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‘Esquerda vai se opor a Bolsonaro. E a direita?’, diz Haddad

Ricardo Stuckert//Agência Brasil Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Raphael Rocha
Do Diário do Grande ABC

01/03/2021 | 00:40


Colocado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como candidato do partido à presidência da República em 2022, o ex-prefeito paulistano Fernando Haddad clamou para que setores da direita preocupados com a democracia façam oposição ao atual presidente Jair Bolsonaro (sem partido). O petista admite que foi doloroso ver figuras do PSDB e do PDT embarcando na campanha bolsonarista no segundo turno em 2018, quando ele foi superado pelo capitão. Para Haddad, mais do que frente de esquerda, é preciso ter união ampla para derrotar o bolsonarismo, independentemente se partidos optarem por lançar seus nomes no primeiro turno.

Como o senhor avaliou as vitórias do PT nas eleições em Diadema e em Mauá?
Para nós foram vitórias significativas. O PT é resultado da confluência de vários fenômenos sociais simultâneos, dentre os quais o novo sindicalismo do Grande ABC, atuação de comunidades eclesiásticas de base e outros movimentos populares. Tudo isso gerou o PT. O fato de Diadema e Mauá terem dado vitória foi algo muito significativo para nós. Compensou muitas coisas que nos entristeceram ao longo desses anos.

O senhor conversou com os prefeitos José de Filippi Júnior (Diadema) e Marcelo Oliveira (Mauá)? De que forma pode ajudar?
O Filippi foi meu primeiro secretário de Saúde. Em virtude de visita que fiz ao Quarteirão da Saúde quando era candidato (em 2012, à prefeitura da Capital), vi ali a capacidade dele. Não à toa que os 20 hospitais da Rede Hora Certa que entregamos na gestão foram inspirados na experiência de Diadema.

O senhor acredita que as vitórias trazem peso adicional ao trabalho de Filippi e Marcelo, já que viram vitrine de gestão petista?
Eu conheço melhor o Filippi, até por ele ter trabalhado comigo por mais de dois anos. É figura experimentada, conhecida, já tinha sido prefeito da cidade por três vezes, foi meu secretário de Saúde, uma pasta que tem o segundo maior orçamento da maior cidade da América Latina. É pessoa experimentada. Não acredito que esse cenário que você descreveu cause receio da parte dele. Na minha visão, como o País atravessa momento dramático, acho que isso cause mais preocupação a ele.

As vitórias nessas prefeituras são a retomada da força do PT, com redução do antipetismo?
Estou vindo de Minas Gerais nesta semana (semana passada) e lá me encontrei com a Margarida (Salomão, PT) e com a Marília (Campos, PT), prefeitas de Juiz de Fora e de Contagem, duas das quatro maiores cidades do Estado. Acredito muito na retomada em nível municipal. Temos quatro governadores excepcionais no País (Rui Costa, Bahia; Fátima Bezerra, Rio Grande do Norte; Camilo Santana, Ceará; Wellington Dias, Piauí). Tudo isso me faz crer que o PT continua forte na corrida presidencial. Tanto que aquela intenção original da direita, aquele sonho da direita, em fazer o PT deixar de existir se frustrou. E, veja, foi a direita que abriu espaço para a extrema-direita bolsonarista. O fracasso do PSDB no País, não só em São Paulo, abriu espaço para o bolsonarismo.

Há possibilidade de o PT não ter candidato a presidente em 2022?
O PT sempre defendeu a tese de que os partidos têm efetivamente de lançar candidato no primeiro turno. Cada um tem estratégia. O PT sempre respeitou isso. Inclusive em 2018. O PDT lançou o Ciro (Gomes), Psol lançou o (Guilherme) Boulos. O PT lançou seu candidato (Haddad). Sempre achei que, no caso de a extrema-direita estar no poder, tem de haver pacto democrático no segundo turno. Para que todo mundo colabore para a derrota do extremismo, que coloca em risco a democracia e os direitos sociais. É o que acontece no momento.

