Relíquia Com o avanço da tecnologia, telefones de uso público se tornaram raridade; em 2014, eram 12.075, agora nas sete cidades têm apenas 1.663
Cai o número de orelhões nas cidades da região; telefonia móvel avaça (FOTO: Celso Luiz/DGABC)

Os telefones de uso público, mais conhecidos como orelhões, tornaram-se raridade nos centros urbanos. Com a popularização dos celulares, eles deixaram de ser uma das únicas formas de comunicação para dar espaço às linhas de telefonia móvel. No Grande ABC, 1.663 orelhões ainda resistem às mudanças do tempo e da tecnologia. Deste número, 90% funcionam (1.499) e estão disponíveis para uso nas sete cidades. Na comparação com outubro de 2014, em um dos últimos levantamentos do Diário, houve queda de 86,2% na quantidade de aparelhos públicos na região.
Pelos dados atuais da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), são 100.049 no Brasil e 33.272 no Estado de São Paulo, sendo que o Grande ABC representa 5% do montante estadual.
A diarista Fernanda Pacheco, 53 anos, se mostra saudosista ao lembrar dos tempos em que uma simples ligação no orelhão era motivo de disputa para decidir quem conseguiria discar primeiro. “Sinto falta dessa época. Era muito bom. Eu usava demais, gastava várias fichas. As filas eram enormes.” Na rotina da moradora do Jardim Taquarussu, em Mauá, já estavam programadas conversas diárias com o namorado e ligações a cada oito dias para a família em Pernambuco. “Deixei o Nordeste para vir a São Paulo. O único jeito de falar com a minha mãe era pelo telefone público porque carta demorava muito. Quando namorava, ligava para avisar que estava saindo do serviço”, relembra.
Para Fernanda, o telefone público era usado até como ponto de referência. “Se eu marcasse algum encontro, falava: ‘estou esperando na frente do orelhão’. Hoje, muita gente tem celular, mas não tem crédito para ligar. Era melhor naquele período”, considera.
No Grande ABC, todos os orelhões são da Telefônica, mas algumas pessoas ainda lembram da antiga CTBC (Companhia Telefônica da Borda do Campo).
“A CTBC foi criada em 1958 por empreendedores ligados ao Rotary de Santo André para suprir as falhas de comunicação que enfrentava o nascente parque industrial local. Até 1973, foi gerida, com sucesso, por nomes locais. Naquele ano, a Telesp, empresa federal ligada ao Ministério das Comunicações, assume o controle acionário da CTBC, alegando que só assim poderia apoiar a expansão telefônica de maneira generalista. Apesar disto, a CTBC mantém uma administração em paralelo. Não é incorporada. Sofre influências políticas partidárias. A classe política local tenta, sem êxito, influir para que ela voltasse a ter independência. A fase vai até 1998, quando a companhia deixa de existir”, relata o historiador Ademir Medici.
A antiga sede da CTBC, na Avenida Portugal, próxima ao Paço de Santo André, está abandonada, assim como a agência de São Bernardo, próxima à capela Santa Filomena.
O empresário Fernando Silva, 30 anos, utilizava os orelhões para avisar os pais quando demoraria para chegar em casa. “Ligava para eles na hora que chegava no shopping para encontrar meus amigos ou para avisar que hora chegaria. Usava mais para isso, mas eu tenho um tio que passava o número do orelhão para conversar com as namoradas dele. Ele marcava um horário para elas ligarem e ficava de plantão do lado do telefone público esperando a pessoa ligar”, comenta o morador do Bairro Assunção, em Santo André. “Teve uma época que eu comprava cartão de orelhão só para colecionar porque faziam alguns temáticos. Tinha de Carnaval, Fórmula 1, time de futebol.”
E OS CARTÕES?
A dificuldade na busca pelo orelhão mais próximo só perde para a procura por um cartão que possibilite fazer ligações no aparelho.
No Bairro Assunção, em Santo André, por exemplo, em uma distância de 450 metros, existem seis orelhões, sendo quatro na Praça Assunção e dois na Praça Almeida Júnior.
Nas papelarias, bazares, farmácias e até mesmo na única banca de jornal neste trajeto, não é possível encontrar um cartão à venda.
Apenas a dois quilômetros, na Banca Quitandinha, perto da Catedral de Nossa Senhora do Carmo, que a reportagem do Diário conseguiu encontrar um cartão de orelhão, com 20 unidades para falar por 40 minutos por R$ 10.
“Sempre tem alguém que procura. Às vezes, a pessoa precisa fazer uma ligação, mas o celular descarregou. A maioria compra chips ou celulares pré-pagos. A última opção é o cartão para orelhão. Aqui, na Praça do Carmo, tem dois telefones públicos”, conta o proprietário da banca Ed Carlos Pereira, 46. “Eu era do tempo que usava ficha para falar no orelhão. Pegava fila. Tinha que esperar muito tempo para que as outras pessoas terminassem as ligações. Era a única alternativa para falar com a família, agências, escritores e marcar consulta.”

Acessos à telefonia móvel chegam a 3,4 mi
Apesar de muitas pessoas cultivarem boas lembranças com orelhão, outras nem chegaram a precisar dos telefones de uso público. A vendedora Julia Dias, 18, moradora do Jardim Silvina, em São Bernardo, é um exemplo. Ela nunca usou um orelhão e as únicas lembranças que tem com o aparelho são por causa dos pais. “Lembro que minha mãe fazia algumas ligações. Com 9, 10 anos eu já ganhei o meu primeiro celular. Então, não tive contato com os telefones públicos. A memória mais recente é da semana passada, quando eu estava andando na Oliveira Lima (em Santo André) com uma amiga e ouvimos o orelhão tocar. Esses foram os únicos contatos.”
No Grande ABC, já são 3,4 milhões de acessos à telefonia móvel, sendo a maioria na modalidade pós-pago (2.289.710). Do total, a empresa Vivo lidera, com 1.298.540 acessos.
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