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Divino dom de imaginar
Por Rodolfo de Souza
23/11/2023 | 09:49
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Crianças gostam de brincar. De gritaria e corre-corre se fazem, afinal, as suas horas e os seus dias. Não raro, todavia, o barulho e o frenesi dão lugar à calma e ao pensamento inspirado em heróis, bruxas, duendes, mundos paralelos, e coisa e tal. É a fantasia que habita as mentes frescas, a mergulhar o ser ainda jovem num extasiante mar de aventuras.  

O imaginário das pessoas, aliás, permanece até o apagar das luzes de sua existência. Quiçá depois dela. Até isso, aliás, pode ser concebido pela imaginação, uma vez que esta nos permite empreender viagem para qualquer lugar, até mesmo de retorno a um mundo que hipoteticamente deixamos um dia. Um imaginário que ainda se carrega de tons variados com o passar dos anos, é esse poder que nos torna especiais.

Basta que pensemos um pouco a respeito para concluirmos, inclusive, que o dom divino de imaginar também é responsável pela criação, de uma forma geral. Seja ela na concepção e aperfeiçoamento da tecnologia, seja nos meios de driblar adversidades no tocante à sobrevivência, seja na criação de arte, elemento fundamental da expressão humana...

Cabe, pois, à imaginação colocar o revolver ou a flor na mão do personagem da história. É também ela que leva a mente leitora a enxergar o que se passa no papel tal qual veria num filme. São cenas rodadas a partir do caminhar lento dos olhos pelas trilhas abertas pelas palavras e expressões escolhidas a dedo, página a página. É, pois, graças à imaginação que nos embebedamos de literatura, a forma de arte que nos transporta para os infindáveis universos do pensamento, em qualquer tempo, sempre às voltas com histórias, muitas vezes, de prender o fôlego.

E, se a imaginação atua de forma tão forte na mente de um adulto, na cabecinha de uma criança há de ser ainda mais intensa. Falo por experiência própria, uma vez que, em dado momento da minha vida, também eu passeei por campos floridos e, ao mesmo tempo perigosos, verdadeiros castelos que só a capacidade de imaginar pode construir.

E foi assim que empreendi viagem pelos meandros da mente humana quando passeava por um shopping noutro dia. Em seu corredor, assim como em corredores de outros centros comerciais do tipo, me deparei com aqueles carrinhos de barulho enjoado que trafegam para lá e para cá carregando a molecada, ao sabor do controle remoto que papai ou mamãe manuseiam. É ali que o motorista destemido trafega em alta velocidade pelas pistas da imaginação. São carros e caminhões de variadas cores que brilham e chateiam pelas rodovias comerciais.

Em dia de movimento intenso, quem aluga os brinquedos fatura bem, penso eu. Tão bem que o fabricante agora resolveu inovar, criando uma novidade que promete balançar o imaginário da criançada. Possivelmente inspirado nos recentes acontecimentos, este produziu um tanque de guerra. Sim, isso mesmo! Uma ferramenta concebida exclusivamente para ceifar a vida humana, um instrumento de dor que por certo não é símbolo de diversão lá onde a guerra é realidade e onde não se brinca.

O garoto que vi pilotando um desses, certamente não tinha noção da sua utilidade, ao contrário daquele que não precisa imaginar um tanque de guerra, porque o conhece bem de perto e não se encanta por ele.




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