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Livro conta histórias das catadoras de recicláveis

André Henriques/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Projeto mostra realidade das mulheres que tiram do lixo o sustento de suas famílias


Yasmin Assagra
Do Diário do Grande ABC

17/08/2020 | 07:00


 Por trás de um catador de recicláveis tem sempre história marcada por luta e superação. O árduo trabalho de andar pelas ruas, faça chuva ou sol, em busca de materiais que seriam despejados no lixo cansa, mas também constrói narrativas inspiradoras. Algumas delas serão publicadas em um livro, que está sendo escrito em próprio punho por 20 trabalhadoras do Grande ABC.

O projeto Quarentena da Resistência estimula a troca de experiências das catadoras com base na obra Quarto de Despejo, de Maria Carolina de Jesus. A obra foi publicada em 1960, tendo como base o conteúdo de 20 diários escritos a mão pela autora. Uma mulher negra, mãe solteira, que estudou apenas dois anos, nasceu em Minas Gerais e mudou-se nos anos 1940 para a favela do Canindé, na Capital. O livro, que mostra a realidade das comunidades carentes, foi traduzido para 13 idiomas e, somente no Brasil, vendeu 100 mil exemplares.

Para criar os três filhos, a autora perambulava pelas ruas de São Paulo recolhendo do lixo o sustento da família. Pegava papelão e metal e ainda tinha de trabalhar como lavadeira. Mesmo com tanto esforço, muitas vezes o que conseguia era insuficiente para colocar comida na mesa. E ela expõe isso com clareza em seus textos, como na passagem que detalha o dia 15 de julho de 1955. “Aniversário de minha filha Vera Eunice. Eu pretendia comprar um par de sapatos para ela. Mas o custo dos gêneros alimentícios nos impede a realização dos nossos desejos. Atualmente somos escravos do custo de vida. Eu achei um par de sapatos no lixo, lavei e remendei para ela calçar.”

Sete décadas depois, a rotina das mulheres que vivem da reciclagem permanece árdua. “Entrei nessa profissão, pois estava desempregada e vi como uma oportunidade e uma forma de sustentar minha casa”, conta Edilaine Gonçalves, a Naná, 42 anos, presidente da Coopercata (Cooperativa de Catadores de Materiais Recicláveis, de Papel e Papelão de Mauá), uma das participantes do projeto. “Tentamos deixar claro que somos importantes tanto para o próximo, mas também na questão do planeta e da humanidade. O que fazemos hoje gera um grande reflexo para as futuras gerações”, afirma Naná, que tem o sonho de cursar engenharia ambiental e que superou a depressão por conta do trabalho. “Como catadora encontrei meu ponto de equilíbrio. Voltei a trazer sustento para minha família”, recorda.

Outro relato é da presidente da Cooperlimpa (Cooperativa de Reciclagem Cidade Limpa) Patricia Frazão da Silva, 42, que mora no bairro Serraria, em Diadema. “Sai de Pernambuco muito criança e cheguei em São Paulo aos 13 anos, mas conto um pouco de como eu vivia lá e como era a realidade com meus pais e irmãos. Minha chegada em São Paulo foi muito difícil. Eu vim para trabalhar em casa de família, mas quando cheguei era uma casa noturna, totalmente diferente do que eu pensei”, revela .

“É uma realidade difícil, mas que quando contamos dá uma sensação de liberdade. Foi por causa dessas dificuldades que aprendi a lutar por mim e pela causa das outras pessoas”, reforça. “O mundo dos catadores parece que é invisível e daremos voz a isso neste livro. Todo mundo sabe que existe, mas não vê a atividade como profissão. Todos somos iguais”, ensina Patrícia.

O projeto é uma parceria da Coopcent (Cooperativa Central), MPT (Ministério Público do Trabalho) de São Paulo, Organização Internacional do Trabalho e a Flup (Festa Literária das Periferias). A iniciativa conta com o apoio da UFABC (Universidade Federal do ABC).

