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Uma vida lidando com a morte

André Henriques/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Em Santo André, pai e filho são sepultadores; categoria ficou em evidência com a pandemia da Covid


Aline Melo
do Diário do Grande ABC

19/07/2020 | 07:07


Uma vida inteira de trabalho lidando com a morte. Esta é a realidade dos sepultadores que atuam em cemitérios públicos e privados do Grande ABC e que, por causa da pandemia de Covid-19, vêem sua atividade em evidência e recebendo maior reconhecimento da população. Na região, as cidades de Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema e Ribeirão Pires contam com 76 trabalhadores no setor. Em Santo André, pai e filho atuam juntos há 27 anos e falam com orgulho da profissão.

Mario Sergio Antoniol, 68 anos, trabalha há 46 anos no Cemitério Assunção, em Santo André. Seguiu o ofício do sogro e agora divide as tarefas com o filho, Peterson Ariene Antoniol, 45. Para Mario Sergio, a parte mais difícil de seu ofício são as exumações. “É um ambiente triste, as famílias já chegam muito constrangidas”, relatou.

O profissional afirmou que não chora nos enterros, mas que a emoção é maior quando o sepultamento é de crianças. “Também não participo de velório nem de enterro de parentes. Aí é muito dolorido”, relatou.

Desde os 18 anos trabalhando com o pai, Peterson também sente mais os enterros de crianças e acha que a visibilidade que os cemitérios estão tendo por causa da pandemia de Covid-19 tem ajudado a fazer com que as pessoas valorizem mais a sua profissão. “Este momento faz com que as pessoas tenham mais carinho com os sepultadores, conversem mais”, afirmou.

Os dois trabalhadores afirmaram que o aumento no número de sepultamentos por causa da pandemia não foi muito expressivo e destacam que a grande mudança foi na necessidade de se paramentar para evitar a contaminação.

De janeiro a junho deste ano, foram realizados 5.828 enterros nos cemitérios municipais de quatro cidades da região, 8% a mais do que no mesmo período de 2019. Diadema, Mauá e Rio Grande da Serra não informaram os dados.

DOS DOIS LADOS DA COVID
Se o trabalho de sepultadores ficou mais em evidência com a pandemia de Covid-19, trabalhador de São Caetano, Izaias Manoel dos Santos, 43, viveu a situação dos dois lados. O oficial de sepultamento se contaminou com o novo coronavírus em junho. “Como não parei de trabalhar, usando transporte público, acabei tendo a Covid-19”, relatou.

Santos, que mora na Zona Leste de São Paulo, afirmou que para muitas famílias têm sido difícil entender as mudanças impostas pela pandemia, como menor tempo de velório e limitação no número de pessoas. “Infelizmente, tem família que não entende, querem ficar mais, acham que a gente é que está impondo estas regras, e isso acaba agravando o sentimento deles”, pontuou.

Na função há ano e meio, o sepultador afirma que se habitou rápido ao ofício. “Acho que por ser da roça, a gente acaba se acostumando com tudo”, finalizou.

Luto é vivido em fases, afirma especialista

Os sepultadores lidam todos os dias com a morte. E em um momento como o que estamos vivendo, quando as pessoas pensam e falam mais sobre isso, a especialista em inteligência emocional Dayane Perin destaca que o luto é vivenciado em fases.

“Apesar de o luto não vir com um manual de instruções, não ser linear e não ser padronizado para todos que o vivem, existem fases. Cada indivíduo passa por ela em ordens e tempo cronológico diferente”, explicou.

Segundo a especialista, há a fase da raiva/negação, onde a pessoa não consegue aceitar porque este fato aconteceu. Há a fase da autoconformidade, como pensar que quem morreu está em um lugar melhor do que quem ficou. “Há a fase da ‘vida que precisa seguir em frente’ e, normalmente, esta fase vem carregada de culpa. Como minha vida vai seguir em frente sem a pessoa, como eu me permito ser feliz se essa pessoa faleceu?”, detalhou. “E há a fase da realidade: a saudade existe, é eterna, mas eu preciso seguir minha vida e isso não diminui meu amor pela pessoa que partiu”, concluiu.

Dayane ressalta que o luto é realmente particular e sem manual de sobrevivência a ele, mas que a principal ferramenta para lidar com a situação é o acolhimento. “Se permita viver o luto, chore, se recolha, escreva, sinta. Só a partir daí vira o entendimento. Só conseguimos conviver com o que conhecemos e a partir da clareza, da convivência que vem o amor. E o seu amor, por si mesmo, nesse período tem poder de cura”, afirmou.

A especialista acredita que após 2020 ninguém será o mesmo e até os mais frios à assuntos alheios também estão sentindo a comoção de luto mundial. “De certa forma, pensamos o quão a vida é breve, o quão o agora é importante e o quão o presente de fato é um presente que temos para viver e deixar nosso legado quando não estivermos mais aqui”, finalizou. 



