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Os chips da beleza podem ser feios
Por Antonio Carlos do Nascimento
21/05/2023 | 20:40
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 A terapia de reposição hormonal (TRH) na mulher no período de climatério, ou menopausa, é conduta que aguarda consenso amplo. Muito embora temas médicos devam ser clareados apenas pelas luzes da ciência, vê-se calorosos debates sobre esta questão sendo pautados essencialmente por opiniões e interesses pessoais.

Entendo, porém, que aceitar todos os desconfortos desta fase da vida feminina como evento natural não passível de intervenção farmacológica, é posicionamento fundamentado em princípios duvidosos. 

Então, penso que estar do lado daqueles que compreendam a reposição de hormônios sexuais como recurso potencialmente utilizável e eventualmente imprescindível é coerente e difere da imposição sumária deste procedimento em todas as pacientes.

Mas, vivemos agora uma ampliação desse debate, que embora também envolva o universo do climatério/menopausa, estende-se para a utilização destas substâncias, sejam bioidênticas ou não, em altas doses, implantadas em chips no subcutâneo, seja de homens ou mulheres, com, ou sem deficit hormonal, e nas várias faixas etárias.

A intenção primária destes implantes é aumentar a massa muscular, a libido, a disposição física e eventualmente diminuição ponderal, objetivos quase sempre alcançados nos primeiros meses. Contudo, uma vez estabelecido o novo status hormonal e metabólico, as mesmas doses podem não sustentar os mesmos resultados e então uma sucessão de mudanças posológicas podem encaminhar a/o paciente para suspensão da conduta e reparação de danos.

Afora o contraceptivo Implanon, nenhum chip hormonal é aprovado para utilização em nosso País, muito embora o Conselho Federal de Medicina os tenha proibido apenas em abril deste ano.

Enquanto acne, inchaço no corpo, queda de cabelo e aumento de pelos no corpo sejam ocorrências reversíveis nas mulheres, o aumento do clitóris e engrossamento da voz podem permanecer. Em homens, o aumento da próstata e diminuição dos volumes testiculares são perigos potenciais.

Mensurar os riscos pelos benefícios da prescrição de hormônios é bem mais lógico quando avaliamos a mulher climatérica/menopausada, assim como para o homem com deficit testosterônico confirmado. Porém, utilizá-los para melhorar a performance biológica tem-se mostrado perigoso.

Além disso, ao menos por enquanto, os chips da beleza não oferecem a segurança necessária para tais aportes hormonais e até por isso não são aprovados pelo mundo afora, e para piorar, podem nos deixar feios! 

Antonio Carlos do Nascimento é doutor em endocrinologia pela Faculdade de Medicina da USP e membro da Sociedade de Endocrinologia e Metabologia.




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