Projeto oferece ajuda de custo e aula on-line
Desde junho, as catadoras de recicláveis que participam do projeto realizam acompanhamento e aulas on-line duas vezes por semana para escreverem e se aperfeiçoarem na gramática. Além disso, as profissionais ainda recebem como ajuda de custo bolsa de R$ 385 mensais, acompanhada de cesta básica com produtos alimentícios e de limpeza – que foram estendidos aos 180 integrantes da Coopcent. O benefício é importante devido à crise no setor por causa da pandemia da Covid-19. 

Com o lançamento previsto para dezembro, o livro contará as histórias das catadoras escritas por elas mesmo, fortalecendo o grupo por meio das oficinas de escrita e contações de histórias. A orientação dos encontros é do professor de literatura brasileira na Universidade Federal do Rio de Janeiro, Eduardo dos Santos Coelho, com auxílio de alunos da UFABC (Universidade Federal do ABC). 

“São mulheres incríveis que narram histórias de luta, superação e conquistas. O projeto, além de trazer esse intuito do empoderamento das mulheres revivendo a história de Carolina (referindo-se a obra Quarto de Despejo, da escritora Maria Carolina de Jesus, que serviu de inspiração), elas também soltam a voz e compartilham suas experiências entre si. São histórias semelhantes e o mais importante, traz visibilidade a profissão de catadoras de recicláveis, que muitas vezes são vistas como sub profissão”, comenta Sofia Vilela, procuradora do MPT (Ministério Público do Trabalho), um dos apoiadores do projeto, em São Bernardo.

Um dos criadores da Flup (Festa Literária das Periferias) Júlio Ludemir destaca a proximidade da escritora Carolina com as profissionais da região. “Mais do que pelo ofício, essas mulheres se aproximam da Carolina pela compreensão do próprio valor, por desejo absoluto de narrar suas vidas para que seus exemplos ajudem os outros a estarem sempre se superando, como elas o fazem diante de todo e qualquer desafio”, destaca.



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Livro conta histórias das catadoras de recicláveis

Projeto mostra realidade das mulheres que tiram do lixo o sustento de suas famílias

Yasmin Assagra
Do Diário do Grande ABC

17/08/2020 | 07:00


 Por trás de um catador de recicláveis tem sempre história marcada por luta e superação. O árduo trabalho de andar pelas ruas, faça chuva ou sol, em busca de materiais que seriam despejados no lixo cansa, mas também constrói narrativas inspiradoras. Algumas delas serão publicadas em um livro, que está sendo escrito em próprio punho por 20 trabalhadoras do Grande ABC.

O projeto Quarentena da Resistência estimula a troca de experiências das catadoras com base na obra Quarto de Despejo, de Maria Carolina de Jesus. A obra foi publicada em 1960, tendo como base o conteúdo de 20 diários escritos a mão pela autora. Uma mulher negra, mãe solteira, que estudou apenas dois anos, nasceu em Minas Gerais e mudou-se nos anos 1940 para a favela do Canindé, na Capital. O livro, que mostra a realidade das comunidades carentes, foi traduzido para 13 idiomas e, somente no Brasil, vendeu 100 mil exemplares.

Para criar os três filhos, a autora perambulava pelas ruas de São Paulo recolhendo do lixo o sustento da família. Pegava papelão e metal e ainda tinha de trabalhar como lavadeira. Mesmo com tanto esforço, muitas vezes o que conseguia era insuficiente para colocar comida na mesa. E ela expõe isso com clareza em seus textos, como na passagem que detalha o dia 15 de julho de 1955. “Aniversário de minha filha Vera Eunice. Eu pretendia comprar um par de sapatos para ela. Mas o custo dos gêneros alimentícios nos impede a realização dos nossos desejos. Atualmente somos escravos do custo de vida. Eu achei um par de sapatos no lixo, lavei e remendei para ela calçar.”

