiva à época) mandoubuscá-lo no vestiário. O treinador foi punido por uma expulsão e estava proibido de entrar no vestiário. Nem sei onde ele ficou durante o jogo. O Chamusca só foi para o restaurante depois.
Apenas para a festa...
Fomos para o Barra Shopping (na Barra da Tijuca) para jantar. Sabe quem estava por lá por volta das 2h30? O Branco, ex-lateral da Seleção. Ele tem uma camisa do Santo André.
E você sabe quem pagou o jantar do Santo André após a conquista do título? O Branco. A hora que entramos no restaurante tinha gente vaiando (flamenguistas) e gente batendo palma. Não lembro quem entrou com a taça, superpesada. Foi emocionante. E de manhã, quando peguei o meu voo antes da delegação para retornar a São Paulo, vi escrito bem grande na areia: Santo André, campeão da Copa do Brasil.
O que foi determinante para a conquista do Santo André?
Acho que a estratégia de jogo definida pelo Chamusca e executada pelo Sérgio Soares (auxiliar técnico, que dirigiu o time na decisão) foi um negócio muito interessante, porque, se você lembrar do jogo, o Santo André cozinhou o Flamengo o tempo todo. O time era bem treinado, muito bem posicionado e se defendia muito bem. Tinha uma zaga, p…, com o Gabriel, com o Alex e com o Dedimar, que era impressionante. Tinha também o Nelsinho. Aí, na hora que saiu o primeiro gol, pensei: o Flamengo não tem poder de reação. Não sei se também aquela história que eles iriam fazer um show com a Ivete Sangalo era verdade ou não. Mas na hora da preleção isso deve ter motivado os nossos atletas.
Destacaria outros jogadores que fizeram a diferença?
Posso dizer que alguns tinham talismã. O Tássio era um deles. Poderia ter ido mais longe no futebol pela qualidade técnica, fez gols decisivos. O (atacante) Sandro Gaúcho. O (meia) Élvis. E não podemos esquecer do (goleiro) Júlio Cesar, que fez a diferença.
O Santo André tinha garantido em 2001 o acesso à elite do Paulista e, em 2003, o título da Copa São Paulo de Juniores. Mas, regionalmente, havia um São Caetano vice-campeão brasileiro por duas vezes e vice-campeão da Libertadores, além de ter conquistado o Paulistão de 2004. Pode-se dizer que o título da Copa do Brasil foi uma resposta mais do que à altura do Santo André?
Foi. O São Caetano vivia em época de glórias. Era um time extremamente forte financeiramente,tinha jogadores de qualidade e demos a resposta em campo.Posso falarque,na época, era uma folha salarial de R$ 150 mil no total, o clube todo. Depois ficou caro. Atualmente, a folha salarialpara disputar uma competição da importânciadeumaCopadoBrasil é de, no mínimo, R$ 1,7 milhão. O Santo André jamais iria fazer isso hoje. Não tem condições atualmente.
É possível dizer que os clubes estão nas mãos de empresários, de investidores? Está difícil conseguir patrocinadores?
O Santo André tem patrocinadores. O problema é que o futebol está caro. A perna do Santo André não é suficiente para fazer o futebol hoje. Você quer a SAF (Sociedade Anônima de Futebol)? Queremos SAF, tivemos proposta, mas não foram adequadas. Propostas com investimentos baixos não interessam. Precisa de uma SAF que tenha, documentado, comprometimento de que vai investir ‘x’ por ano, que estabeleça em quantos anos o clube vai estar, por exemplo, na Série B do Brasileiro. Atualmente, aqui na região, o Santo André é o primo pobre se comparado a São Bernardo FC e Água Santa. A nossa folha na Série D (do Brasileiro) é de R$ 100 mil por mês. Já a do Água Santa (na mesma divisão) é de R$ 450 mil. Como é que faz?
Teve a questão do rebaixamento no Paulista, agora a disputa a Série D do Brasileiro... Quaissão as metas do Santo André no curto e médio prazos?
A médio prazo temos de trabalhar para voltar para Série A-1 do Paulista, que é onde o Santo André tem de estar. Em termos de Brasileiro depende sempre de classificação em Paulista. E precisamos deixar o clube em ordem, o futebol em ordem, para a gente arrumar uma SAF, algum investidor que tenha qualidade financeira, respeito e credibilidade, que possa vir fazer investimento com previsão de resultado.
Quais são as principais adversidades no futebol hoje?
O futebol está caro e, semdinheiro, não se toca pra frente. Por exemplo, este ano o nosso time (do Paulista) não era o pior, mas ganhamos um jogo em casa, uma dificuldade, as coisas não deram certo. Fizemos investimento acima do que tínhamos de fazer. E não deu resultado. A gente lamenta pra caramba, porque acima de tudo, nós somos todos torcedores do Santo André.
Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.