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Uma vida lidando com a morte

Em Santo André, pai e filho são sepultadores; categoria ficou em evidência com a pandemia da Covid

Aline Melo
do Diário do Grande ABC

19/07/2020 | 07:07


Uma vida inteira de trabalho lidando com a morte. Esta é a realidade dos sepultadores que atuam em cemitérios públicos e privados do Grande ABC e que, por causa da pandemia de Covid-19, vêem sua atividade em evidência e recebendo maior reconhecimento da população. Na região, as cidades de Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema e Ribeirão Pires contam com 76 trabalhadores no setor. Em Santo André, pai e filho atuam juntos há 27 anos e falam com orgulho da profissão.

Mario Sergio Antoniol, 68 anos, trabalha há 46 anos no Cemitério Assunção, em Santo André. Seguiu o ofício do sogro e agora divide as tarefas com o filho, Peterson Ariene Antoniol, 45. Para Mario Sergio, a parte mais difícil de seu ofício são as exumações. “É um ambiente triste, as famílias já chegam muito constrangidas”, relatou.

O profissional afirmou que não chora nos enterros, mas que a emoção é maior quando o sepultamento é de crianças. “Também não participo de velório nem de enterro de parentes. Aí é muito dolorido”, relatou.

Desde os 18 anos trabalhando com o pai, Peterson também sente mais os enterros de crianças e acha que a visibilidade que os cemitérios estão tendo por causa da pandemia de Covid-19 tem ajudado a fazer com que as pessoas valorizem mais a sua profissão. “Este momento faz com que as pessoas tenham mais carinho com os sepultadores, conversem mais”, afirmou.

Os dois trabalhadores afirmaram que o aumento no número de sepultamentos por causa da pandemia não foi muito expressivo e destacam que a grande mudança foi na necessidade de se paramentar para evitar a contaminação.

De janeiro a junho deste ano, foram realizados 5.828 enterros nos cemitérios municipais de quatro cidades da região, 8% a mais do que no mesmo período de 2019. Diadema, Mauá e Rio Grande da Serra não informaram os dados.

DOS DOIS LADOS DA COVID
Se o trabalho de sepultadores ficou mais em evidência com a pandemia de Covid-19, trabalhador de São Caetano, Izaias Manoel dos Santos, 43, viveu a situação dos dois lados. O oficial de sepultamento se contaminou com o novo coronavírus em junho. “Como não parei de trabalhar, usando transporte público, acabei tendo a Covid-19”, relatou.

Santos, que mora na Zona Leste de São Paulo, afirmou que para muitas famílias têm sido difícil entender as mudanças impostas pela pandemia, como menor tempo de velório e limitação no número de pessoas. “Infelizmente, tem família que não entende, querem ficar mais, acham que a gente é que está impondo estas regras, e isso acaba agravando o sentimento deles”, pontuou.

Na função há ano e meio, o sepultador afirma que se habitou rápido ao ofício. “Acho que por ser da roça, a gente acaba se acostumando com tudo”, finalizou.

Luto é vivido em fases, afirma especialista

Os sepultadores lidam todos os dias com a morte. E em um momento como o que estamos vivendo, quando as pessoas pensam e falam mais sobre isso, a especialista em inteligência emocional Dayane Perin destaca que o luto é vivenciado em fases.

“Apesar de o luto não vir com um manual de instruções, não ser linear e não ser padronizado para todos que o vivem, existem fases. Cada indivíduo passa por ela em ordens e tempo cronológico diferente”, explicou.

Segundo a especialista, há a fase da raiva/negação, onde a pessoa não consegue aceitar porque este fato aconteceu. Há a fase da autoconformidade, como pensar que quem morreu está em um lugar melhor do que quem ficou. “Há a fase da ‘vida que precisa seguir em frente’ e, normalmente, esta fase vem carregada de culpa. Como minha vida vai seguir em frente sem a pessoa, como eu me permito ser feliz se essa pessoa faleceu?”, detalhou. “E há a fase da realidade: a saudade existe, é eterna, mas eu preciso seguir minha vida e isso não diminui meu amor pela pessoa que partiu”, concluiu.

Dayane ressalta que o luto é realmente particular e sem manual de sobrevivência a ele, mas que a principal ferramenta para lidar com a situação é o acolhimento. “Se permita viver o luto, chore, se recolha, escreva, sinta. Só a partir daí vira o entendimento. Só conseguimos conviver com o que conhecemos e a partir da clareza, da convivência que vem o amor. E o seu amor, por si mesmo, nesse período tem poder de cura”, afirmou.

A especialista acredita que após 2020 ninguém será o mesmo e até os mais frios à assuntos alheios também estão sentindo a comoção de luto mundial. “De certa forma, pensamos o quão a vida é breve, o quão o agora é importante e o quão o presente de fato é um presente que temos para viver e deixar nosso legado quando não estivermos mais aqui”, finalizou. 

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