O que ficou de lição da eleição de 2018 para ser corrigido na próxima corrida presidencial?
Nós não esperávamos que o PSDB, por exemplo, e os próprios candidatos do PDT que foram ao segundo turno (nos pleitos a governador de seus Estados) declarassem voto no Bolsonaro. Do nosso ponto de vista, essa foi a principal dificuldade de 2018. Foi doloroso. Além disso, entendo que conseguimos demonstrar, com provas cabais, que houve perseguição clara ao (ex-)presidente Lula. Não tem a menor dúvida disso. O (ex-juiz Sergio) Moro não agiu como juiz, agiu como líder de acusação. O que é ilegal. A população só não entende mais isso porque os grandes grupos de comunicação do País não levam ao conhecimento o que aconteceu nos bastidores de Curitiba. Existe quase um pacto da elite de não informar a população sobre as ilegalidades cometidas.

O senhor critica a grande mídia, mas temos visto movimentos de Bolsonaro justamente voltado à grande mídia. Se a grande mídia ajuda o Bolsonaro, ele não teria de agir ao contrário?
Isso é jogo de cena. O Bolsonaro está absolutamente comprometido com a agenda Faria Lima (em referência à Avenida Faria Lima, que concentra escritórios de grandes bancos em São Paulo). Ele é a combinação da agenda Faria Lima com agenda do quinto dos infernos. O saldo são 250 mil mortos (pela Covid-19) e dezenas de milhões de desempregados.

O senhor acredita que o cenário de 2018, de polarização entre PT e Bolsonaro, vai se repetir ou há espaço para terceira via?
Acredito que o cenário de 2018 não se repetirá. Há indicações claras que o STF (Supremo Tribunal Federal) vai se manifestar sobre a parcialidade ou não do Moro (nas ações envolvendo Lula) ainda no primeiro semestre deste ano. Teremos aí um desfecho disso.

Se o STF absolver Lula, o senhor acha que ele tem de ser o candidato do PT à Presidência?
Depois de tudo que ele sofreu, toda injustiça que sofreu, tem preferência e entusiasmo 100% da militância.

O avanço de partidos do denominado Centrão nas eleições municipais de 2020 é um termômetro para 2022?
Os partidos que são egressos do apoio à ditadura cresceram em 2020. O DEM apoiava a ditadura, rompeu no último minuto. A origem dele é a base da ditadura, não tem compromisso partidário.

E hoje Bolsonaro está próximo do Centrão. É fator que pode desequilibrar?
Hoje o Bolsonaro conta com apoio do crime organizado. Essa coisa de armar a milícia e o crime organizado é algo muito sério. Mas vejo que eles (bolsonaristas) estão perdendo base popular. Ninguém concorda com isso. Se perguntar às pessoas se elas concordam com o crime organizado ninguém responde positivamente. O Bolsonaro imagina que crime organizado possa mantê-lo.

Sustentar uma candidatura petista à Presidência não é dar ao Bolsonaro o inimigo que ele queira enfrentar?
Tem de haver pacto para que o democrata que for ao segundo turno tenha apoio dos demais. E, com isso, tenha condições de vencer a eleição. Se quiser mudar política econômica, o PT é o partido mais gabaritado. Evidentemente que em uma democracia a maioria define o rumo do País. A maioria deseja que o pêndulo que foi muito forte para o lado do capital volte para o lado do trabalho também. A direita assumiu o poder com o golpe do (Michel) Temer (MDB, que emergiu à Presidência após o impeachment de Dilma Rousseff, PT, em 2016) e estamos indo para o sexto ano de política de desmonte do estado de bem-estar social. Acredito que o cidadão queira dar uma guinada em relação a isso. São seis anos de política de corte de direitos.

