Católico Papa foi o primeiro a renunciar ao cargo em mais de 600 anos; ele defendeu o diálogo entre a fé e a razão
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O papa emérito Bento XVI morreu neste sábado (31), aos 95 anos, conforme anunciou o Vaticano, que recentemente já tinha divulgado que a saúde de Bento XVI era de estado frágil e o papa Francisco estava pedindo orações para o seu antecessor. O velório de Bento XVI começará na segunda-feira, 2, no Vaticano.
Apontado por muitos como conservador, Bento XVI ficará marcado por uma inovação em mais de 600 anos: a renúncia. Apesar da pressão provocada pelos escândalos de abuso sexual e do vazamento de correspondência particular (o Vatileaks), o que ele manteve como motivação até o fim foi a declaração oficial de 11 fevereiro de 2013: a fragilidade de sua idade avançada e as exigências físicas e mentais do cargo. Ficará para a história como um papa contraditório, entre renovador e tradicionalista, mas de vontade férrea, que nunca renunciou a suas ideias.
Funeral de papa emérito
A indicação da maioria dos observadores da Igreja Católica é de que os rituais fúnebres de Bento XVI serão semelhantes aos de um bispo aposentado de Roma. Mas, neste caso, a cerimônia será presidida por Francisco e não pelo reitor do Colégio dos Cardeais.
"O funeral de um papa emérito é o funeral do bispo emérito de Roma", disse o historiador da igreja Alberto Melloni, acrescentando que a situação não é totalmente sem precedentes, já que dioceses de todo o mundo já decidiram como homenagear adequadamente os bispos aposentados.
Os próprios ritos estão contidos no "Ritual Romano", que estabelece como os ritos litúrgicos devem ser celebrados, com orações e leituras específicas. Alguns ajustes são necessários, no entanto: como Bento XVI era um chefe de Estado, o funeral presumivelmente será mais pomposo, com a presença de delegações oficiais de todo o mundo. Poucos podem esquecer as longas filas de peregrinos por dias e noites para homenagear João Paulo II quando ele morreu em 2005.
Uma coisa que distinguiria um funeral de Bento XVI ao de um papa reinante são os nove dias de ritos fúnebres antes do enterro, chamados de "novemdiales". Mas, uma tradição que mantida é a colocação no caixão do livro dos Evangelhos.
Quando Bento XVI anunciou sua aposentadoria, em 2013, abriu uma década de território pontifício desconhecido. Desde seu título, "papa emérito", até sua decisão de manter a batina branca do papado, Bento XVI criou em grande parte um novo manual para abranger tanto um papa reinante quanto um papa aposentado.
Bento XVI classificou viagem ao Brasil como "inesquecível"
Bento XVI esteve à frente da Igreja Católica de 2005 a 2013. Durante seu papado, viajou ao Brasil em 2007. Na ocasião, passou pela capital paulista e pelo Vale do Paraíba. Meses depois, classificou a viagem como um dos destaques daquele ano. A vinda ao País ficou marcada pela canonização de Frei Galvão. O então papa participou de encontros em São Paulo e nas cidades de Guaratinguetá e Aparecida do Norte.
Na capital paulista, Bento XVI passou pelo Mosteiro de São Bento e pela Catedral Metropolitana de São Paulo, na Sé, região central da cidade.
Foi também ao Memorial da América Latina e a um encontro com jovens no estádio do Pacaembu, na zona oeste, além de ter reunido uma multidão durante missa no aeroporto Campo de Marte, na zona norte. O Frei Galvão foi canonizado durante o evento.
No Vale do Paraíba, o pontífice visitou a Fazenda da Esperança, que abriga dependentes de drogas, em Guaratinguetá, e o Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, onde celebrou uma missa.
A visita de Bento XVI a São Paulo mobilizou as forças de segurança do Estado. Um efetivo superior a 20 mil homens atuou ao longo dos cinco dias de visita. A tropa era equivalente a cerca de 27% dos 93 mil policiais militares existentes à época no Estado. Os responsáveis diretos pela segurança do pontífice foram o Exército Brasileiro e a Polícia Federal.
Durante audiência com a presença de cardeais realizada em dezembro daquele ano, Bento XVI reservou mais da metade de seu discurso para falar dos dias em que esteve no Brasil. O pontífice classificou a viagem como "inesquecível". Para o então papa, aquele foi um dos eventos de destaque no balanço das realizações de 2007. Bento XVI relatou aos presentes na audiência, que também contou com autoridades do Vaticano, alguns dos momentos da viagem que considerou culminantes, como o encontro com milhares de jovens no estádio do Pacaembu.
