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Biografia de Tio Patinhas chega com 11 anos de atraso ao país

Alessandro Soares
Do Diário do Grande ABC
02/08/2003 | 16:17
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Adultos e crianças, preparem-se. Nunca um personagem Disney expressou tanta emoção ou foi tão imoral como na histórica edição em dois volumes A Saga do Tio Patinhas (Editora Abril, 162 págs., R$ 5,90 cada). É a mais humana biografia que um pato já teve. Chega ao Brasil com 11 anos de atraso em relação a seu lançamento nos Estados Unidos, publicado em 12 edições entre 1992 e 1994. Aparece por aqui, porém, iluminada pela luzes do prêmio Eisner, o Oscar dos quadrinhos, concedido em 1995 como a melhor HQ em série. Uma história que não está no gibi. Do Tio Patinhas, pelo menos.

Os dois volumes, que também comemoram os 40 anos da revista do Tio Patinhas no Brasil, reúnem os 12 capítulos que contam a história de Scrooge MacDuck (seu nome original, em inglês). Começa com a infância pobre em um clã decadente de Glasgow, na Escócia, no século XIX, passa pelas aventuras pelo mundo para encontrar ouro e escapar de ladrões, e culmina com a construção de seu império financeiro em Patópolis (Duckburg) e a solidão, em 1947, antes de reencontrar seus sobrinhos e iniciar novas aventuras. Nesta cidade que prosperou graças aos os empreendimentos Patinhas, ele ergueu sua caixa-forte (o símbolo $ refere-se à seu nome, Scrooge).

Como começou seu império? Quem eram seus pais? Tinha irmãs (afinal, o Pato Donald nasceu de alguém...)? Como encheu a caixa-forte? Há muita pesquisa envolvendo a vida do quaquilionário que, de jovem idealista, vai aos poucos se tornando rabugento e sovina, mas continua capaz de vender cortador de grama no deserto do Saara e correr atrás de ladrões se o prejuízo for de apenas um dólar.

O responsável por A Saga do Tio Patinhas é Keno Don Rosa, ilustrador e roteirista de quadrinhos norte-americano, herdeiro, por assim dizer, de Carl Barks (1900-2000), o criador, entre outros, do Tio Patinhas, em 1947, para a Disney. O pato milionário surge em uma história inspirada em Um Conto de Natal, de Charles Dickens, da qual Barks aproveitou o avarento ranzinza e seu primeiro nome, Scrooge, e na qual Rosa põe o ponto final em sua saga. São de Barks as histórias onde Patinhas comenta passagens de sua vida com seus sobrinhos Donald, Huguinho, Zezinho e Luisinho (Huey, Dewey e Louie), entre uma aventura e outra caçando tesouros em territórios com nomes que geralmente terminavam em "tão" ou "onga". Don Rosa se valeu desses comentários, além de muita pesquisa de fatos históricos e lugares.

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Por exemplo, a moedinha Número 1, que muitos consideram a fonte da fortuna do Tio Patinhas, uma espécie de amuleto, é desmitificada, fato que fica evidente na última parte da saga. No primeiro capítulo, Don Rosa narra como Patinhas, aos 10 anos, a obteve em Glasgow, por volta de 1877: engraxando as botas imundas de um limpador de fossas. A moeda, 10 centavos de dólar norte-americano, não valia nada na Escócia, mas o pequeno pato jurou que nunca mais seria enganado. Daí em diante, foi só trabalho duro.

Viajou para os Estados Unidos, de onde mandava dinheiro para sua família (pai, mãe e duas irmãs, uma delas a futura mãe do Pato Donald) trabalhou de foguista e vaqueiro até descobrir sua vocação de minerador. Viveu aventuras principalmente nos Estados Unidos, mas também na África do Sul, na Austrália e finalmente no Alaska, onde Patinhas finalmente conseguiu seu primeiro milhão. Ele encontra vilões que apareceram nas revistinhas como os incansáveis Metralhas (Beagle Boys), Porcolino Leitão, MacMônei e o futuro arqui-rival, Patacôncio, apresentado bem mais jovem que o Patinhas como um mimado menino rico. Foi o pai de Patacôncio quem ensinou Patinhas a minerar. E isso é só o primeiro volume.

Desenho apurado – Don Rosa é um excelente ilustrador. Seu desenho é rico em detalhes (vide a paisagem do Alaska, da África, da Austrália, ou a da Nova Orleans de 1880). As maiores críticas que se pode fazer à editora é quanto à demora na publicação em relação à edição norte-americana e quanto ao tamanho. O formatinho, embora acompanhe o padrão dos gibis tradicionais no Brasil, fica aquém do detalhamento visual.

Ao fim de A Saga do Tio Patinhas, como em um DVD, páginas de extras sobre referências históricas que viraram piadinhas e uma arvore "patológica" do clã Patinhas, da família Pato (de onde vem o pai de Donald) e da família Patus, fundadora de Patópolis. Há dicas de onde encontrar algumas citações de Mickey. Em uma delas, o rato está esmagado sob a pata de um elefante. Drama e humor dão as mãos em equilíbrio ideal neste que está longe de ser um gibizinho qualquer.




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