Sete décadas depois, a rotina das mulheres que vivem da reciclagem permanece árdua. “Entrei nessa profissão, pois estava desempregada e vi como uma oportunidade e uma forma de sustentar minha casa”, conta Edilaine Gonçalves, a Naná, 42 anos, presidente da Coopercata (Cooperativa de Catadores de Materiais Recicláveis, de Papel e Papelão de Mauá), uma das participantes do projeto. “Tentamos deixar claro que somos importantes tanto para o próximo, mas também na questão do planeta e da humanidade. O que fazemos hoje gera um grande reflexo para as futuras gerações”, afirma Naná, que tem o sonho de cursar engenharia ambiental e que superou a depressão por conta do trabalho. “Como catadora encontrei meu ponto de equilíbrio. Voltei a trazer sustento para minha família”, recorda.

Outro relato é da presidente da Cooperlimpa (Cooperativa de Reciclagem Cidade Limpa) Patricia Frazão da Silva, 42, que mora no bairro Serraria, em Diadema. “Sai de Pernambuco muito criança e cheguei em São Paulo aos 13 anos, mas conto um pouco de como eu vivia lá e como era a realidade com meus pais e irmãos. Minha chegada em São Paulo foi muito difícil. Eu vim para trabalhar em casa de família, mas quando cheguei era uma casa noturna, totalmente diferente do que eu pensei”, revela .

“É uma realidade difícil, mas que quando contamos dá uma sensação de liberdade. Foi por causa dessas dificuldades que aprendi a lutar por mim e pela causa das outras pessoas”, reforça. “O mundo dos catadores parece que é invisível e daremos voz a isso neste livro. Todo mundo sabe que existe, mas não vê a atividade como profissão. Todos somos iguais”, ensina Patrícia.

O projeto é uma parceria da Coopcent (Cooperativa Central), MPT (Ministério Público do Trabalho) de São Paulo, Organização Internacional do Trabalho e a Flup (Festa Literária das Periferias). A iniciativa conta com o apoio da UFABC (Universidade Federal do ABC).

Projeto oferece ajuda de custo e aula on-line
Desde junho, as catadoras de recicláveis que participam do projeto realizam acompanhamento e aulas on-line duas vezes por semana para escreverem e se aperfeiçoarem na gramática. Além disso, as profissionais ainda recebem como ajuda de custo bolsa de R$ 385 mensais, acompanhada de cesta básica com produtos alimentícios e de limpeza – que foram estendidos aos 180 integrantes da Coopcent. O benefício é importante devido à crise no setor por causa da pandemia da Covid-19. 

Com o lançamento previsto para dezembro, o livro contará as histórias das catadoras escritas por elas mesmo, fortalecendo o grupo por meio das oficinas de escrita e contações de histórias. A orientação dos encontros é do professor de literatura brasileira na Universidade Federal do Rio de Janeiro, Eduardo dos Santos Coelho, com auxílio de alunos da UFABC (Universidade Federal do ABC). 

“São mulheres incríveis que narram histórias de luta, superação e conquistas. O projeto, além de trazer esse intuito do empoderamento das mulheres revivendo a história de Carolina (referindo-se a obra Quarto de Despejo, da escritora Maria Carolina de Jesus, que serviu de inspiração), elas também soltam a voz e compartilham suas experiências entre si. São histórias semelhantes e o mais importante, traz visibilidade a profissão de catadoras de recicláveis, que muitas vezes são vistas como sub profissão”, comenta Sofia Vilela, procuradora do MPT (Ministério Público do Trabalho), um dos apoiadores do projeto, em São Bernardo.

Um dos criadores da Flup (Festa Literária das Periferias) Júlio Ludemir destaca a proximidade da escritora Carolina com as profissionais da região. “Mais do que pelo ofício, essas mulheres se aproximam da Carolina pela compreensão do próprio valor, por desejo absoluto de narrar suas vidas para que seus exemplos ajudem os outros a estarem sempre se superando, como elas o fazem diante de todo e qualquer desafio”, destaca.

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