Bento XVI classificou como inesquecível o dia em que canonizou o Frei Galvão, ao lado de bispos, sacerdotes, religiosos e fiéis. Para o pontífice, o frei foi "um filho do Brasil, proclamado santo pela Igreja universal". As horas que passou na Fazenda da Esperança também foram lembradas com "particular vivacidade", segundo o pontífice. "Ali, na Fazenda da Esperança, os confins do mundo são verdadeiramente superados e se abre um olhar para Deus, para a vastidão da nossa vida", afirmou.
O papa recordou ainda o encontro com os bispos brasileiros na catedral de São Paulo. Conforme Bento XVI, a experiência da "colegialidade efetiva e afetiva" com o episcopado brasileiro é uma prova da alegria do catolicismo. No fim do balanço sobre a viagem ao Brasil, o pontífice destacou os momentos que passou em Aparecida e a Conferência Geral dos Bispos da América Latina e do Caribe. O pontífice ressaltou que ficou particularmente "tocado pela pequena imagem de Nossa Senhora".
As renúncias da vida de Bento XVI
O que poucos sabem é que esta não foi a primeira renúncia na vida de Joseph Ratzinger, nascido em Marktl am Inn, na Baviera (Alemanha), em 16 de abril de 1927, um Sábado de Aleluia. Ele passou a adolescência em um seminário regional onde viu os nazistas dominarem seu país e levá-lo à guerra. Evitou fazer parte daquilo - arrolado no Exército, desertou.
Depois da guerra, voltou aos estudos de Teologia. Padre por pouco tempo em Munique, lecionou em universidades alemãs até concluir o doutorado. Professor em Tübingen, renunciou à cátedra diante da agitação estudantil em 1968. Mas ele mesmo nessa época poderia ser colocado entre os "agitadores": esteve entre os jovens teólogos que sacudiram Roma no Concílio Vaticano II, entre 1962 e 1965. Foi dos que lutaram contra os tradicionalistas.
Mas data dessa época também a contradição que marcaria sua vida e seu papado. Em 1966, identificou o que achava ser as primeiras tendências inquietantes na renovação da Igreja. Um "certo espírito partidário" levava para a igreja o dilema do século: reforma ou revolução. Sentiu então a fé ameaçada e não titubeou.
Nos anos seguintes, se mostrou crítico à mudança litúrgica de Paulo VI - via na ruptura com a chamada missa tridentina (em latim) uma ameaça à fé e à unidade da Igreja. Dizia que não havia como mudar a forma de orar dos fiéis sem alterar sua crença. Mas seria o mesmo Paulo VI que o tornaria cardeal de Munique, em 1977.
João Paulo II
Mas o papa que marcaria a história do novo cardeal alemão seria aquele que o nomeou em novembro de 1981 para a poderosa Congregação para a Doutrina da Fé: o polonês Karol Woytila. Sob João Paulo II, caberia a Ratzinger ser o guardião da ortodoxia e o principal aliado contra o avanço de ideias marxistas na Igreja Católica, notadamente as da chamada Teologia da Libertação. Foi nessa época que entrou em confronto direto contra o brasileiro Leonardo Boff, que teve um de seus livros condenados em 1985 e acabou obrigado a cumprir um ano de "silêncio obsequioso". Posteriormente, Boff se sentiu pressionado a deixar a hierarquia católica, e sempre o fato a João Paulo II e ao agora papa emérito falecido, apesar de considerá-lo "uma pessoa finíssima, elegante, muito gentil, que nunca levanta a voz".
E assim Bento XVI seguiu criando muitos inimigos, renunciando a visões consideradas mais "progressistas", em prol da ideia que a caridade, e não a ação política, é a principal forma de transformação social que a Igreja pode oferecer. Não fez concessão aos que pregavam a ruptura com a tradição como continuidade do aggiornamento do Concílio Vaticano II. Não mudou o veto à comunhão dos descasados nem aos "viri probati" (ordenação de casados) - nem pensou em abrir brechas para isso, ao contrário do seu sucessor, o papa Francisco.
