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Morar nas ruas não apaga os sonhos

André Henriques/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Santo André cria setor de acolhimento temporário no Estádio Bruno Daniel, que abriga 45 pessoas


Bia Moço
Do Diário do Grande ABC

22/02/2021 | 07:00


Quando se fala em morador de rua, normalmente, a ideia é de uma pessoa suja, mal vestida e que representa algum tipo de risco para a população, seja sanitária ou de segurança. Mas o que, provavelmente, poucos param para pensar é que por trás daquela aparência descuidada característica há, como em todas as outras pessoas, uma história de vida e também muitos sonhos.

É exatamente assim que eles são vistos pela equipe da Secretaria de Cidadania e Assistência Social de Santo André, que dá para parte dessa parcela da sociedade uma nova oportunidade de ressignificar a vida. Dentre os projetos da pasta, o Diário visitou o acolhimento temporário montado no setor G do Estádio Bruno José Daniel, que abriga hoje 45 moradores de rua, em sua maioria idosos ou com comorbidades e, por isso, pessoas que tinham maior risco de contaminação pela Covid. Cada um dos acolhidos passa por um período de isolamento e, se não estiverem contaminamos, vão para os quartos comunitários, divididos entre masculino e feminino.

Os moradores afirmaram à equipe de reportagem que, nas ruas, são “invisíveis” aos olhos da sociedade, e que, diferentemente do que as pessoas podem achar, são “seres como os outros”, ressaltando que no acolhimento podem resgatar esse sentimento de igualdade.

Entre as histórias contadas o que mais chama a atenção é que todos, sem exceção, querem reconstruir a vida e servir de exemplo a quem ainda não conseguiu se libertar “das mazelas da rua”, como eles mesmos disseram. A maior parte deixou para trás a família, o emprego, e toda uma história que ficou quase que no esquecimento durante o período em que lutaram para sobreviver contra o frio, violência, fome e demais lembranças das ruas que preferem não mencionar.

Lendo um livro sobre a história de Jesus, José Graciliano dos Santos, 56 anos, revelou que uma das coisas que mais gosta de fazer é estudar. Feliz por ter concluído, ao menos, o ensino médio, conta que guarda o sonho de ser advogado. “Quando eu puder sair do acolhimento, assim que essa pandemia acabar, vou me dedicar para conseguir entrar na faculdade de direito”, vislumbra ele, que viveu pelas ruas andreenses por, pelo menos, 20 anos.

Santos e os demais moradores transformaram o abrigo temporário em verdadeiro lar. Camas arrumadas, banheiros limpos, aparelhos eletrônicos, entre outros objetos, tornam o espaço ainda mais característico. Além disso, o ambiente tem animação garantida, já que o músico Nelson Francisco Rinaldi, 63, pôde resgatar no acolhimento sua paixão pelo violão. “Fui parar nas ruas depois que comecei a trabalhar com a música, fazendo baladas noturnas, cantando em bares e casas de shows. Comecei a beber muito e minha família não me quis mais em casa”, lamenta Rinaldi, sem detalhar. “Quero me recuperar, trabalhar e voltar a ter minha vida. Me formei em teologia e fui consagrado como pastor, então quero ter uma igreja para dirigir e usar minha experiência para motivar outras pessoas a não desistirem da vida”, afirma. Ele também acredita que, hoje, cantar junto com os colegas é uma forma de resgatar neles o amor pela vida.

Edson Ribeiro Pontes, 60, ficou na rua depois que sua mulher morreu em um acidente de carro. “Desanimado com a vida”, como ele mesmo conta, deixou os três filhos e andou do Paraná até Santo André, parando de cidade em cidade. “Passei a usar drogas, a beber e fui aprendendo muita coisa errada”, revela. “No começo, quando cheguei no acolhimento, briguei muito com os educadores, mas hoje percebo o quanto foi bom para a minha vida”, avalia ele, que até pôde retomar contato com os filhos, que ainda moram no Paraná.

A gratidão pelo serviço também é unânime. Eles afirmam que os educadores e profissionais da assistência social são “anjos da guarda”. Décio Antônio Zane, 50, mostrou, de longe, que agora pode sorrir, já que fez tratamento dentário. “Aqui tive todo o apoio que poderia precisar. Não sei o que seria de nós sem essas pessoas (do acolhimento)”, elogia ele, revelando que foi morar na rua em 1997. “Vou reconquistar minha vida agora”, confirma ele, orgulhoso de ter retomado contato com os três filhos.

