LGBTQIA+ Com histórias diferentes, Júnior, Fernando e Luana planejam um futuro melhor; especialista aponta cenário negativo para a comunidade no País
Arquivo Pessoal

“Orgulho é ser quem sou”. “Orgulho é se aceitar”. “Orgulho é ver as pessoas que amo me reconhecendo”. Estas frases poderiam ter sido ditas pelos frequentadores do bar Stonewall Inn, em Nova York, há 54 anos, quando enfrentavam a opressão contra a comunidade LGBTQIA+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transsexuais e Transgêneros, Queer, Intersexo, Assexuais, entre outras orientações sexuais, identidades e expressões de gênero). Porém, mesmo com cinco décadas de distância, as palavras simbolizam as mesmas esperanças para membros da comunidade do Grande ABC sobre o futuro neste Dia Internacional do Orgulho, celebrado hoje, e que teve origem a partir do episódio dos Estados Unidos.
Júnior Lima, 26 anos, é uma dessas pessoas. Homem trans, morador de Diadema, ele relata as primeiras dificuldades que precisou enfrentar na vida com amigos e familiares. “Ouvir não, dói. Mas com o sim dentro de casa, a negativa da rua não é relevante", observa.
Júnior é um dos fundadores do Spartanos (@spartanos_jr no Instagram), primeiro time de futsal do Grande ABC formado integralmente por pessoas trans, que ele deseja tornar referência. Ao falar sobre orgulho, não pensa duas vezes: “Orgulho é ver as pessoas que amo reconhecendo com muito afeto tudo que tento fazer pelos meus e minhas”, afirma Júnior, que também é Mister Trans Grande ABC 22/23.
Com um ideal parecido, mas em uma realidade um pouco diferente, Fernando Pacheco Custódio, 33, vive em São Bernardo. Há 11 anos, ele se transforma na drag queen Nayara Negretty, se apresenta em festas e participa de concursos. “A drag queen é um personagem. Sou um menino gay que me transformo na Nayara para trabalho, mas quando chego em casa volto a ser o Fernando”, relata.
“O preconceito acaba sendo ‘normal’ para mim, pois além de gay, sou negro. O preconceito não é nem tanto quando estou como drag, mas por ser gay. Nunca cheguei a ser agredido, mas já vi amigas minhas apanhando, inclusive já perdi uma”, desabafa.
Mesmo com o reconhecimento como performer, o são-bernardense revela que pretende abrir um salão de cabeleireiro. Para ele, orgulho é “se aceitar e se expor, e jamais ter vergonha de ser quem você é".
PRECONCEITO
“Atualmente tenho dificuldade no mercado de trabalho, pois percebo que por ser uma mulher lésbica, às vezes, não me tratam com respeito e até mesmo nem como uma mulher”. Um pouco mais nova que as demais, a dona da fala, Luana Domingos Honorato, de 22, mora em São Caetano e relata as dificuldades que enfrenta na carreira por conta da sua orientação sexual.
Reflexiva, ela relembra também outros obstáculos que precisou superar ao longo da sua vida. “Já não performava feminilidade, então, quando cortei meu cabelo curto na adolescência, enfrentei preconceito na escola e principalmente na miha própria minha família, já que meus pais são evangélicos”, conta.
Mesmo com o preconceito, Luana segue sonhando com um futuro melhor. “Meus principais sonhos são conhecer o mundo, me tornar uma chefe de cozinha e ter uma família junto a minha noiva. Orgulho para mim é ser quem eu sou independente do que as pessoas pensam a meu respeito”, diz.
ALERTA
Apesar do planejamento de um lindo futuro pela frente, Samantha Dufner, advogada especialista em Direitos Humanos e autora do livro Famílias Multifacetadas, destaca que o Brasil é um dos países mais LGBTfóbicos do mundo. A especialista aponta para um cenário negativo que o País apresenta para a comunidade internacional.
“Os dados da Antra (Articulação Nacional de Travestis e Transexuais), mostram que a expectativa de vida de pessoas trans no Brasil é de 35 anos, enquanto um brasileiro vai além dos 70 anos”, pontua.
Como exemplo, Samantha cita um levantamento realizado pelo Grupo Gay da Bahia, que apontou 242 homicídios de pessoas LGBTQIA+ no País, em 2022.
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