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Os remédios entre crenças e achismos
Por Antonio Carlos do Nascimento
31/07/2023 | 12:16
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Revelar-se contrário ao uso de medicamentos é comentário comum que habita os bate-papos de inúmeros encontros e a maior parte destas opiniões é proveniente de indivíduos que, orgulhosos, suportam cefaleias sem recorrerem aos analgésicos.

Muito embora as causas de cefaleias sejam inúmeras e possam se relacionar com sérios problemas, quando não recorrentes e de ocorrências isoladas podem ser desdenhadas.

O que tem se tornado perigoso é a displicência, pouco caso e irresponsabilidade que envolvem muitos médicos e pacientes na condução de doenças que podem evoluir para desfechos graves. 

Limitarei minhas observações em duas patologias comuns, as quais são frequentemente guiadas por suposições de seus portadores e/ou indesculpável desconhecimento de profissionais da saúde.

A hipercolesterolemia (colesterol elevado) é resultado da exagerada produção hepática desta substância, mantendo relação menor com a ingesta alimentar, o que torna insensata a conduta exclusivamente dietética para esta doença, assim como, negligente. Porém, é assombroso o número de médicos que acompanham por décadas pacientes com elevadíssimos níveis de colesterol e os conduzem apenas com orientação de conceitos alimentares, ou, pior ainda, prescrevendo medicamentos por curto período, como se fosse possível a correção definitiva desse desarranjo metabólico.

A desobediência dos critérios terapêuticos da hipercolesterolemia é brutal, estimando-se que 80% de seus portadores sejam tratados deficientemente, favorecendo a ocorrência de doença arteriosclerótica, notadamente as coronariopatias e seus resultantes infartos.

A hipertensão (pressão alta) é eventualmente malconduzida pelo médico, que pode inaceitavelmente ser tolerante com limites pressóricos distantes daqueles preconizados pelos consensos científicos, contudo, boa parte dos descontroles resulta de equívocos do próprio hipertenso, que acredita ser capaz de perceber o aumento da pressão arterial e ministrar os medicamentos de acordo com seu equivocado entendimento.

O fato é que o hipertenso não tratado é assintomático na maior parte do tempo, podendo evoluir para emergências hipertensivas, tal qual o acidente vascular cerebral, sem qualquer sintomatologia prévia.

Medicamentos não foram criados para nos cederem satisfação, ou ser-nos simpáticos, existem para corrigir nossas rotas orgânicas imperfeitas, não combinam com crenças e achismos!

Antonio Carlos do Nascimento é doutor em endocrinologia pela Faculdade de Medicina da USP e membro da Sociedade de Endocrinologia e Metabologia.




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