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Um cenário de guerra

Nario Barbosa/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Do Diário do Grande ABC

27/03/2021 | 00:19


Houve dias, em tempos melhores, que o hospital de campanha do Complexo Esportivo Pedro Dell’Antonia tinha apenas 40 pacientes internados simultaneamente. Hoje, apenas os entubados passam de 40. Os 400 leitos existentes estão praticamente todos tomados.

Praticamente neste caso significa 98%, margem mínima de segurança para fazer alguma transferência interna ou uma admissão de urgência. “Quando a gente fala em 98% de ocupação é porque a gente chegou ao limite”, explica o médico Victor Chiavegato, superintendente dos hospitais de campanha de Santo André.

E ele sabe do que está falando. Chiavegato está no Dell’Antonia desde o primeiro dia, ainda antes de a unidade entrar em operação, quando as arquibancadas foram silenciadas e retiradas as cestas de basquete. Os gritos das torcidas se transformaram em lamentos e chamadas de emergência, com as sirenes das ambulâncias sempre como trilha sonora de fundo.

O médico diz que chegou a considerar o primeiro momento da pandemia como o mais terrível. Infelizmente estava errado. O pior momento é agora.

Pior momento para muitos brasileiros, incluindo a andreense Sandra Regina Carrilo da Silva, que escapou do vírus, mas não da morte. (leia box)

Chiavegato faz essa declaração de um mezanino de onde a vista alcança toda a extensão do ginásio, um leito ao lado do outro, com espaço entre eles apenas para equipamentos de respiração e monitores iluminados cheios de números e dados controlando o agravamento da doença em cada um dos internados.

Os olhos pregados em cada visor, sempre atentos, com visível sinal de cansaço, ele desabafa. “Quando a gente consegue deitar um pouco para descansar, aqui mesmo no ginásio, porque não dá tempo de ir para casa, a gente fica ouvindo o barulho das ambulâncias o tempo todo. É muito chocante o que estamos vivendo neste momento.”

Não é sensacionalismo o que passa na TV. É realidade.

A enfermeira Ana Paula Moíno Janoti, coordenadora dos hospitais de campanha, faz o alerta com um olhar de pesar. “Daqui a pouco vamos ter de escolher quem vai ficar no respirador. Aqui tem mãe, aqui tem pai, tem filhos... Eu tenho medo de isso acontecer. Ser responsável por quem vive e quem morre. É um peso muito grande e estamos vendo que esse momento vai chegar.”

Pelo menos 5.000 pessoas contaminadas pela Covid passaram pelo Dell’Antonia desde 16 de abril de 2020, quando o hospital recebeu os primeiros pacientes. São 5.000 histórias de vidas cuja maioria, graças a Deus, voltou para casa, para alegria das famílias.

Mas hoje a situação é de bem menos esperança. Esgotada, entre um paciente e outro, a enfermeira Juliane Gentile Cherit, coordenadora de enfermagem do Dell’Antonia, tem outro diagnóstico da atual situação da unidade: o número de internações cresce diariamente. Grande parte é de jovens, de até 18 anos. Os casos são graves porque os jovens procuram atendimento mais tarde e a evolução da doença fica mais rápida.

Os doentes estão chegando tarde demais, porque estão esperando muito e nem sempre se consegue fazer todo o necessário. Está morrendo mais gente.

A mudança no perfil do doente preocupa a enfermeira Michele Aparecida Fonceca, porque, além de jovens, eles não apresentam comorbidades. Mesmo assim, a doença se agrava. “Os jovens pensam que é só uma gripe e não buscam ajuda. O número de vírus vai aumentando no organismo e quando se dão conta, já estão bastante debilitados.”

E, mais grave, em casa essa pessoa já passou a Covid, no mínimo, para dez pessoas. Pelo menos. Esta é uma infecção muito rápida, muito silenciosa, e quando a pessoa vê, já está com o organismo tomado.

O superintendente Victor Chiavegato avalia que a situação nunca esteve tão ruim. Ele conta que toda a rotina do hospital de campanha precisou ser modificada para atender à nova demanda. A unidade no Dell’Antonia cuidava de casos leves a moderados. Mas teve de se adequar para dar conta de cuidar dos casos graves.

“Na (unidade do hospital de campanha na Universidade) Federal (do ABC), uma paciente me perguntou se podia ir pra casa; quase implorou, dizendo que iria com o cilindro de ar. Dizia que queria se despedir da família porque sabia que não sobreviveria.” O médico fez de tudo para acalmá-la, numa tentativa de renovar suas forçar, até porque não poderia levar o vírus para fora. No dia seguinte, quando voltou lá, ela já estava entubada.

A realidade é muito desgastante. Chiavegato olha para aquele número imenso de pacientes, tantas histórias diferentes, tantas famílias angustiadas esperando que voltem para casa. “É um cenário muito difícil, muito dolorido.”

A enfermeira Ana Paula Janoti concorda. “As coisas foram se complicando, a gravidade da doença e isso vai mexendo não só com a parte física da gente, mas mental e psicológica.”

Ela acredita que o desgaste seja ainda maior para quem tem filhos. “Muitas vezes a gente abre mão de estar em casa com eles para estar aqui. Os pacientes passam a ser da família da gente, porque acompanhamos desde o momento em que entram até que saem, e às vezes eles pioram.... isso é doído.”

O pior ainda está por vir

Animada com a alta que receberia no dia seguinte, Sandra Regina Carrilo da Silva não sabia que o pior estava esperando por ela, que já havia perdido um filho para a Covid no início da pandemia. Mas a vida precisa seguir e ela pensava na alegria de reencontrar a família para matar a saudade.
<EM>Ela conta que o filho caçula saiu de casa para pagar o aluguel e voltou contaminado. Na correria para socorrer o rapaz, o pai também precisou ser internado e os dois foram entubados na Santa Casa. A nora e a neta não escaparam, mas apresentaram sintomas leves.

Ela acredita que o filho tenha passado a doença, porque eles pouco saíam de casa. “Como ele é gordinho, atacou o rim, teve que fazer hemodiálise; minha neta chora até hoje... Coitadinha. Ele é pai de uma menina de 7 anos.”

Sandra precisou de oxigênio e conseguiu se recuperar. Apenas para receber péssimas notícias. Ao receber alta, foi informada de que o filho morrera. Não havia sido avisada para não piorar sua situação. O terceiro filho foi chamado ao hospital pelo psicólogo Yago das Neves Jacinto, para amparar a mãe num momento tão difícil.

O próprio psicólogo se preparava para a difícil missão de acompanhar a família no reconhecimento do corpo. A tarefa é cumprida com profissionalismo, mas, depois, assistentes sociais e psicólogos precisam de uns momentos para respirar fundo e se recomporem. Para a próxima missão.

O terceiro filho de Sandra acreditava que a mãe ficaria bem. "É uma mulher forte.” Ele a recebeu depois da alta, mas não pôde evitar dar mais uma notícia desesperadora: o marido de Sandra também morrera, apenas dois dias depois de ela voltar para casa.  



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