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Raul Cortez atua e produz peça de Mário Bortolotto

05/02/2004 | 22:09
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Raul Cortez se encantou com “a linguagem nova e irreverente, popular sem ser popularesca, do dramaturgo Mário Bortolotto, cuja carpintaria teatral vive a palavra, prescinde de cenário, só precisa do ator”. Cortez atua em – e produz – duas peças de Bortolotto reunidas em um só espetáculo: Fica Frio – Uma Road Peça, de 1989, e À Meia Noite um Solo de Sax na Minha Cabeça, de 1983. Em cartaz a partir desta sexta-feira no Teatro Faap, em São Paulo.

Sérgio Ferrara dirige Fica Frio e Cibele Forjaz, À Meia Noite – as duas são apresentadas em seqüência, sem intervalo. Em Fica Frio, o careta Maurício (Chico Carvalho), a pedido do pai, vai em busca do irmão mais velho, o destemido Nando (Renato Chocair), que saiu de casa para ganhar o mundo. Em À Meia Noite, dois amigos, o rico Jesse (Cortez) e o pobre Billy (Mário César Camargo), viajam pelo tempo apesar das diferenças político-sociais.

Segundo Cortez, há laços entre os dois textos: “Bortolotto aborda a necessidade de se debruçar sobre o próximo, do respeito pelo outro, de trabalhar por uma sociedade melhor. Gosto da forma humanista com que ele fala de temas ousados, ele demonstra esperança. E diz isso com humor”.

Para Ferrara, os textos “resgatam o exercício da tolerância”. “O que os une é a amizade, a lealdade, a fidelidade aos valores da contracultura, à maneira alternativa de vida. Tenho esperança, não aposto no inferno. Alguns críticos acham que sou ingênuo, e é estranho ser tomado por ingênuo por acreditar nas pessoas”, afirma Bortolotto.

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Fica Frio expõe a relação entre dois irmãos de personalidades completamente diferentes, que tentam dizer que se amam. “São duas formas diferentes, mas complementares, de ver o mundo”, diz Ferrara. “Entender o irmão significa superar barreiras. O desafio é harmonizar as diferenças, e isso só acontece quando se tem um olhar amoroso para o outro, sem ser piegas”, diz o dramaturgo.

Referências ao universo beat de Jack Kerouac povoam a peça. “Nando é um outsider, os dois irmãos estão sempre em movimento”, afirma o diretor. Eles viajam de trem, de ônibus, passam por algumas cidades. “No cenário, de Ulisses Cohn, há um cubo vazado que se transforma em hotel, cama”, diz.

Se em Fica Frio a peripécia se dá pelo espaço, em À Meia Noite ela se dá pelo tempo. Jesse e Billy se encontram pela primeira vez no berçário da maternidade. Reencontram-se diversas vezes, tendo como pano de fundo acontecimentos históricos como a anistia política, prenúncio do fim da ditadura militar. “Você percebe como as diferenças surgem e se radicalizam. E como eles encontram a amizade na diferença”, afirma Cibele. Camargo aponta outro aspecto: “As pessoas identificarão os princípios do machismo, a formação sexual masculina”.

Cortez diz que pretendia apenas produzir o espetáculo, mas dificuldades em obter patrocínio o empurraram para o palco – um nome conhecido sempre atrai mais atenção. “Isso é um retrato da mediocridade. O brasileiro foi mediocrizado, como um nativo analfabeto que fica metido a americanizado. Está um salve-se quem puder”, afirma. Para ele, “o teatro transforma quem assiste, obriga a fazer perguntas, a respondê-las. O ator é quase um objeto de utilidade pública”.




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