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‘Oposição não quer queda de Bolsonaro’, diz Major Olimpio
Por Daniel Tossato
Do Diário do Grande ABC
28/12/2020 | 00:01
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Jane de Araujo/Agência Senado


Senador por São Paulo, Major Olimpio (PSL) é conhecido por falar o que pensa, sem filtros. E, em entrevista ao Diário, é explícito ao dizer que, a despeito de série de denúncias que poderiam desencadear processo de impeachment do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), a oposição não faz movimentos neste sentido porque quer ver o potencial adversário na eleição de 2022 “sangrar até lá”. Olimpio diz ser candidato à presidência do Senado, mesmo se tiver apenas seu voto, critica o papel do governo federal no combate à pandemia de Covid-19, mas pondera que o governador João Doria (PSDB) é figura pior que a de Bolsonaro. “O Brasil não sabe quem ele é. Mas eu vou mostrar.”

Como está a experiência no Senado Federal?
Dois anos no Senado me deram amadurecimento maior, ainda maior do que os outros 12 anos como deputado, tanto estadual quanto federal. A discussão é maior e as pautas são mais importantes. Fui integrante de comissões importantes, fiz emendas de importância também. Sou relator do projeto da reforma tributária, participei da reforma da Previdência. Participei dos debates envolvendo a aposentadoria especial para as forças de segurança. Especificamente para o Grande ABC, fui relator de empréstimos por meio da comissão de finanças no valor de R$ 550 milhões para Santo André e São Bernardo. Dinheiro que foi utilizado em obras de saneamento, contra enchentes na região. Também consegui distribuir R$ 2 bilhões para as Santas Casas com intenção de combater a Covid-19. Só para a Santa Casa de São Bernardo consegui aporte de R$ 3 milhões. Obtive mais de nove milhões de votos no Estado de São Paulo. Atendi mais de 250 municípios no enfrentamento da pandemia do novo coronavírus.

Como o Senado tem atuado no combate à Covid-19?
Desde o dia 18 de março, por meio de inúmeras votações remotas, o Senado tem mantido grande produtividade. Aprovamos emenda na Constituição para que o presidente (da República, Jair) Bolsonaro (sem partido) pudesse trabalhar sem que caísse na lei de improbidade administrativa em época de pandemia. Votamos mais de 80 projetos que criaram leis que visavam o combate à pandemia. Atuei no apoio à emenda do Pronampe, que cede linha de crédito às pequenas e médias empresas, para salvar postos de trabalho. Aprovamos também emendas que melhoraram o auxílio emergencial, por exemplo. Enfim, o Senado ainda está trabalhando e, às vezes, ficamos até a madrugada analisando matérias.

O senhor é candidato a presidência do Senado? Como estão as articulações neste sentido?
Sou candidato a presidir a mesa diretora do Senado. O STF (Supremo Tribunal Federal) votou pela não recondução do atual presidente, Davi Alcolumbre (DEM-AP), já que a situação era vedada pela Constituição. Mas vi que cinco ministros do STF acabaram votando pela recondução do atual presidente e me parece que eles não leram a Constituição. Me considero a anticandidatura do Alcolumbre. Toda essa questão envolvendo o STF, que quase aprovou a recondução do atual presidente, mostra muito como é o submundo da República. É muito pior do que se imagina, chega a ser perverso. Há conluio do governo com setores do STF. No momento só tenho o meu voto (para a presidência). Fiz um decálogo para enviar aos outros senadores e pedi voto aberto. Quero propor mudanças, quero colocar altivez no Congresso e Senado. Faço a minha parte e sei que sou polêmico.

Como o senhor analisa as ações do governo federal em relação ao enfrentamento à Covid?
É uma tragédia. O negacionismo é absurdo. As manifestações de desdém ao longo da pandemia e as pessoas morrendo. Ele colocou um especialista em logística no Ministério da Saúde (Eduardo Pazuello). Os generais das três forças (Exército, Marinha e Aeronáutica) têm que ficar desdizendo as coisas que ele fala. Fora o desestímulo que este governo promove. Estão conseguindo colocar na cabeça que há perigo na vacina, seja A, B ou C. Nunca vi um negócio deste. Mas a história vai julgar. Ele é piada mundial. A briga política é errada neste momento. Acabou virando um Fla-Flu. Há irresponsáveis dos dois lados (Bolsonaro e do governador de São Paulo, João Doria).

Como anda a sua relação com o presidente Bolsonaro? Por que ela estremeceu, afinal?
O presidente Bolsonaro exigiu que eu retirasse minha assinatura que pedia a CPI da Lava Toga. Me chamaram de traíra, de traidor do Bolsonaro, mas não sou. Ladrão de rachadinha também é ladrão. Você pode dar o nome que quiser, mas continua sendo coisa de ladrão. É coisa de ladrão você tomar dinheiro de assessor. O estremecimento da relação se iniciou no segundo turno (da eleição presidencial em 2018). Bolsonaro estava apoiando o Doria, enquanto eu não o apoiava. Eu não me abraço com o meu carrasco. Nessa época, o (senador) Flávio (Bolsonaro, filho mais velho de Jair Bolsonaro) me pediu para que eu retirasse minha assinatura da CPI e eu não retirei. Desde então o presidente não fala mais comigo e eu não falo mais com ele.