Nos últimos anos tem aumentado consideravelmente o número de abstenções, votos brancos e nulos. Nos Estados Unidos, na contramão do Brasil, foi registrada a maior participação da história em uma eleição presidencial. O senhor acredita que a eleição de 2022 no Brasil terá a continuidade da rejeição à política ou o engajamento, como visto nos Estados Unidos?
O País vai defender a democracia. A minoria pode causar distúrbio, isso tem de estar no nosso radar. Distúrbios semelhantes aos que aconteceram nos Estados Unidos. Mas vejo que o brasileiro não vai abrir mão da democracia para defender um governo que fracassou em todas as frentes.

É viável uma candidatura presidencial de Luciano Huck?

Esse pessoal não tem projeto. Essa turma não tem projeto para o País. Mas vão ter apoio midiático, isso vão ter. A grande imprensa e o mercado adoram sujeito medíocre que não tem projeto e adota o deles. Não vou citar nomes porque não gosto de classificar as pessoas. Mas tudo o que mercado sonha é alguém que assimile a agenda dele. O PSDB está em uma situação, segundo o próprio Fernando Henrique (Cardoso, ex-presidente da República), de declínio acentuado. O Bolsonaro ocupou o lugar da direita no País. Isso que a grande imprensa não consegue enxergar. Queriam derrotar o PT, mas acabaram derrotando mesmo foi o PSDB.

O senhor acha que o governador João Doria (PSDB) terá condições de ser candidato a presidente em 2022?
Para mim, ele não tinha experiência nem política nem administrativa quando se candidatou à prefeitura (em 2016, impedindo sua reeleição). Difícil responder a essa pergunta porque não conheço a disputa interna do PSDB. Não tenho detalhes disso. Não acompanho a disputa interna, só pela imprensa.


Qual avaliação o senhor faz da participação do PT na eleição na Capital em 2020?
O Jilmar (Tatto, prefeiturável petista) foi bem e poderia ter ido melhor (Tatto ficou na sexta colocação, longe de ir ao segundo turno). Cometemos na campanha alguns pequenos erros. Poderia ter ido melhor. Acho importante que a esquerda se fez representar, praticamente alcançou o patamar de votos que tive em 2018, que foram cerca de 40% na Capital. Acho que lançamos um nome que se projetou de alguma maneira. Não deixa de ser quadro que ganhou projeção.

O senhor acha que o Psol tem ocupado espaço que o PT deixou vazio na esquerda?
Não saberia dizer agora. Mas foi eleição muito atípica em São Paulo. Não sei se no âmbito do Estado se repetiu.

O senhor conversou com Boulos para construção de frente de esquerda já no primeiro turno?
A gente conversa com frequência. Ele esteve na minha casa, eu estive na dele. Somos bons amigos. Vamos fazer todo esforço para ampliar no primeiro turno. Obviamente faremos isso. No frigir dos ovos, o que vai definir a eleição de 2022 é a situação do governo Bolsonaro e a postura daqueles que têm compromisso com a democracia. A esquerda vai votar contra o Bolsonaro. Não é a dúvida de 2022. A dúvida é o que vai fazer a direita, não a esquerda.

O senhor tem dialogado com setores da direita que tenham essa preocupação democrática que o senhor fala?
Tenho feito isso. Em Minas, falei com o prefeito de Belo Horizonte, o Alexandre Kalil (PSD). Há um total sentimento de preocupação com o futuro do País. Até mesmo o Rodrigo Maia (ex-presidente da Câmara Federal, DEM) disse que se arrependeu em votar no Bolsonaro e que se a eleição fosse hoje iria votar em mim.

