
Os dois volumes, que também comemoram os 40 anos da revista do Tio Patinhas no Brasil, reúnem os 12 capítulos que contam a história de Scrooge MacDuck (seu nome original, em inglês). Começa com a infância pobre em um clã decadente de Glasgow, na Escócia, no século XIX, passa pelas aventuras pelo mundo para encontrar ouro e escapar de ladrões, e culmina com a construção de seu império financeiro em Patópolis (Duckburg) e a solidão, em 1947, antes de reencontrar seus sobrinhos e iniciar novas aventuras. Nesta cidade que prosperou graças aos os empreendimentos Patinhas, ele ergueu sua caixa-forte (o símbolo $ refere-se à seu nome, Scrooge).
Como começou seu império? Quem eram seus pais? Tinha irmãs (afinal, o Pato Donald nasceu de alguém...)? Como encheu a caixa-forte? Há muita pesquisa envolvendo a vida do quaquilionário que, de jovem idealista, vai aos poucos se tornando rabugento e sovina, mas continua capaz de vender cortador de grama no deserto do Saara e correr atrás de ladrões se o prejuízo for de apenas um dólar.
O responsável por A Saga do Tio Patinhas é Keno Don Rosa, ilustrador e roteirista de quadrinhos norte-americano, herdeiro, por assim dizer, de Carl Barks (1900-2000), o criador, entre outros, do Tio Patinhas, em 1947, para a Disney. O pato milionário surge em uma história inspirada em Um Conto de Natal, de Charles Dickens, da qual Barks aproveitou o avarento ranzinza e seu primeiro nome, Scrooge, e na qual Rosa põe o ponto final em sua saga. São de Barks as histórias onde Patinhas comenta passagens de sua vida com seus sobrinhos Donald, Huguinho, Zezinho e Luisinho (Huey, Dewey e Louie), entre uma aventura e outra caçando tesouros em territórios com nomes que geralmente terminavam em "tão" ou "onga". Don Rosa se valeu desses comentários, além de muita pesquisa de fatos históricos e lugares.
Por exemplo, a moedinha Número 1, que muitos consideram a fonte da fortuna do Tio Patinhas, uma espécie de amuleto, é desmitificada, fato que fica evidente na última parte da saga. No primeiro capítulo, Don Rosa narra como Patinhas, aos 10 anos, a obteve em Glasgow, por volta de 1877: engraxando as botas imundas de um limpador de fossas. A moeda, 10 centavos de dólar norte-americano, não valia nada na Escócia, mas o pequeno pato jurou que nunca mais seria enganado. Daí em diante, foi só trabalho duro.
Viajou para os Estados Unidos, de onde mandava dinheiro para sua família (pai, mãe e duas irmãs, uma delas a futura mãe do Pato Donald) trabalhou de foguista e vaqueiro até descobrir sua vocação de minerador. Viveu aventuras principalmente nos Estados Unidos, mas também na África do Sul, na Austrália e finalmente no Alaska, onde Patinhas finalmente conseguiu seu primeiro milhão. Ele encontra vilões que apareceram nas revistinhas como os incansáveis Metralhas (Beagle Boys), Porcolino Leitão, MacMônei e o futuro arqui-rival, Patacôncio, apresentado bem mais jovem que o Patinhas como um mimado menino rico. Foi o pai de Patacôncio quem ensinou Patinhas a minerar. E isso é só o primeiro volume.
Desenho apurado – Don Rosa é um excelente ilustrador. Seu desenho é rico em detalhes (vide a paisagem do Alaska, da África, da Austrália, ou a da Nova Orleans de 1880). As maiores críticas que se pode fazer à editora é quanto à demora na publicação em relação à edição norte-americana e quanto ao tamanho. O formatinho, embora acompanhe o padrão dos gibis tradicionais no Brasil, fica aquém do detalhamento visual.
Ao fim de A Saga do Tio Patinhas, como em um DVD, páginas de extras sobre referências históricas que viraram piadinhas e uma arvore "patológica" do clã Patinhas, da família Pato (de onde vem o pai de Donald) e da família Patus, fundadora de Patópolis. Há dicas de onde encontrar algumas citações de Mickey. Em uma delas, o rato está esmagado sob a pata de um elefante. Drama e humor dão as mãos em equilíbrio ideal neste que está longe de ser um gibizinho qualquer.
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