Orgulho da minha cor Para além do Dia da Consciência Negra, personagens históricos são referência através de gerações
Celso Luiz/DGABC

Todos nós temos uma inspiração, seja da família como pais, mães, avós, ou ídolos mais distantes, como jogadores de futebol, escritores e até presidentes. Porém, representações de pessoas pretas são, às vezes, esquecidas pela história. Mas acredite, existem milhares de referências que, por seus feitos, são símbolos de ancestralidade, diversidade, sororidade, virtude e amor. Para além do Dia da Consciência Negra, comemorado hoje, a representatividade é passada de geração em geração.
Nascida em Santo André, Kiusam de Oliveira é uma dessas referências. Professora há mais de 25 anos, ela é autora de livros como Com Qual Penteado Eu Vou?, que destaca, como deixar os cabelos crespos ainda mais charmosos de variadas maneiras. Ter uma inspiração, para ela, foi essencial para o desenvolvimento de seus livros.“Na minha infância, minha referência foi a minha mãe, uma fortaleza, Maria Bonita pela sua força, coragem e autonomia de minha ancestral Oxum, uma grande rainha africana”, destaca Kiusam, ao falar sobre seu orgulho negro e raízes ancestrais.
Ela lista diversos nomes importantes que relembram a representatividade que o passado traz para o presente. Dandara, uma grande guerreira no passado, se junta a Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento e Sueli Carneiro (escritoras, ativistas e professoras – além de muitas outras atribuições), como grandes mulheres pretas que lutaram por igualdade, sendo referência para muitas jovens meninas por sua força e coragem.
“Desenvolvemos uma percepção positiva de nós mesmos e do nosso grupo étnico quando temos referências capazes de potencializar nossas identidades, passamos a acreditar que também poderemos nos tornar referências. Vidas negras importam,” conta Kiusam.
FAMÍLIA
Um dos laços mais importantes de orgulho é a família. Acácio Almeida, professor e ex-pró-reitor de assuntos comunitários e políticas afirmativas da UFABC, tem três filhos (36, 33, e 16 anos), e revela que contar a história de seus avós, bisavós e tataravós reafirma a importância da ancestralidade. “A primeira personalidade que faço sempre questão que meus filhos conheçam, e agora minhas netas, são as personalidades que estão dentro das nossas casas,” diz o docente, ressaltando que as narrativas das famílias negras são de muita resistência e esforço, além de destacar que sua avó materna é sua principal inspiração.</CW><TB>O professor Acácio Almeida trabalhou por muito tempo na Costa do Marfim, no continente africano, e diz que, por lá, adquiriu muito conhecimento sobre sua ancestralidade, marcada por reis e rainhas como Shaka Zulu, rei dos zulus na África do Sul, Yaa Asantewaa, conhecida por muitos atos de bravura como rainha mãe no Império Ashanti, atual Gana, além de Zumbi dos Palmares, marido de Dandara, um dos maiores símbolos de luta e liberdade do Brasil. Estes conhecimentos são passados para as suas próximas gerações, como filhos e netos.
Quando era criança, o professor relata que foi na sala de aula que teve a primeira sensação que poderia fazer o que quisesse. Uma de suas professoras disse a ele que todos poderiam ser o que desejavam. “Eu perguntei para ela ‘posso ser o presidente da República?’ e ela disse que poderia. Tenho uma forte lembrança do Barack Obama <CF51>(ex-presidente dos Estados Unidos)</CF> chegando ao poder, e lembro da alegria também por uma construção identitária ao perceberem ser um homem negro chegando lá,” relata.
CONTINUIDADE
O Bento Correia Capistrano, 4 anos, aprende sobre as histórias dos ancestrais diariamente. Na última semana, ele e a mãe, a cantora Ana Cacimba, 33, viajaram para o quilombo Caititu do Meio, na cidade de Berilo, no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. “Eu gostei de montar no boi”, disse Bento, que também viu porcos e alimentou as galinhas durante o passeio. “Foi onde a minha mãe e avó nasceram. Passei minha infância lá”, comenta Ana.
Enquanto relembrava a visita, Bento folheava o livro favorito, chamado Cumarim, a Pimenta do Reino e perguntava “O que é isso, mamãe?”. Ana, atenta, respondeu “uma menina de turbante.” Em seguida, ele questionava “e isso?”. A mãe afirmou “é o nariz, boca e os brincos dela.” Assim, aos poucos, Ana traz para a vivência do garoto referências negras e a importância de ter orgulho das próprias origens. “Por meio de brincadeiras, jogos populares e leituras, ele se conecta com as culturas africanas. É essencial valorizar o lugar que viemos”, completa a mãe.
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