Evento em Santo André Evento em Santo André coloca pacientes de Caps e moradores de casas terapêuticas como protagonistas do processo criativo dos desfiles
Claudinei Plaza/DGABC

“A liberdade é terapêutica.” Em um cartaz branco estendido no palco do Cine Theatro Carlos Gomes, essa frase marcou os desfiles da 17ª edição do Mental Fashion Day, em Santo André. O evento, que celebra o mês da Luta Antimanicomial, foi estrelado pelos pacientes dos cinco Caps (Centros de Atenção Psicossocial) e sete casas terapêuticas da cidade. <EM>
Com um vestido bege cheio de fuxicos e intitulado de “Fim de Tarde”, Daniela dos Santos Bonfim, 34, que recebe acompanhamento no Caps 3 da Vila Vitória, participou pela primeira vez da programação. “Cada pessoa trouxe uma ideia para o próprio figurino. Dei o nome de fim de tarde para a minha roupa porque ela me acalma. É leve e suave como o pôr do Sol”, relata.
Diagnosticada com bipolaridade, ela conta que tinha preconceito com os serviços de saúde mental, mas, quando precisou desse auxílio, entendeu a importância do apoio. “Tinha muitos tabus com o Caps. Minha primeira internação foi em novembro do ano passado. Fiquei 19 dias. Reincidi agora em maio e passei menos tempo. Agora, continuo em hospitalização diária participando das oficinas. Esse desfile foi um marco na minha vida. Essa experiência foi essencial para que eu conseguisse relaxar mais e aprender coisas novas.”
O Dia da Luta Antimanicomial, celebrado ontem, busca mostrar que pessoas com sofrimento psíquico devem estar inseridas na sociedade, sendo capazes de construir a própria vida, ter emprego, casar, formar família e ter hobbies, afirma Marinês Santos de Oliveira, psicóloga e coordenadora do serviço de saúde mental de Santo André. “Todo mundo em algum momento da vida não vai querer levantar da cama. Precisamos dizer a essas pessoas que estamos à disposição para ouvir, cuidar e acolher. Quando falamos da luta antimanicomial, temos que pensar que os tabus estão enraizados e que todo o trabalho para a quebra de preconceitos é necessário.”
Para André de Araújo, 43, não seria possível se livrar do vício em bebidas alcoólicas e entorpecentes caso não recebesse o tratamento no Caps AD (Álcool e Outras Drogas) desde 2017. “Estou sem beber cachaça e consumir nenhuma substância. Sou adicto (dependente), mas estou me segurando. É bola para frente. Se não fosse o Caps, eu ainda estaria na sarjeta.”
Na entrada do Cine Theatro Carlos Gomes, uma faixa repleta de desenhos e frases foi estendida para chamar atenção dos munícipes. “Ajudei a preparar isso. Fiquei nos bastidores, mas foi tudo show de bola. O coração fica a milhão, mas o tratamento nos ensina a lidar com toda essa ansiedade.”
Aline Cristina, 32, também frequenta o Caps AD e está sem usar drogas há quatro meses. No evento, ela aproveitou para mostrar habilidades artísticas no palco. “Todo detalhe foi feito com muito amor. Ainda estou emocionada com o desfile. Estou no Caps desde 2016 e é ótimo poder contar com os profissionais. Recentemente, tive uma recaída, mas consegui me recuperar. É importante que todas as pessoas se mobilizem para a luta antimanicomial. Isso nos dá autoestima, coragem, nos fortalece. Caps não é uma prisão. Mais pessoas precisam conhecer esse serviço para não ter mais preconceito.”
Fala, povo!

“Isso nos dá autoestima e coragem. Caps não é uma prisão.”
Aline Cristina, 32 anos, recebe tratamento no Caps AD desde 2016

“É bola para frente. Se não fosse o Caps, eu ainda estaria na sarjeta.”
André de Araújo, 43, recebe tratamento no Caps AD desde 2017

“Esse desfile foi um marco importante. Tinha muitos tabus com o Caps.”
Daniela Bonfim, 34, participa das oficinas do Caps 3 Vila Vitória
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