E sua relação com o governador João Doria?
Já pedi, em três momentos, o impeachment dele. Ele conseguiu ser o pior governador do PSDB. O tucanato vem dilapidando o direito dos servidores. Ele conseguiu enganar os paulistas com aquele discurso de gestor. Ele é o carrasco dos servidores e eu tenho a obrigação de mostrar esse comportamento. Durante a pandemia ele mostrou que sua ganância é maior que tudo. Quando era para fazer lockdown, durante o Carnaval, ele fazia propaganda convidando as pessoas para participar do Carnaval. Aí no Grande ABC, o prefeito (de São Bernardo) Orlando Morando (PSDB) é um grande aliado do Doria. Tenho a missão de mostrar quem é João Doria. O Brasil ainda não sabe, mas eu vou mostrar quem ele é.

Ainda que distante, a eleição presidencial se desenha para termos Bolsonaro de um lado e Doria de outro. Num possível embate direto entre os dois, qual seria seu posicionamento?
Foi igual ao que ocorreu entre (Guilherme) Boulos (Psol) e (Bruno) Covas (PSDB, no segundo turno da eleição à prefeitura de São Paulo). Eu vou cuidar para que o Estado de São Paulo se livre do PSDB e o Brasil, de Doria. No segundo turno, entretanto, eu votaria em Bolsonaro. O presidente está errando quando tem lidado com a questão da rachadinha envolvendo seu filho, mas moralmente é muito melhor que João Doria.

O senhor acredita que Bolsonaro ainda tenha espaço no PSL, caso deseje voltar à sigla?
Bolsonaro não voltará ao partido. Ninguém o quer no partido. Ainda há algumas viúvas de Bolsonaro no PSL, mas não há espaço para o retorno do presidente. Ele até tentou, porém, fato é que o partido Aliança pelo Brasil sempre foi natimorto, que Deus leve e guarde. Sei que há movimentação para que Bolsonaro vá para o PTB, a convite do próprio presidente nacional da sigla, Roberto Jefferson (PTB). Mas é isso, boi preto lambe boi preto. É decepcionante.

Como analisa o desempenho do PSL na eleição à prefeitura da Capital?
Fiz a campanha da Joice (Hassellman, PSL) e não abandono soldado ferido na luta. Perder ou ganhar é da luta. Eu vou sempre apoiar o PSL, afinal é meu partido. Ela sabia da dificuldade que iria enfrentar. A quadrilha digital comandada pelos filhos do presidente Bolsonaro destruiu a Joice, com ataques gordofóbicos. Eles são a camada mais baixa da política. Você não vê este tipo de comportamento no presídio. E são pagos com dinheiro público. Tudo está sendo averiguado, há inquéritos em andamento. Joice sempre manteve postura altiva, ela sabia que seria triturada. Ela sofreu muito. O PSL deve muito a Joice. Não me arrependo de fazer campanha para ela. Mas o povo escolheu diferente. Não uma opção mais focada na esquerda, mas ao centro. Bruno Covas (PSDB) só venceu porque soube se desgarrar da imagem de João Doria.

E como enxergou o desempenho da sigla no Grande ABC?
O (deputado federal Junior) Bozzella (presidente estadual do PSL) fez um grande trabalho no Grande ABC. Sei que almejamos algumas cidades do Grande ABC, mas Bozzella pegou o partido completamente destruído. Passei a presidência do partido para (o deputado federal) Eduardo Bolsonaro (PSL), por ele ser mais jovem. Porém, eu mal sabia que ele já estava criando com o pai e o submundo da política o partido Aliança pelo Brasil. Ele acabou com as executivas municipais em diversas cidades. Destruiu o partido. O Bozzella começou a reconstruir praticamente do zero. Eduardo queria construir um partido só de conservadores, mas no fim nunca era conservador o bastante para ele. Ainda assim, fizemos 14 prefeituras e 115 vereadores no Estado de São Paulo.

Como o sr. considera a atuação do deputado estadual por São Bernardo Coronel Nishikawa, do PSL?
Nishikawa é da Polícia Militar também, mas é bem mais antigo que eu. Ele é um monge. Sei que ele é seguidor do Bolsonaro, mas é um dos únicos que respeito. Um sujeito humilde. Ele tem dito que não disputará mais as eleições, mas queremos que ele continue como deputado.

Como o senhor vê a denúncia de que a Abin (Agência Brasileira de Inteligência) teria auxiliado o senador Flávio Bolsonaro no processo no qual ele responde no caso das rachadinhas?
Em qualquer outro país isso daria em impeachment. Há vários tipos de crime envolvidos nesta denúncia, se isso for verdade. Temos mais de 50 pedidos de impeachment represados. Eu não me considero oposição, mas a oposição não quer o afastamento de Jair Bolsonaro. A oposição quer ver Bolsonaro sangrar até a eleição de 2022. Não sei como as comissões (no Senado) vão estar no ano que vem. Em relação ao senador Flávio Bolsonaro, não vou tecer mais comentários, pois amanhã posso ser relator deste inquérito no Senado. 

RAIO-X

Nome: Sérgio Olímpio Gomes

Estado civil: Casado

Idade: 58 anos

Local de nascimento: Presidente Venceslau

Formação: Bacharel em ciências sociais

Hobby: Correr ou alguma atividade física, além de assistir séries

Local predileto: Churrasqueira com a família, em Ilhabela

Livro que recomenda: O Cadete e o Capitão, de Luiz Maklouf Carvalho

Artista que marcou sua vida: Ivete Sangalo

Profissão: Policial Militar veterano

Onde trabalha: Senado Federal




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