Setecidades Titulo 52 mortes
Grande ABC tem semestre mais letal para motociclistas

No dia nacional da categoria, números mostram ainda ascensão nos óbitos de condutores de moto desde 2019

Renan Soares
Do Diário do Grande ABC
27/07/2023 | 08:30
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Entregador, Wellington Rodrigo Mendes, 33 anos, já se envolveu em quase 20 acidentes (FOTO: Claudinei Plaza/DGABC)


“Estou todo quebrado de acidentes”, diz Wellington Rodrigo Mendes. No Dia Nacional do Motociclista, o entregador de 33 anos mostra as cicatrizes nos braços, pescoço e cabeça enquanto relembra a história de cada uma delas. Trabalhando na profissão há cinco anos, o motociclista passou perto, por diversas vezes, de entrar em uma estatística negativa da região. 

Desde janeiro de 2015, início da série histórica InfoSiga, sistema de monitoramento do governo estadual gerenciado pelo Detran-SP (Departamento de Trânsito de São Paulo), 701 motociclistas morreram em acidentes no Grande ABC. Apenas no primeiro semestre deste ano, 52 condutores vieram a óbito – 48% do total de 108 – o maior número para o mesmo período desde o começo da contagem, há oito anos. 

“Tenho duas placas, dois pinos, tive traumatismo craniano, quebrei a face, já fiquei em coma. Cada dia é um livramento praticamente”, relata Wellington. O motociclista revela que já se envolveu em quase vinte acidentes, sendo que, na maioria das vezes, ele diz não ter culpa. “Ganhamos por entrega, então quanto mais acelerar, mais eu ganho. Se eu pudesse, trabalharia sem arriscar minha vida. Se me machucar, amanhã tem outro no lugar”, finaliza. 

Conforme mostram os dados do InfoSiga, nos primeiros semestres de 2015 a 2018, os motociclistas não eram as principais vítimas do trânsito da região. A partir de 2019, quando 46% (50 de 109) dos registros de óbito foram de condutores de moto, o número de mortes na categoria está em ascensão: 40% em 2020, 42,50% em 2021, 43% em 2022, até chegar na marca registrada em 2023: 48%. (Confira tabela abaixo)

Para Pedro Borges, Head de Mobilidade Segura do Observatório Nacional de Segurança Viária, o aumento no uso da motocicleta por parte da população no período mencionado, tanto para viagens casa/trabalho quanto para a prestação de serviços, como o motofrete, profissão de Wellington, acaba aumentando a exposição ao risco de acidentes, o que, por sua vez, pode contribuir também para a elevação no número de mortes no trânsito.

“Acredito que as medidas de mitigação devem envolver duas frentes em conjunto: fiscalização e educação. Quando consideramos os principais fatores de risco na condução de uma motocicleta – excesso de velocidade, o não uso do capacete, e o uso do celular durante a condução – a intensificação por parte do poder público com a realização de campanhas educativas podem auxiliar na redução desse cenário”, avalia Borges. 

Segundo o Detran-SP, o Grande ABC possui uma frota de 1,8 milhão de motocicletas, além de 2,2 milhões de condutores registrados.

PREVENÇÃO

Representante das maiores empresas de entrega por aplicativo do Brasil, a Amobitec (Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia) afirmou ao Diário que trata a segurança como tema prioritário, com campanhas sobre respeito às leis de trânsito, investimento em ações de educação e contratação de seguros de acidentes pessoais. A associação diz ainda que tem defendido regulamentação do trabalho intermediado por plataformas.

Na esfera municipal, as prefeituras de Santo André, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra responderam que vêm investindo em ações de mitigação, como instalação de placas educativas, alargamento das faixas de rolagem, aumento na fiscalização, ações escolares e reforço na sinalização vertical e horizontal. 

As concessionárias responsáveis pelas rodovias da região, reforçaram ações conscientização. A Ecovias, que realiza o gerenciamento do SAI (Sistema Anchieta-Imigrantes), vai realizar hoje uma ação em São Bernardo, das 7h às 11h, na praça de pedágio Piratininga, no km 32 da Imigrantes, sentido Litoral. Além disso, a concessionária possui o PRA (Programa de Redução de Acidentes), para analisar ocorrências nas vias.

O DER (Departamento de Estradas de Rodagem do Estado de São Paulo), responsável pela Rodovia Índio Tibiriçá, afirma que os locais sob sua administração recebem investimentos em conservação. Já a SPMAr, administradora do Rodoanel Mário Covas, observa que também desenvolve ações para a conscientização. 

O Diário buscou contato com o SindimotoSP (Sindicato dos Mensageiros Motociclistas, Ciclistas e Mototaxista Intermunicipal do Estado de São Paulo), mas não obteve retorno. 

Faixa Azul pode ser implantada na região

Entre 25 de janeiro de 2022 e 23 de janeiro de 2023, a Faixa Azul, projeto-piloto implantado na Avenida 23 de Maio, na Capital, não registrou mortes nas vias em trechos onde a faixa autorizada e acompanhada pela Senatran (Secretaria Nacional de Trânsito) foi colocada, diz a Prefeitura da Capital. Com o bom resultado do projeto e expectativa de expansão para mais 220 km em vias importantes da cidade, a Faixa Azul começa a entrar na pauta do Grande ABC.

Conforme Fausto Cabral, gerente de operações da concessionária SPMar, a Faixa Azul foi criada para disciplinar o corredor de tráfego na área urbana. “É importante, porque há um fluxo constante de motociclistas que utilizam esse espaço para trafegar mais rápido entre os carros, evitando que cruzem na diagonal e causem acidentes, ficando disciplinados a andar num único lugar”, avalia o especialista. 

O Paço de Santo André afirmou que atualmente vem desenvolvendo estudos técnicos e o levantamento de dados estatísticos como contagem veicular e sinistros para a implementação no município. O cenário é o mesmo em Mauá, onde se avalia a implantação da Faixa Azul na Avenida João Ramalho, em ambos os sentidos, após obra de recapeamento. 

Já em Diadema, segundo informa o Paço, a Faixa Azul não é viável, já que o município não possui vias expressas ou semi expressas. Ribeirão Pires diz não haver faixas exclusivas para motociclistas no município e Rio Grande respondeu que pode “ver a viabilidade de implantação”, mas “não há como informar previsões”. São Bernardo e São Caetano não retornaram questionamentos do Diário.

Vale destacar que a implementação dessa sinalização depende da permissão da Senatran, procedimento necessário, uma vez que a faixa azul ainda é considerada uma sinalização experimental e não oficial. Sem esta autorização, o município não poderá implementar a sinalização experimental proposta.




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