IBGE Aguardar por mais estabilidade financeira ou definitivamente não querer ter filhos são fatores que alteram as dinâmicas populacionais na região
Casal almeja conquistas profissionais antes de ter filho (Foto: Celso Luiz/DGABC)

Os dados oficiais do Censo 2022 recém divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontam que o Grande ABC possui 2.696.530 moradores - número 1% menor que a estimativa de 2.725.209 habitantes na região publicada em dezembro do ano passado. Taxas de migrações, mortalidade e até mesmo os atrasos gerados pela pandemia podem justificar esse resultado. Dentre os motivos que influenciam o levantamento, é cada vez mais comum conhecer pessoas que decidiram esperar para terem filhos ou escolheram que, definitivamente, não querem aumentar a família. Nesse contexto, a taxa de fecundidade (número de filhos por mulher em idade fertil) está passando por alterações no Brasil.
Segundo Andrey Santos, coordenador de área de Santo André do IBGE, a divulgação das amostras dos dados revelará o porquê da diferença entre estimativa e número oficial. “Saldos de migração, imigrantes, fecundidade e mortalidade alteram a dinâmica populacional. Não falamos que houve queda no número de habitantes da região porque a comparação correta é entre dados oficiais de 2010 e 2022. A projeção é apenas um cálculo, ainda mais ao considerar o atraso no Censo por causa da pandemia.”
Conquistas de direitos, foco na área profissional, acesso à educação, crises econômicas e políticas, aumento da violência e preocupação com questões ecológicas são alguns dos fatores que podem influenciar as pessoas do mundo contemporâneo a não terem filhos ou manterem famílias pequenas, com, no máximo, duas crianças. Essa é a avaliação de Rosana Schwartz, professora de Sociologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie. “Muitas mulheres estão visando uma formação acadêmica mais ampla, indo para mestrado e doutorado. Isso é algo histórico, que vem com a 1ª onda de luta por direitos, com as questões de voto e conquistas civis. Dentro dessas discussões, há repercussões sobre direitos reprodutivos e a escolha de se casar e ter filhos”, relata ao analisar o contexto de mulheres de centros urbanos. A docente também argumenta que crises econômicas levam casais a pensar se terão condições de suprir todas as necessidades da criança e garantir educação, saúde, moradia e lazer. “Muitos estão repensando a ideia da maternidade como algo natural. O aumento de crimes e violências contra vulneráveis também interfere nessa decisão.”
Além de questões coletivas, desejos individuais são colocados na balança. “A sociedade já espera que a mulher tenha filhos. Estranham quando falamos que vamos esperar um pouco. Atualmente, a gente prefere fazer uma viagem internacional ou investir na compra de um carro. Temos outras prioridades antes de assumir a responsabilidade de ter um filho. Projetamos para daqui uns cinco anos. Antes queremos ter mais estabilidade financeira e crescer na profissão”, comenta a química Paloma Rodrigues, 28, casada há um ano e três meses com o analista de T.I. (Tecnologia da Informação) William Costa, 28.
Para Costa, a pergunta “e os filhos?” é frequente, mas o casal planeja aproveitar mais o início do casamento. “Não vamos abdicar de ter filho. Muitos jovens hoje em dia não querem ter, mas nós apenas achamos que esse não é o momento certo”, diz o morador da Vila Metalúrgica, em Santo André.
Diferente do casal, a estudante de Relações Internacionais da UFABC (Universidade Federal do ABC) Mariana Fontes, 27, nunca quis ser mãe. "Sempre quis focar na minha carreira e estudos, não na maternidade. Com o passar dos anos, sentia muito medo de engravidar e descobri que tenho tocofobia (medo exacerbado da gravidez). As pessoas ainda me pressionam, fazem críticas e tentam mudar a minha decisão. Mesmo assim, estou resolvida. No mês que vem, farei laqueadura”, informa a moradora do Jardim Las Vegas, em Santo André.

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