No Executivo Na manhã desta sexta-feira, o parlamentar foi escolhido pelos colegas para presidir a Câmara e, diante do impasse jurídico envolvendo a candidatura de José Auricchio Júnior (PSDB)
Claudinei Plaza/DGABC

Atualizado às 16h20
O vereador Tite Campanella (Cidadania), 58 anos, tomou posse como prefeito interino de São Caetano. Eleito presidente da Câmara na manhã de ontem, o parlamentar ficará à frente da cidade enquanto perdurar o impasse jurídico em torno do registro de candidatura de José Auricchio Júnior (PSDB).
Tite recebeu 12 votos em um pleito interno que contou com cinco candidaturas, inclusive a do ex-vice-prefeito Beto Vidoski (PSDB). Também concorreram Ubiratan Figueiredo (PSD, com quatro votos), Thai Spinello (Novo, um voto) e Bruna Biondi (Psol), do mandato coletivo Mulheres por Mais Direitos, que teve um voto. Com a ida de Tite para a Prefeitura, Pio Mielo (PSDB), eleito vice-presidente da Câmara, assumirá a direção do Legislativo.
A transmissão de cargo aconteceu na sequência, no Palácio da Cerâmica, onde o ex-prefeito José Auricchio Júnior (PSDB) aguardava o aliado. A cerimônia foi realizada em uma antessala do gabinete, com restrição de público, medida sanitária para tentar conter a disseminação de Covid-19 – o ato de posse dos vereadores, na Câmara, também foi restrito. Apenas a base de sustentação, com um convidado por vereador, o deputado estadual Thiago Auricchio (PL), filho de Auricchio, e alguns secretários estiveram presentes. Beto Vidoski não compareceu.
O prefeito em exercício, filho do ex-prefeito Anacleto Campanella (de 1953 a 1957 e de 1961 a 1965), disse, no discurso, que sempre sonhou em ser prefeito – foi candidato ao Paço em 2004, na primeira vitória de Auricchio -, mas que em condições diferentes. “Se imagina um ambiente de festa, você vencendo a eleição, eleito pelo povo. Confesso que hoje (ontem) assumo a missão e não estou feliz. É um dia triste. Ocupo a vaga com orgulho, servirei minha missão, mas sei que a vontade do povo de São Caetano era para que o prefeito Auricchio estivesse na cadeira.”
Auricchio foi reeleito no voto com 42.842 adesões no dia 15 de novembro, mas a votação não foi computada porque seu registro de candidatura à reeleição foi indeferido pela Justiça Eleitoral, que se balizou em condenação por captação irregular de doação eleitoral no pleito de 2016 – decisão confirmada pelo TRE-SP (Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo). Enquanto o político dispõe de recursos no TSE (Tribunal Superior Eleitoral), o impasse jurídico fica instalado.
Tite disse contar com conselhos de Auricchio durante o mandato interino. “Tem expertise, know how, conhecimento e muito trabalho mostrado”, comentou. “Quero que no mais breve possível eu possa entregar essa cadeira a quem de direito. Enquanto isso, estarei à frente do governo seguindo os preceitos do prefeito Auricchio, com administração séria, transparente, eficiente e honradez.”
Auricchio também discursou. Elogiou o aliado, citou o caráter excepcional da situação e se colocou à disposição de Tite. “Ele terá muitos desafios pela frente, das mais variadas frentes”, declarou o tucano, que agradeceu aos votos conferidos pela base de sustentação a Tite. “Tiveram a compreensão do momento. Falei individualmente com cada um e reforço publicamente o pacto que fizemos, de olhar pela cidade, pelos interesses públicos e não particulares. Há essa situação frustrante, mas tenho plena convicção de que vou reverter. Respeito a Justiça, obedeço suas decisões e, se discordo, recorro. É o que estou fazendo.”
Com a ida de Tite para a Prefeitura, também abre uma dúvida com relação à suplência. Durante a sessão, foi anunciado que a primeira suplente do Cidadania, Magali Selva Pinto, será convocada para substituir o correligionário. Entretanto, o setor jurídico da casa foi acionado para definir a situação, uma vez que, legalmente, Tite não se licenciou do posto e, assim, não poderia ser substituído.
Sessão tem confusão e voto de Beto Vidoski contra candidato governista
A primeira sessão na Câmara de São Caetano foi reflexo da tensão do ambiente político da cidade em meio à instabilidade jurídica. Começou com o ex-vice-prefeito Beto Vidoski (PSDB), de volta à Câmara, indo na contramão da candidatura governista à presidência da casa e terminou com bate-boca entre vereadores da situação com o mandato coletivo do Psol.
O martelo em nome de Tite Campanella (Cidadania) para presidir a Câmara – e, consequentemente, ser prefeito em exercício – foi batido em café da manhã da base governista antes da sessão. Beto demonstrou insatisfação e avisou que não iria votar em Tite. Durante a abertura da inscrição de chapas ao comando da casa, o tucano decidiu lançar seu nome à presidência, surpreendendo quem acompanhava os trabalhos.
