Inaugura hoje Artistas e moradores inauguram hoje painel de arte urbana que se torna cartão postal da comunidade da Nova Vila Salvador Arena
DGABC/André Henriques

A Rua Salvador Arena, no Jardim Petroni, em São Bernardo, e as travessas em seu entorno foram construídas a partir de sonho comum e de atitudes altruístas. O caminho estreito, de 450 metros de extensão, é o que separa 166 casas e o muro de terreno vizinho, pertencente ao cemitério Jardim da Colina. A realidade das famílias dessa área começou a ser transformada a partir de 2004, por meio de projeto social e de habitação liderado pela Fundação Salvador Arena.
Quase 18 anos depois, moradores da antiga Favela Itatiba, a Nova Vila Salvador Arena, e artistas locais voltam a se unir e inauguram hoje, às 9h, novo marco para comunidade. Dessa vez, é o grafite que traz vida nova ao espaço, com a missão de levar o nome da Rua Salvador Arena, batizada agora de Beco das Casinhas, para muito além de seus muros.
“Os bairros de periferia não têm muita visibilidade. Os mais conhecidos são a Vila Madalena, e outros assim. Eu queria trazer isso para cá e também fazer os moradores conhecer um pouco mais de arte”, contou Rodrigo Fortunato Menezes, 40 anos, conhecido como Tigre. O artista visual foi um dos idealizadores do projeto, que reuniu cerca de 50 grafiteiros de diferentes regiões, incluindo o Jardim Petroni.
O muro da Rua Salvador Arena se transformou em um grande painel onde, nas últimas semanas, técnicas como desenhos em 3D, bombs (estilo de letras arredondadas) e freestyle (estilo livre) foram aplicadas. O contraste de cores e formas chamam a atenção de quem passa pela via pela primeira vez, mas também de quem há anos estava acostumado a sair de casa e dar de cara com o cinza e a sujeira do antigo muro.
Thainá Nicole da Silva, 9, moradora de uma das travessas do Beco das Casinhas, lembra como estava o “paredão” há alguns dias. “Ele era muito feio, né? Tinha uns desenhos, mas estavam desbotando”, recorda. “Agora está mais bonito, mais colorido”, contou a menina, que disse que o que mais gosta em sua vila são as pessoas e os amigos. O pai de Thainá, Franciê Paulino da Silva, 50, integrou a primeira comissão de moradores que atuou junto à Fundação Salvador Arena, no início dos anos 2000, no processo de revitalização da área.
Depois de tantas lutas e avanços, a comunidade segue mobilizada em busca de mais melhorias. “A gente pensa em pintar não só os muros. Lá em cima começamos a pintar a quadra (conjunto de casa). Queremos deixar isso aqui um cartão postal para chamar a atenção e mostrar que estamos cuidando e preservando nosso espaço. Você sabe que na favela a gente ganha tudo bonitinho, mas as pessoas não dão valor. Aqui teve reeducação e está tendo união. Estamoscomeçando a crescer”, revelou Franciê.
Tigre começou a grafitar com 16 anos. No início, as intervenções eram feitas em lugares não autorizados. “Eu comecei, vou ser sincero, rabiscando parede dos outros”, lembra. Foi sua mãe que mostrou que aqueles traços poderiam se tornar arte. “Aquilo entrou na minha mente e eu não parei mais”, afirmou.
Reunir o que Tigre considera “uma seleção” de artistas para compor o grande painel de grafite do Beco das Casinhas recompensa todo o esforço do grupo, que trabalhou voluntariamente na pintura, com a contribuição da comunidade. “Muito bom ver como estava antes e como está agora. Os moradores aqui hoje acordam e olham para o muro. Acorda feliz, né? E o grafite tem tudo a ver com a periferi”.
COMUNIDADE
Assim como em outras conquistas, a revitalização do muro é fruto do sentimento de coletividade dos moradores. São quase 700 pessoas que residem na área, representados pela Associação Nova Vila Salvador Arena. “No ano passado, enxergamos grande pontencial na comunidade, mas em algumas áreas estava carente”, explicou Renan Melo Barbosa, 27, um dos diretores executivos da Associação.
Entre as atividades promovidas nos centros comunitários da vila estão cursos de música e alfabetização para idosos, aulas de zumba, cinema comunitário e brinquedoteca. “E no decorrer desses projetos veio o muro. A gente passou de casa em casa pegando o que cada morador poderia doar. Uns doaram R$ 1, outros R$ 5. O que definiu foi a união dessa nova era que estamos vivendo. Essa união teve um ponto de partida, e ela não vai ter um ponto final”, ressaltou Renan.
Para o gerente de Desenvolvimento e Promoção Social da Fundação Salvador Arena, Sérgio Loyola, que acompanhou todo o processo de revitalização da antiga Favela Itatiba, o Beco das Casinhas tem significado especial. “Ver uma obra dessa magnitude, e ainda mais com homenagem ao doutor Arena (na entrada da rua, onde está a sede da Associação), é emocionante!”, disse.
Nova Vila Salvador Arena colhe frutos de pioneirismo
Os primeiros moradores da antiga Favela Itatiba, na região do Jardim Petroni, São Bernardo, iniciaram ocupação da área em 1968. O lugar coleciona histórias de famílias que, assim como a de Franciê Paulino da Silva, buscavam uma vida melhor para o futuro.
A área por onde hoje pessoas e carros circulam, a Rua Salvador Arena, era até o início dos anos 2000 um córrego aberto. “Dava uma chuva, alagava tudo. A gente perdia os móveis. Quando estava se recuperando, vinha outra chuva. Eu vim com minha mãe do Ceará. A gente não tinha condições de pagar aluguel. As condições na época era enfrentar um barraco e conseguir, futuramente, crescimento”, recorda Franciê.
Em 2004, a FSA (Fundação Salvador Arena) iniciou o Projeto Habitacional Itatiba, ação pioneira e uma das maiores da instituição. A FSA destinou R$ 6,7 milhões para a construção das 166 unidades habitacionais de 50 metros quadrados, seis deles adaptadas para pessoas portadoras de necessidades especiais, e um centro comunitário. A Prefeitura realizou aporte de R$ 3,4 milhões com a cessão do terreno, infraestrutura e para obras de saneamento básico, que incluiu a canalização do antigo Córrego Itatiba.
“Esse (projeto) foi um desafio grande pelo tamanho e complexidade. Essa era uma comunidade de casas de palafita, à beira de um córrego”, explicou o gerente de Desenvolvimento e Promoção Social da FSA, Sérgio Loyola.
As famílias foram temporariamente removidas durante as obras, para casa de familiares ou inseridas em programa de aluguel social da Prefeitura. Em 2009, os moradores iniciaram a ocupação das novas moradias.
Além da construção das casas, a FSA desenvolveu, também, programa de pós-ocupação, marcado por ações de educação condominial, organização social e comunitária e educação ambiental. Houve ainda o oferecimento de cursos profissionalizantes aos moradores e de capacitação de lideranças, para a formação da associação de moradores. O projeto foi finalizado em 2014.
Os moradores abriram Centro de Convivência e homenagearam a Fundação, batizando, à época, o espaço de Conjunto Residencial Nova Vila Salvador Arena. A Prefeitura de São Bernardo prestou reconhecimento nomeando a rua principal do condomínio de Rua Salvador Arena.
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