Foi do mesmo escritório em que trabalhava diariamente no Vaticano que transformou a antiga Inquisição no principal polo de combate a ideologias, incluindo o liberalismo. Sempre viu no marxismo a versão materialista da esperança cristã que, no lugar de Deus, busca a redenção no partido. Para ele, a "adoração ateísta" sacrificava à ideologia o humanismo. Mas foi na mesma Congregação para a Doutrina da Fé que recebeu o encargo de cuidar de um problema que marcou seu pontificado: o abuso sexual.
Recentemente, o cardeal da Cracóvia Stanislaw Dziwisz, braço direito de Woytila, veio a público para defendê-lo das acusações de que não se preocupou com o problema, chegando mesmo a acobertar casos. "Ele viu que o problema não era apenas o flagelo vivido pelas vítimas, mas também as reações erradas dos superiores. E viu que embora houvesse procedimentos e leis na Igreja, nem sempre foram aplicados pelos bispos." Qual seria o caminho: João Paulo II passou a investigação para o homem de sua "máxima confiança" no Vaticano: Ratzinger. "Foi para evitar a tentação de colocar esses assuntos dolorosos debaixo do tapete."
No entanto, esses assuntos realmente não ficaram debaixo do tapete. E ganharam destaque sobretudo nos Estados Unidos, a partir de 2001, quando o Boston Globe começou a revelar uma série de acusações de acobertamento, que renderia uma série de reportagens e anos depois o filme vencedor do Oscar, Spotlight. As acusações atingiram diretamente a Igreja, na figura do cardeal Bernard Law, que acabou transferido para Roma por João Paulo II em 2004. O problema, que ainda causa constrangimentos hoje a Francisco, acabaria ficando em segundo plano com a longa doença e posterior morte de Woytila, em 2005 - sob os gritos de "santo súbito".
Foi em meio à comoção popular que ocorreu o conclave. Só três votantes não haviam sido nomeados por Woytila e o discurso de Ratzinger chamou a atenção, sob o espírito de dar continuidade à linha adotada até aquele momento. Foi assim que, após quatro votações, Ratzinger se tornou Bento XVI. "Queridos irmãos e irmãs, depois do grande João Paulo II, os cardeais escolheram a mim -- um simples, humilde trabalhador da vinha do Senhor."
Mas os anos de seu pontificado não foram tranquilos. As queixas de abuso sexual por sacerdotes reacenderam - e ganharam uma força nunca antes vista. A situação passou a causar "profunda tristeza" ao papa, como relataram assessores próximos. A isso se uniria o que foi visto como uma traição pessoal: a revelação de seus documentos pelo mordomo pessoal, Paolo Gabriele. A advogada dele, Cristiana Arru, alegou que as informações deveriam ser divulgadas para revelar mentiras no Vaticano. "Meu cliente pensou que o papa não estava sendo informado sobre alguns assuntos importantes que estavam acontecendo." O mesmo ocorreu com desvios no Banco do Vaticano, outra dor de cabeça para o papa.
Bento XVI foi o homem que pediu a Deus que tivesse piedade da Igreja. "Senhor, frequentemente a Tua Igreja se parece com uma barca que está para afundar." Pressionado, renunciou e abriu espaço para um reformador na Igreja Católica, o papa Francisco.
A relação entre dois papas, algo que não era visto sem atritos há séculos, chamava a atenção nos poucos e cordiais encontros públicos. "É como ter um avô com quem conversar", disse por várias vezes Francisco, que fazia questão de visitá-lo com certa regularidade. O pensamento de correligionários do pontífice alemão foi, porém, por várias vezes apresentado como um empecilho a propostas renovadoras de Francisco. Apesar de não vir a público mais, Bento XVI renunciou a silenciar totalmente. Nos últimos anos, talvez o que tenha criado mais "barulho" seja sua alegação, em carta, de que a revolução sexual dos anos 1960 está no cerne dos atuais escândalos sexuais da Igreja.
Ratzinger, homem que falava dez línguas e tinha sete doutorados honorários, se imaginava aposentado, lendo e escrevendo livros em uma vila na Baviera. Terminou seus anos em um convento no Vaticano. Secretário particular do papa emérito, o monsenhor Georg Gänswein relatou à TV italiana, há três anos, que por muitas vezes chegaram a conversar sobre a hora da morte. "Ele pensa e se prepara, porque preparar-se para a morte significa preparar-se para o encontro com Deus, que é o encontro decisivo."
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