Além de Tite e Beto, lançaram os nomes Ubiratan Figueiredo (PSD), Thai Spinello (Novo) e Bruna Biondi (Psol), do mandato coletivo Mulheres por Mais Direitos. Tite recebeu 12 votos e Ubiratan, quatro – do quarteto de oposição eleito na candidatura de Fabio Palacio (PSD).
Na tribuna, Beto fez resgate de sua trajetória política, que teve início como assessor no gabinete de Gilberto Costa (Avante), com quem vai dividir a legislatura agora. Enalteceu o trabalho como vice-prefeito e como secretário de Esportes entre 2017 e 2020 e elogiou Tite e Pio, chamando-os de amigos. “Queremos continuar trabalhando para manter São Caetano no topo”, complementou, sem entrar em detalhes sobre a posição futura com relação ao governo.
O cenário provocou uma situação inusitada porque Beto votou em Pio Mielo (PSDB) como vice-presidente. Ou seja, Pio recebeu 13 votos e Tite, 12. A mesa diretora ainda foi composta por Cicinho (PL), na primeira secretaria, Thai, na segunda secretaria, e Bruna, na terceira. A representante do mandato do Psol, entretanto, renunciou à função, em movimento que jogou holofote para Thai. A oposição provocou a nova parlamentar, dizendo que o Novo já estava alinhado com o governo.
Thai foi à tribuna para justificar. “Eu ressalto que o Novo terá um mandato independente na Câmara. Eu coloquei meu nome na corrida para a presidência da Câmara. Agradeço os votos recebidos (para a segunda secretaria). Mas aviso que sou independente e não fiz composição com ninguém. Votarei de acordo com os projetos”, comentou. Ontem à tarde, em celulares de governistas já circulavam montagens dizendo que a parlamentar era auricchista.
Na sequência, enquanto Tite, recém-eleito presidente da casa, abria palavra para que vereadores fizessem breve saudação no mandato, Bruna pediu a palavra e avisou que iria reservar seu tempo para que Paula Aviles e Fernanda Gomes, que compõem o mandato coletivo Mulheres por Mais Direitos, pudessem falar. Paula iniciou o discurso, de pronto interrompido por Tite. Pelo regimento interno, apenas vereadores diplomados podem discursar na casa.
Houve insistência, com pequeno bate-boca em seguida. Marcel Munhoz (Cidadania), que estava ao lado de Paula, a advertiu, dizendo que havia desrespeito às normas da Câmara. Repreensão seguida por outros colegas situacionistas.
Auricchio critica oposição e alfineta Palacio e Saul Klein
Durante discurso na transmissão de cargo ao prefeito em exercício de São Caetano, Tite Campanella (Cidadania), o ex-prefeito José Auricchio Júnior (PSDB) disparou contra a oposição. Em recados claros ao ex-vereador Fabio Palacio (PSD), embora sem citar nomes, reclamou do que chamou de tentativa de chegar ao poder por meio de desestabilizar o cenário e listou derrotas impostas por seu grupo ao bloco liderado pelo pessedista. Sobrou até mesmo para o empresário Saul Klein (PSD), que foi vice na chapa de Palacio e é investigado de estupro e aliciamento de mulheres.
“Teve gente que buscou atrapalhar o processo de eleição da Câmara, conturbar a eleição, acreditando que, assim, poderia nos afetar. Receberam uma sonora derrota”, afirmou Auricchio, em referência à vitória de Tite por 12 votos no pleito interno. “Aliás, está tão grande o número de derrotas deste grupo que está difícil até de contar.”
Auricchio coloca na conta os reveses de Palacio em 2016, quando o tucano retornou ao Palácio da Cerâmica, em 2018, quando o antigo aliado não obteve êxito em candidatura a deputado federal, e em 2020, em nova eleição municipal. O grupo ligado ao ex-parlamentar buscou, até o fim, articulação que pudesse impedir a vitória de Tite. “Vejo com tristeza porque é um grupo que vê a cidade em segundo plano, que busca o desejo individual de poder”, criticou o tucano.
Durante o discurso de Tite, Auricchio interveio quando o prefeito em exercício fazia deferência ao ex-vereador Carlos Humberto Seraphim (PL), vice na chapa governista na eleição do ano passado. “Tenho orgulho de ter o Seraphim como meu vice. Pai de família, médico ginecologista que cuida das mulheres de verdade, com dedicação profissional e respeito.”
O ex-prefeito não citou nominalmente Saul, mas o recado foi direto para o filho do fundador da Casas Bahia, Samuel Klein, gigante do ramo varejista e empresa são-caetaense. Saul é acusado por 14 mulheres de estupro e aliciamento, em denúncias investigadas pelo Ministério Público, que envolvem também assédio moral. Ele nega as acusações e diz ser vítima de extorsão.
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