Setecidades Titulo 101 anos

Simpatia, fé e futebol: a trajetória de Dona Irene

Moradora de Santo André, ela compartilhou os segredos para manter o bem-estar após passar de dez décadas de vida

04/06/2023 | 09:06
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Celso Luiz/DGABC
Celso Luiz/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


A longevidade é uma meta de muitas pessoas. Chegar ao centenário com saúde e ao lado da família é uma conquista para poucos. Quando se encontra alguém que atingiu esse sonho, a primeira pergunta é “qual o segredo?”. Para Irene Herculino, que completou 101 anos em janeiro, a fé, o futebol e uma tacinha de vinho aos fins de semana são a resposta. 

Conhecida como dona Irene, ela é de Santa Rosa do Viterbo, cidade localizada na Região Metropolitana de Ribeirão Preto. Aos 22 anos, saiu do Interior e passou por municípios como a Capital, São Caetano e Santo André, onde constituiu família e mora há 70 anos. “Nasci na Fazenda Amália, da família Matarazzo. Tinha 12 irmãos. Estudei até o 3º ano (do ensino fundamental). Por volta dos 11 anos, comecei a trabalhar na roça com os meus pais. Fazia de tudo, carpia, plantava café, algodão e cortava cana.”

Quando dona Irene veio para a Capital, trabalhou em fábricas de cerâmica e barbante, mas foi em terras andreenses que se firmou no emprego. Na função de cozinheira, ela afirmou que foi a primeira funcionária do Hospital Bartira. “Um dos meus irmãos trabalhava em São Caetano. Então, eu já conhecia a região”, lembrou. 

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No Bartira, Irene trabalhou por 47 anos e se aposentou apenas após muita insistência da filha, Nezita de Souza, 67. “Saí de lá porque ela quis. Eu já tinha mais de 90 anos, mas não queria deixar o hospital. A lei também não permitia que eu continuasse. Quando algum fiscal aparecia, eu me escondia.”

A RELIGIÃO

Depois da aposentadoria, ela se dedicou ainda mais à crença religiosa. De família católica, Irene era ministra de eucaristia e ajudava nas festas da Paróquia Santo Antônio, em Santo André. “Parei de dar comunhão porque estou andando com dificuldade. Antes, até mesmo quem não era católico, pedia oração por causa de alguma doença e eu ajudava”, comentou.

Além dos compromissos com a fé, em junho, tradicionalmente, Irene era encarregada de preparar o vinho quente e quentão. Até mesmo neste ano, que não poderá participar das festividades por questões de saúde, ela se mantém animada para as comemorações juninas. “O pessoal da igreja vem me visitar de 15 em 15 dias. Como moro no bairro Santo Antônio, é perto. Eles são uma família e eu continuo praticando a minha fé dentro de casa.”

O FUTEBOL

Entre as paixões, Irene não consegue esconder o amor pelo futebol. Questionada sobre qual time torce, a resposta dela é rápida. “São Paulo, graças a Deus.” Nascida em 25 de janeiro, mesmo dia da fundação do São Paulo Futebol Clube, Irene não poderia torcer para outro time a não ser o Tricolor, criado em 1930. “Vou morrer sendo são-paulina.”

Quando completou 100 anos, Irene ganhou uma visita ao Morumbi. Na ocasião, ela virou celebridade ao visitar todo o estádio e receber abraços dos atletas e do ídolo Rogério Ceni, ex-goleiro e então técnico do time. “O Ceni fez todos os jogadores me cumprimentarem. Aproveitei para pedir para ele mandar esses meninos ganharem os jogos.”

Em 2023, a festa de aniversário de Irene foi dentro da igreja. Ao invés de presentes, cada convidado levou um quilo de alimento para ser doado a entidades sociais de Santo André. 

Em seu legado, Irene tem duas netas, uma de 48 e outra de 43 anos, e dois bisnetos, de 28 e 10 anos. De forma inevitável, a figura materna dela influenciou Murilo Capelari, o bisneto mais novo, a seguir o caminho esportivo. Hoje, o pequeno joga futsal pelo São Paulo Futebol Clube e futebol de campo pelo Red Bull Bragantino. 

O VINHO

Irene sempre teve uma vida muito ativa. A rotina de quase cinco décadas no Hospital Bartira deu espaço aos afazeres da paróquia e garantiu mais tempo para assistir aos jogos do time do coração. 

Durante a entrevista ao Diário, a filha Nezita revelou o último segredo da mãe. “Ela não dispensa uma taça de vinho doce. Antes, ela bebia apenas no domingo. Agora, já bebe no sábado também.” 

Sem pensar duas vezes, Irene consentiu. “E não divido”, completou.

Irene será homenageada pela Câmara de Santo André 

A trajetória de Irene Herculino não passou despercebida pela Câmara de Santo André. O vereador Bahia Santana (PSDB) soube dos 101 anos completados neste ano através de amigos do futebol. Depois de conhecer a história, decidiu homenageá-la na Casa na terça-feira.

“Conheço o genro e a filha da dona Irene há um bom tempo. Tive a felicidade de ir até a casa dela e me deparar com essa enorme simpatia. Isso aconteceu há 30 dias e fiquei extremamente feliz com a oportunidade”, disse Bahia.

Irene afirmou estar animada para o dia e o vereador reforça a importância da história dela ser contada. “Espero que essa homenagem não fique restrita à Câmara de Santo André. É fundamental reforçar a importância dos idosos. Muitos países já priorizam essa população e devemos seguir o exemplo. Para o dia, também convidamos a diretoria do Hospital Bartira, onde Irene trabalhou por tantos anos”, detalhou.

De acordo com o vereador, o objetivo da ação é reforçar o respeito, o carinho e os direitos dos idosos.

A data para essa homenagem também se estabelece em um momento oportuno, com as campanhas do Junho Violeta, que destacam a relevância do combate à violência contra os idosos.

Nezita de Souza, 67, filha de Irene, foi parte fundamental para o reconhecimento da história da mãe e se alegra com as conquistas. “Ela chegou aos 101 anos com saúde, somente com um desgaste nas pernas, mas sem diabetes, pressão alta ou colesterol. Com certeza, a homenagem será especial.”




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