RAIO-X

Nome: Fernando Haddad

Estado civil: casado

Idade: 58 anos

Local de nascimento: São Paulo

Formação: direito, mestre em economia e doutor em filosofia

Hobby: ler, de preferência na Bahia

Local predileto: Bahia

Livro que recomenda: Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis

Artista que marcou sua vida: Agustín Barrios, violonista 

Profissão: professor

Onde trabalha: Insper



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‘Esquerda vai se opor a Bolsonaro. E a direita?’, diz Haddad

Raphael Rocha
Do Diário do Grande ABC

01/03/2021 | 00:40


Colocado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como candidato do partido à presidência da República em 2022, o ex-prefeito paulistano Fernando Haddad clamou para que setores da direita preocupados com a democracia façam oposição ao atual presidente Jair Bolsonaro (sem partido). O petista admite que foi doloroso ver figuras do PSDB e do PDT embarcando na campanha bolsonarista no segundo turno em 2018, quando ele foi superado pelo capitão. Para Haddad, mais do que frente de esquerda, é preciso ter união ampla para derrotar o bolsonarismo, independentemente se partidos optarem por lançar seus nomes no primeiro turno.

Como o senhor avaliou as vitórias do PT nas eleições em Diadema e em Mauá?
Para nós foram vitórias significativas. O PT é resultado da confluência de vários fenômenos sociais simultâneos, dentre os quais o novo sindicalismo do Grande ABC, atuação de comunidades eclesiásticas de base e outros movimentos populares. Tudo isso gerou o PT. O fato de Diadema e Mauá terem dado vitória foi algo muito significativo para nós. Compensou muitas coisas que nos entristeceram ao longo desses anos.

O senhor conversou com os prefeitos José de Filippi Júnior (Diadema) e Marcelo Oliveira (Mauá)? De que forma pode ajudar?
O Filippi foi meu primeiro secretário de Saúde. Em virtude de visita que fiz ao Quarteirão da Saúde quando era candidato (em 2012, à prefeitura da Capital), vi ali a capacidade dele. Não à toa que os 20 hospitais da Rede Hora Certa que entregamos na gestão foram inspirados na experiência de Diadema.

O senhor acredita que as vitórias trazem peso adicional ao trabalho de Filippi e Marcelo, já que viram vitrine de gestão petista?
Eu conheço melhor o Filippi, até por ele ter trabalhado comigo por mais de dois anos. É figura experimentada, conhecida, já tinha sido prefeito da cidade por três vezes, foi meu secretário de Saúde, uma pasta que tem o segundo maior orçamento da maior cidade da América Latina. É pessoa experimentada. Não acredito que esse cenário que você descreveu cause receio da parte dele. Na minha visão, como o País atravessa momento dramático, acho que isso cause mais preocupação a ele.

As vitórias nessas prefeituras são a retomada da força do PT, com redução do antipetismo?
Estou vindo de Minas Gerais nesta semana (semana passada) e lá me encontrei com a Margarida (Salomão, PT) e com a Marília (Campos, PT), prefeitas de Juiz de Fora e de Contagem, duas das quatro maiores cidades do Estado. Acredito muito na retomada em nível municipal. Temos quatro governadores excepcionais no País (Rui Costa, Bahia; Fátima Bezerra, Rio Grande do Norte; Camilo Santana, Ceará; Wellington Dias, Piauí). Tudo isso me faz crer que o PT continua forte na corrida presidencial. Tanto que aquela intenção original da direita, aquele sonho da direita, em fazer o PT deixar de existir se frustrou. E, veja, foi a direita que abriu espaço para a extrema-direita bolsonarista. O fracasso do PSDB no País, não só em São Paulo, abriu espaço para o bolsonarismo.

Há possibilidade de o PT não ter candidato a presidente em 2022?
O PT sempre defendeu a tese de que os partidos têm efetivamente de lançar candidato no primeiro turno. Cada um tem estratégia. O PT sempre respeitou isso. Inclusive em 2018. O PDT lançou o Ciro (Gomes), Psol lançou o (Guilherme) Boulos. O PT lançou seu candidato (Haddad). Sempre achei que, no caso de a extrema-direita estar no poder, tem de haver pacto democrático no segundo turno. Para que todo mundo colabore para a derrota do extremismo, que coloca em risco a democracia e os direitos sociais. É o que acontece no momento.