Brunão vira espaço multiuso, mas para recuperar e salvar vidas na cidade

Enquanto o campo é reformado para sediar jogos do Santo André no Campeonato Paulista da Série A-1, outras áreas do Estádio Bruno José Daniel passaram a ser usadas como espaço multiuso, não para realização de eventos, mas para recuperar e salvar vidas. Ali hoje funcionam drive-thru para vacinação contra a Covid-19, a Central de Visita Virtual, de onde familiares conseguem ter contato com os pacientes internados no hospital de campanha montado no Complexo Esportivo Pedro Dell’Antonia, por meio de um tablet, além do acolhimento emergencial a moradores em situação de rua e que façam parte dos grupos de risco. O campo também abrigou um hospital de campanha no período de 29 de abril a 22 de agosto de 2020.

A Secretaria de Cidadania e Assistência Social de Santo André passou a organizar ações para prevenção da Covid junto à população mais vulnerável desde março de 2020, aproveitando também o estádio para o cuidado preventivo. No entanto, o projeto tomou maior proporção e acabou sendo, também, um serviço de resgate. Em 11 meses, 12 pessoas que foram acolhidas já puderam retornar para a vida familiar, e cinco conseguiram se inserir no programa da frente de trabalho, por meio de parcerias entre a secretaria e empresas. Além disso, os moradores de rua passam por tratamento no Caps (Centro De Atenção Psicossocial) da cidade, podendo, assim, deixar vícios em drogas e álcool.

Diretora do departamento de Proteção Social Especial, Rosimeire Mantovan explicou que, no acolhimento, os moradores de rua também reaprendem atividades cotidianas. “Eles chegam aqui com uma mochila ou sacola que, dentro, tem roupa, fruta, marmita, máscara, tudo junto. Eles são acolhidos mantendo os hábitos de sobrevivência, e demora até entenderem que, aqui, não precisam disso”, conta ela.

O local tem vaga para 50 pessoas, mas a cidade ainda conta com mais 20 postos em outro acolhimento temporário no Parque Miami, além de dez no albergue da cidade, na Vila Cecilia Maria. Dessa forma, o município consegue atender cerca de 80 pessoas em situação de rua que precisam de cuidados extras por conta da pandemia. No entanto, só são acolhidos aqueles que aceitam a ajuda.

Secretaria ampliará projetos assistenciais

O acolhimento temporário para moradores em situação de rua, montado no Estádio Bruno José Daniel, em Santo André, embora tenha nascido diante da necessidade de evitar a contaminação pela Covid-19 também deste público, se tonará definitivo.

Conforme o secretário de assistência social, Marcelo Delsir, com a pandemia perdurando, a pasta pôde perceber a importância do trabalho. “O projeto cresceu, foi ficando, e agora se tornará efetivo. Quando tivermos de desocupar aqui (Bruno Daniel), vamos para outro espaço, ainda não definido, para que possamos ofertar de forma definitiva o acolhimento”, disse o chefe da pasta. “Só não há mais pessoas acolhidas porque os próprios moradores de rua, muitas vezes, não aceitam ajuda. Só em janeiro fizemos 1.592 abordagens e acolhemos 247 pessoas”, comemorou, explicando que, muitos, são abordados até dez vezes antes de aceitarem ajuda.

Além de tornar o acolhimento permanente, a pasta pretende ainda fortalecer o projeto da frente social de trabalho, aumentando a oferta de emprego ao público que se recupera da vida nas ruas, além de agregar o programa jovem aprendiz, destinado a menores entre 14 e 17 anos, de modo que já sejam inseridos na profissionalização. “Também queremos fortalecer nosso programa de proteção à mulher vítima de violência doméstica. Precisamos melhorar a estrutura”, afirmou Delsir, prevendo a inauguração de uma casa de passagem em Santo André.

A secretaria também planeja uma restruturação no Centro POP (Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua), sobretudo mudando de endereço (hoje está no Centro). “Precisamos tirar o estigma da Casa Amarela, porque muitas pessoas em situação de rua não acessam nosso serviço por conta de um histórico de abusos, violência, roubos etc”, disse Delsir. Segundo ele, também há intenção de oferecer atendimento melhor .

Haverá ainda um novo espaço de atendimento social, localizado na Vila Luzita, onde será instalado Cras (Centro de Referência de Assistência Social), Creas (Centro de Referência Especializado de Assistência Social) e Conselho Tutelar, além de extensão do Centro POP, com triagem de pessoas em situação de rua. Haverá ainda alojamento de emergência, além de canil para os pets de companhia dos moradores de rua. A estimativa da Prefeitura é entregar o equipamento no segundo semestre deste ano.
 



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