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Uma grande fábrica em ruínas. Sinfonia de apitos? Não, as sacolinhas do Joanin. A roda da história, sem volta... E o que dizer desta fábrica de 2023?
Por Ademir Medici
Do Diário do Grande ABC
13/11/2023 | 08:00
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“São Caetano vê se aproximar no horizonte uma sombra carregada de incertezas. Já há, por exemplo, quem questione o que poderá ocorrer com os cofres da Prefeitura quando o mundo abandonar os veículos com motor a combustão -exatamente a cadeia produtiva que hoje sustenta o Palácio da Cerâmica, sede do Poder Executivo, e a qualidade de vida dos são-caetanenses

Cf. editorial do Diário, “O alerta do Azulão”, 8-11-2023.

São Caetano celebra os 75 anos de autonomia e vive um momento complicado na sua área econômica, tão bem descrito no editorial do Diário. 

Como sobreviver à desindustrialização? Que caminhos seguir? Aqui está um bom tema para a universidade, não só de São Caetano.

MÁQUINAS EM MOVIMENTO

Véspera do aniversário da autonomia, aguardando pelo ônibus num ponto próximo da Rua Major Carlo Del Prete – depois de ter participado de uma reunião do Rotary no Colégio Eduardo Gomes (bela obra!) – Memória teve a atenção despertada por uma fábrica em pleno funcionamento.

O movimento que vinha do interior da fábrica empolgava. Que será que estão produzindo? Quantos operários trabalham neste turno da noite? Aproximava-se das 23h. Garoava. O ônibus chegou. Seguimos. Mas a vontade era ter atravessado a rua e fazer perguntas ao porteiro.

Ouvimos naquela noite de 23 de outubro de 2023 a fábrica trabalhando. Já no ônibus da Vila São José (São Bernardo) íamos imaginando que aquela fábrica bem que podia representar a fabril São Caetano do passado. Terá ela apito, como o do samba de Noel?

Então lemos o Editorial do Diário e nos deparamos com o artigo que se segue do saudoso Gianello. No artigo, toda a preocupação do bom Gianello com os destinos da sua cidade.

Há 30 anos, o sociólogo José Roberto Gianello (1948-2022) lembrava os (des)caminhos da indústria da sua cidade, num artigo que se torna clássico, publicado pelo Diário e republicado por Memória.

Artigo de ontem, editorial de hoje, são brados para que a cidade de São Caetano “do Sul” fique esperta.

As fábricas também morrem

Texto: José Roberto Gianello (*)

Por onde quer que se entre em São Caetano, a primeira visão que se tem é de uma fábrica em ruínas, em quase todo o perímetro.

Chegando de trem pela CBTU, a poucos quilômetros da estação, já se observa o que fora parte do império Matarazzo e da antiga Saad.

Chegando do Ipiranga, pela Avenida Delamare, e entrando na Avenida Goiás, há a visão fantasmagórica dos pedaços da Siderúrgica São Francisco, e mais ao longe as abandonadas instalações da Cerâmica São Caetano.

Conclui-se que a cidade hoje é autêntico cemitério de fábricas.

PASSADO GLORIOSO

Nem sempre foi assim. Quem não se lembra da fábrica de botões Aliberti, da fábrica de louças Adelina, da fábrica de chinelos de João Poveda, da fábrica de bonecas de massa de Godoy e Gerlofe ou da Fundição Réa?

Estas são algumas das fábricas que estavam em plena atividade em 1937, e que hoje sobrevivem nas fotos amareladas pelo tempo, na memória dos proprietários e trabalhadores e na lembrança os consumidores dos produtos que estas indústrias produziam.

Na década de 1940, São Caetano ostentava índices de crescimento e desenvolvimento superiores aos de Santo André, e um dos mais elevados do Estado.

Nesta época estavam aqui instaladas e com elevada produção, grandes fábricas como Cerâmica São Caetano, Mineração Geral do Brasil (depois Saad), indústrias Matarazzo, Siderúrgicas São Francisco e São Caetano, etc.