O que ficou de lição da eleição de 2018 para ser corrigido na próxima corrida presidencial?
Nós não esperávamos que o PSDB, por exemplo, e os próprios candidatos do PDT que foram ao segundo turno (nos pleitos a governador de seus Estados) declarassem voto no Bolsonaro. Do nosso ponto de vista, essa foi a principal dificuldade de 2018. Foi doloroso. Além disso, entendo que conseguimos demonstrar, com provas cabais, que houve perseguição clara ao (ex-)presidente Lula. Não tem a menor dúvida disso. O (ex-juiz Sergio) Moro não agiu como juiz, agiu como líder de acusação. O que é ilegal. A população só não entende mais isso porque os grandes grupos de comunicação do País não levam ao conhecimento o que aconteceu nos bastidores de Curitiba. Existe quase um pacto da elite de não informar a população sobre as ilegalidades cometidas.

O senhor critica a grande mídia, mas temos visto movimentos de Bolsonaro justamente voltado à grande mídia. Se a grande mídia ajuda o Bolsonaro, ele não teria de agir ao contrário?
Isso é jogo de cena. O Bolsonaro está absolutamente comprometido com a agenda Faria Lima (em referência à Avenida Faria Lima, que concentra escritórios de grandes bancos em São Paulo). Ele é a combinação da agenda Faria Lima com agenda do quinto dos infernos. O saldo são 250 mil mortos (pela Covid-19) e dezenas de milhões de desempregados.

O senhor acredita que o cenário de 2018, de polarização entre PT e Bolsonaro, vai se repetir ou há espaço para terceira via?
Acredito que o cenário de 2018 não se repetirá. Há indicações claras que o STF (Supremo Tribunal Federal) vai se manifestar sobre a parcialidade ou não do Moro (nas ações envolvendo Lula) ainda no primeiro semestre deste ano. Teremos aí um desfecho disso.

Se o STF absolver Lula, o senhor acha que ele tem de ser o candidato do PT à Presidência?
Depois de tudo que ele sofreu, toda injustiça que sofreu, tem preferência e entusiasmo 100% da militância.

O avanço de partidos do denominado Centrão nas eleições municipais de 2020 é um termômetro para 2022?
Os partidos que são egressos do apoio à ditadura cresceram em 2020. O DEM apoiava a ditadura, rompeu no último minuto. A origem dele é a base da ditadura, não tem compromisso partidário.

E hoje Bolsonaro está próximo do Centrão. É fator que pode desequilibrar?
Hoje o Bolsonaro conta com apoio do crime organizado. Essa coisa de armar a milícia e o crime organizado é algo muito sério. Mas vejo que eles (bolsonaristas) estão perdendo base popular. Ninguém concorda com isso. Se perguntar às pessoas se elas concordam com o crime organizado ninguém responde positivamente. O Bolsonaro imagina que crime organizado possa mantê-lo.

Sustentar uma candidatura petista à Presidência não é dar ao Bolsonaro o inimigo que ele queira enfrentar?
Tem de haver pacto para que o democrata que for ao segundo turno tenha apoio dos demais. E, com isso, tenha condições de vencer a eleição. Se quiser mudar política econômica, o PT é o partido mais gabaritado. Evidentemente que em uma democracia a maioria define o rumo do País. A maioria deseja que o pêndulo que foi muito forte para o lado do capital volte para o lado do trabalho também. A direita assumiu o poder com o golpe do (Michel) Temer (MDB, que emergiu à Presidência após o impeachment de Dilma Rousseff, PT, em 2016) e estamos indo para o sexto ano de política de desmonte do estado de bem-estar social. Acredito que o cidadão queira dar uma guinada em relação a isso. São seis anos de política de corte de direitos.

