Fechar
Publicidade

Sábado, 16 de Novembro

|

Max º Min º
Clima da Região Trânsito Assine Clube do Assinante Diário Virtual Login

Cultura & Lazer

cultura@dgabc.com.br | 4435-8364

Ebershoff fala da mudança de sexo de forma sutil


Danilo Angrimani
Do Diário do Grande ABC

04/05/2002 | 16:23


Livros sobre mudança de sexo costumam ser encarados pelos leitores com uma sensação de desconforto. A principal vantagem de A Moça de Copenhague (Rocco, 332 págs., R$ 34, de David Ebershoff, é tratar desse tema com sutileza.

Diretor de publicações da Random House, uma importante editora dos Estados Unidos, Ebershoff foi buscar no glamour dos anos 20 a história de um pintor dinamarquês que ganhou as páginas dos jornais ao se submeter a uma inédita operação de mudança de sexo.

A moça de Copenhague (capital da Dinamarca), que dá título ao livro, é o artista plástico e professor de arte Einar Wegener. Franzino, tímido, introspectivo, misógino (avesso às mulheres), Einar só se casa depois de muita insistência de uma aluna americana. Ela se chama Greta e terá papel fundamental no efeito transgênero.

Será Greta quem vai pedir pela primeira vez ao marido para usar roupas femininas. A justificativa dela é que a modelo faltou e o quadro inacabado precisa ser concluído. Einar hesita. Tenta voltar atrás. Depois, cede e se submete ao capricho da mulher.

Quando se traveste, e consegue superar os limites de gênero, tirando o terno para entrar em um vestido, a personalidade masculina de Einar divide-se. Ele agora é homem e também mulher. Surge Lili, a metade feminina de Einar.

Outros autores poderiam ter tratado o tema com grosseria, como certamente faria o mão pesada Philip Roth (de O Complexo de Portnoy). Ebershoff tem o mérito de deslizar com suavidade e paciência, narrando a metamorfose gradualmente. Sem pressa, como se estivesse bebericando uma xícara de chá em uma tarde chuvosa.

Os detalhes pontuam a narrativa. O leitor acompanha a mudança de gênero, entre o fetiche de sapatos amarelos, atraentes vestidos de seda pendurados no guarda-roupa, e os passeios noturnos de Lili, em seus encontros ocasionais, com admiradores secretos.

Em determinado ponto da biografia romanceada, Einar não se reconhece mais como homem. Decide trocar de sexo. Ser apenas Lili. Opta por uma transformação radical: a retirada dos órgãos sexuais masculinos.

Naquela época, final dos anos 20, a operação era inédita. Os cirurgiões, que estudavam o tema, pioneiros. Ninguém podia afirmar com certeza se o resultado seria satisfatório, ou se o paciente sobreviveria à emasculação.

Os casos de inversão foram estudados primeiramente pelo médico psiquiatra alemão Krafft-Ebing (1840-1902), que atribuía a esses pacientes distúrbios de ordem hereditária. Mais tarde, caberia a Freud (1856-1939) dessacralizar o tema, desvinculando a questão da genética, para referir-se à inversão, como uma atitude de opção sexual.

O autor de A Moça de Copenhague, editado no Brasil pela Rocco, prefere esquivar-se da bibliografia científica e centraliza seu holofote apenas na história do pintor, de sua mulher e amigos. Essa opção de estilo dá leveza ao texto. O resultado é que a gente lê as 332 páginas bem rapidinho e fica com aquela sensação de “que pena, já acabou”.



Comentários

Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.

Ebershoff fala da mudança de sexo de forma sutil

Danilo Angrimani
Do Diário do Grande ABC

04/05/2002 | 16:23


Livros sobre mudança de sexo costumam ser encarados pelos leitores com uma sensação de desconforto. A principal vantagem de A Moça de Copenhague (Rocco, 332 págs., R$ 34, de David Ebershoff, é tratar desse tema com sutileza.

Diretor de publicações da Random House, uma importante editora dos Estados Unidos, Ebershoff foi buscar no glamour dos anos 20 a história de um pintor dinamarquês que ganhou as páginas dos jornais ao se submeter a uma inédita operação de mudança de sexo.

A moça de Copenhague (capital da Dinamarca), que dá título ao livro, é o artista plástico e professor de arte Einar Wegener. Franzino, tímido, introspectivo, misógino (avesso às mulheres), Einar só se casa depois de muita insistência de uma aluna americana. Ela se chama Greta e terá papel fundamental no efeito transgênero.

Será Greta quem vai pedir pela primeira vez ao marido para usar roupas femininas. A justificativa dela é que a modelo faltou e o quadro inacabado precisa ser concluído. Einar hesita. Tenta voltar atrás. Depois, cede e se submete ao capricho da mulher.

Quando se traveste, e consegue superar os limites de gênero, tirando o terno para entrar em um vestido, a personalidade masculina de Einar divide-se. Ele agora é homem e também mulher. Surge Lili, a metade feminina de Einar.

Outros autores poderiam ter tratado o tema com grosseria, como certamente faria o mão pesada Philip Roth (de O Complexo de Portnoy). Ebershoff tem o mérito de deslizar com suavidade e paciência, narrando a metamorfose gradualmente. Sem pressa, como se estivesse bebericando uma xícara de chá em uma tarde chuvosa.

Os detalhes pontuam a narrativa. O leitor acompanha a mudança de gênero, entre o fetiche de sapatos amarelos, atraentes vestidos de seda pendurados no guarda-roupa, e os passeios noturnos de Lili, em seus encontros ocasionais, com admiradores secretos.

Em determinado ponto da biografia romanceada, Einar não se reconhece mais como homem. Decide trocar de sexo. Ser apenas Lili. Opta por uma transformação radical: a retirada dos órgãos sexuais masculinos.

Naquela época, final dos anos 20, a operação era inédita. Os cirurgiões, que estudavam o tema, pioneiros. Ninguém podia afirmar com certeza se o resultado seria satisfatório, ou se o paciente sobreviveria à emasculação.

Os casos de inversão foram estudados primeiramente pelo médico psiquiatra alemão Krafft-Ebing (1840-1902), que atribuía a esses pacientes distúrbios de ordem hereditária. Mais tarde, caberia a Freud (1856-1939) dessacralizar o tema, desvinculando a questão da genética, para referir-se à inversão, como uma atitude de opção sexual.

O autor de A Moça de Copenhague, editado no Brasil pela Rocco, prefere esquivar-se da bibliografia científica e centraliza seu holofote apenas na história do pintor, de sua mulher e amigos. Essa opção de estilo dá leveza ao texto. O resultado é que a gente lê as 332 páginas bem rapidinho e fica com aquela sensação de “que pena, já acabou”.

Ao acessar você concorda com a nossa Política de Privacidade.


Para continuar, faça o seu login:


  • Aceito receber novidades e ofertas do Diário do Grande ABC e parceiros por
    correio eletrônico, mala direta, SMS ou outros meios de comunicação.


Ou acesse todo o conteúdo de forma ilimitada:

Veja como ter acesso a todo o conteúdo de forma ilimitada:

Copyright © 1995-2017 - Todos direitos reservados

;