ESPERANÇA QUE SE ESVAI...

Não há como interferir nas forças produtivas do sistema capitalista e tentar brecar e retroceder a roda da história, fazendo-a girar em sentido contrário. Como numa fita de vídeo, não há como voltar ao tempo perdido de uma época de pouca inflação, desemprego, miséria e violência. Tempo na qual perdeu-se aquilo que o brasileiro mais lamenta: a esperança.

A demolição destes complexos industriais não sepulta apenas prédios, paredes e ruas, mas todos os sonhos e frustrações da classe trabalhadora das cinco primeiras décadas do século (XX). Apesar da luta, sacrifícios e sofrimentos, ela não chega ao paraíso das propagandas político-ideológicas do socialismo nem usufruiu, na totalidade, as vantagens do capitalismo.

O QUE RESTOU

Como produto de suas vidas, a classe trabalhadora daquela época deixou como legado às novas gerações uma vaga no estacionamento dos shoppings, um emprego de caixa nos supermercados e grande parte da juventude desempregada, sem dinheiro para pagar faculdade, embalada no som do rock e ameaçada de ter os tênis roubados em qualquer esquina.

Na marcha inexorável do tempo, sobrevivem a lembrança e a memória da retórica de duas grandes guerras; ideologias à direita e à esquerda e, ao apagar das luzes do século XX, constatamos que a única realidade que nos espera é a chegada da barbárie, que aguardamos segurando nas mãos sacolinhas de plástico do supermercado Joanin e da Cooperativa da Rhodia.

Se o consumismo alienado e desenfreado passa a ocupar grande parte do tempo da atual geração de trabalhadores, e a ausência de ideologia salvadora é substituída pelas igrejas do “Reino de Deus” e “Cristo é a Salvação”, só nos resta lamentar o desaparecimento destas grandes fábricas, sepultadas com suas maiores virtudes: a honra e o trabalho.

(*) José Roberto Gianello. 

Artigo publicado no Diário em 9 de novembro de 1993.

Crédito da foto 1 – Fernandes; Banco de Dados

LEGADO. Gianello no bico de pena de Fernandes em 1993: no lugar da fábrica, uma vaga no shopping, um emprego no supermercado e uma juventude com dificuldades para pagar a faculdade 

DIARIO HÁ 30 ANOS

Sábado, 13 de novembro de 1993 – ano 36, edição 8543

SANTO ANDRÉ – Prefeitura concluía a proposta de um novo Plano Diretor.

Eram relacionados 35 bairros onde poderiam ser criadas áreas especiais de interesse social para moradia popular.

Dividia-se a área de preservação ambiental em seis espaços. A alta restrição de uso ficava com Estação Biológica do Alto da Serra, próxima à sede do Distrito de Paranapiacaba.

O espaço mais liberal contemplava o então ocupado pela Solvay, área diminuta em relação às demais, onde se permitia o uso industrial – justamente porque a empresa ali estava consolidada desde a segunda metade da década de 1940.

EM 13 DE NOVEMBRO DE...

1898 - Instalada a Irmandade do Santíssimo Sacramento da Matriz da Vila de São Bernardo.

1953 – Constituída a Cooperativa de Consumo dos Funcionários e Servidores Municipais de São Bernardo, sob orientação do advogado Otto João Gustavo Bethke.

HOJE

Dia Mundial da Gentileza. 

MUNICÍPIOS BRASILEIROS

Em Goiás, hoje é o aniversário de Nova Aurora, Palmelo e Santa Tereza de Goiás.

E mais: Anapurus (MA), Cabo Frio (RJ), Dois Irmãos de Buriti (MS), Meruoca (CE), Mirador (PR) e Ubaíra (BA).

São Diogo de Alcalá

13 de novembro

(Espanha 1400 - 1463). Franciscano. Foi missionário nas Ilhas Canárias. Cuidou de enfermos em Roma. Trabalhou de porteiro e na cozinha de vários conventos em seu próprio país.

Ilustração: blog Franciscanos (divulgação)




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