Nos últimos anos tem aumentado consideravelmente o número de abstenções, votos brancos e nulos. Nos Estados Unidos, na contramão do Brasil, foi registrada a maior participação da história em uma eleição presidencial. O senhor acredita que a eleição de 2022 no Brasil terá a continuidade da rejeição à política ou o engajamento, como visto nos Estados Unidos?
O País vai defender a democracia. A minoria pode causar distúrbio, isso tem de estar no nosso radar. Distúrbios semelhantes aos que aconteceram nos Estados Unidos. Mas vejo que o brasileiro não vai abrir mão da democracia para defender um governo que fracassou em todas as frentes.

É viável uma candidatura presidencial de Luciano Huck?

Esse pessoal não tem projeto. Essa turma não tem projeto para o País. Mas vão ter apoio midiático, isso vão ter. A grande imprensa e o mercado adoram sujeito medíocre que não tem projeto e adota o deles. Não vou citar nomes porque não gosto de classificar as pessoas. Mas tudo o que mercado sonha é alguém que assimile a agenda dele. O PSDB está em uma situação, segundo o próprio Fernando Henrique (Cardoso, ex-presidente da República), de declínio acentuado. O Bolsonaro ocupou o lugar da direita no País. Isso que a grande imprensa não consegue enxergar. Queriam derrotar o PT, mas acabaram derrotando mesmo foi o PSDB.

O senhor acha que o governador João Doria (PSDB) terá condições de ser candidato a presidente em 2022?
Para mim, ele não tinha experiência nem política nem administrativa quando se candidatou à prefeitura (em 2016, impedindo sua reeleição). Difícil responder a essa pergunta porque não conheço a disputa interna do PSDB. Não tenho detalhes disso. Não acompanho a disputa interna, só pela imprensa.


Qual avaliação o senhor faz da participação do PT na eleição na Capital em 2020?
O Jilmar (Tatto, prefeiturável petista) foi bem e poderia ter ido melhor (Tatto ficou na sexta colocação, longe de ir ao segundo turno). Cometemos na campanha alguns pequenos erros. Poderia ter ido melhor. Acho importante que a esquerda se fez representar, praticamente alcançou o patamar de votos que tive em 2018, que foram cerca de 40% na Capital. Acho que lançamos um nome que se projetou de alguma maneira. Não deixa de ser quadro que ganhou projeção.

O senhor acha que o Psol tem ocupado espaço que o PT deixou vazio na esquerda?
Não saberia dizer agora. Mas foi eleição muito atípica em São Paulo. Não sei se no âmbito do Estado se repetiu.

O senhor conversou com Boulos para construção de frente de esquerda já no primeiro turno?
A gente conversa com frequência. Ele esteve na minha casa, eu estive na dele. Somos bons amigos. Vamos fazer todo esforço para ampliar no primeiro turno. Obviamente faremos isso. No frigir dos ovos, o que vai definir a eleição de 2022 é a situação do governo Bolsonaro e a postura daqueles que têm compromisso com a democracia. A esquerda vai votar contra o Bolsonaro. Não é a dúvida de 2022. A dúvida é o que vai fazer a direita, não a esquerda.

O senhor tem dialogado com setores da direita que tenham essa preocupação democrática que o senhor fala?
Tenho feito isso. Em Minas, falei com o prefeito de Belo Horizonte, o Alexandre Kalil (PSD). Há um total sentimento de preocupação com o futuro do País. Até mesmo o Rodrigo Maia (ex-presidente da Câmara Federal, DEM) disse que se arrependeu em votar no Bolsonaro e que se a eleição fosse hoje iria votar em mim.

RAIO-X

Nome: Fernando Haddad

Estado civil: casado

Idade: 58 anos

Local de nascimento: São Paulo

Formação: direito, mestre em economia e doutor em filosofia

Hobby: ler, de preferência na Bahia

Local predileto: Bahia

Livro que recomenda: Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis

Artista que marcou sua vida: Agustín Barrios, violonista 

Profissão: professor

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