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Grande ABC não tem perspectiva para retomar aulas presenciais

André Henriques/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Prefeitos já falam em não seguir orientação do Estado, que projeta volta no dia 8 de setembro


Vinícius Castelli
Do Diário do Grande ABC

19/07/2020 | 07:00


Os prefeitos das cidades do Grande ABC já acenam publicamente que não estão confortáveis com a decisão do governo do Estado em autorizar o retorno das aulas presenciais no dia 8 de setembro. Mesmo com a região sendo considerada pelo Estado menos vulnerável ao novo coronavírus, levando em consideração a oscilação no número de casos, de mortes, ocupação de leitos e volume de internações, os chefes dos Executivos se mostram temerosos – as sete cidades contam com 243.436 alunos na rede estadual e cerca de 203 mil nas redes municipais.

Em Santo André, o prefeito Paulo Serra (PSDB) não vê possibilidade de iniciar a discussão sobre o retorno das aulas presenciais. “Seria extremamente arriscado, pelo menos com os números que a gente ainda tem hoje, o retorno de 38 mil estudantes para as escolas públicas da cidade ao mesmo tempo. A gente tem pensado em alternativas de qualificar os estudos feitos em casa, dando estrutura aos alunos, qualificando nossos professores, nossa rede”, comentou.

Opinião muito parecida tem o prefeito de São Caetano, José Auricchio Júnior (PSDB), que pretende fazer pesquisa para estudar a situação. “Estamos evoluindo e finalizando plano de retomada da Educação. São Caetano não vai seguir orientações de ninguém do ponto de vista hierárquico da retomada da educação. Como estamos tendo adesão muito grande na nossa plataforma remota do Google, vamos utilizar essa plataforma para pesquisar. Vamos questionar alunos, pais de alunos e professores (sobre o retorno)”, comentou.

São Bernardo, em nota, reforçou a importância do diálogo com o Estado antes de tomar qualquer decisão, assim como o prefeito de Diadema, Lauro Michels (PV). Em Mauá, a Prefeitura informou que seguirá a decisão coletiva do Consórcio Intermunicipal do Grande ABC. O prefeito de Ribeirão Pires, Adler Kiko Teixeira (PSDB) disse que a “seguirá as orientações da ciência e da medicina, priorizando a saúde e a segurança dos estudantes, profissionais da Educação e de todas as famílias”.

Presidente do Consórcio e prefeito de Rio Grande da Serra, Gabriel Maranhão (Cidadania) afirmou que enviou na quinta-feira ofício solicitando esclarecimentos ao governo do Estado sobre os critérios para a retomada das aulas e demais atividades presenciais. “Os esclarecimentos serão importantes para que os sete municípios possam alinhar conjuntamente suas ações e decretos de retomada dessas atividades, seguindo as diretrizes do Plano São Paulo”, comentou.

Na sexta-feira o governo do Estado manteve a decisão de permitir aulas presenciais em todos os níveis a partir do dia 8 de setembro, mesmo sob recomendação contrária de especialistas. Dois dias antes, o professor titular da Escola de Matemática Aplicada da FGV (Fundação Getulio Vargas), Eduardo Massad, por exemplo, havia projetado aumento da mortalidade infantil com crianças reunidas. Segundo ele, o retorno das atividades presenciais pode causar 17 mil mortes de crianças no Brasil até o fim da pandemia.

O secretário estadual da Educação, Rossieli Soares, explicou que o planejamento será mantido, com retorno gradual e em esquema do rodízio, caso todas as regiões do Estado permaneçam 28 dias na Fase 2 (amarela) do Plano São Paulo de flexibilização. Na atualização de sexta-feira, apenas oito das 22 subdivisões estavam nesta condição, entre elas o Grande ABC.

Com medo, pais dizem que filhos só voltam para as escolas em 2021

Mesmo com a possibilidade de o governo do Estado liberar as aulas presenciais, boa parte dos pais está disposta a não enviar os filhos para a escola até o fim do ano. Os medos são muitos, mas todos eles esbarram no perigo da contaminação e de desenvolver as formas mais graves da Covid-19.

Gabriela Rodrigues Mousse, 38 anos, é professora de educação básica e atende desde o berçário até o 5º ano. Ela tem o filho Miguel, 9, na rede municipal de Santo André, onde cursa o terceiro ano. Para ela, mesmo que as atividades sejam retomadas de forma presencial, o filho só volta quando houver vacina para a Covid-19. “Criança não consegue manter as regras de prevenção, não conseguem manter distanciamento”, comenta.

Técnico de som e editor de streaming, Sergio Narciso, 34 anos, tem a filha Margarida, 3, matriculada em creche da rede municipal andreense. Para ele, não é momento de volta às aulas de forma presencial. Ele garante que sua filha não retornará às atividades neste ano, apesar de temer que a pequena perca a vaga.

Daiana Voltolin, 47, de Santo André, tem o filho Nicolas Voltolin Rigol, 17, cursando o 3º ano do ensino médio na rede estadual. Ela ressalta a importância da aula presencial, e que desta maneira fica mais fácil para aprender e tirar dúvidas. “Este seria um ano decisivo para ele, com muito o que estudar para o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e vestibular”, comenta. No entanto, ela sabe que trata-se de momento muito delicado e ainda não tomou a decisão se o filho volta ou não para a escola. “Vamos ter que avaliar bem e decidir o que fazer. Proteção deles acima de tudo”, finaliza.


Colégios particulares apostam em medidas para dar segurança

A torcida pela reabertura vem das escolas particulares, que tentam sobreviver após sentirem os efeitos da pandemia. Entre inadimplência e alunos que pediram transferência, colégios tentam equilibrar as contas. Diante do cenário – o Diário noticiou em maio que a estimativa é a de que de 35% a 50% das instituições correm o risco de fechar – retomar as atividades, mesmo no sistema de rodízio, é luz no fim do túnel.

Presidente da Aesp (Associação das Escolas Particulares) ABC, Oswana Fameli, acredita que as escolas pagas, que contam com cerca de 90 mil estudantes na região, estão prontas para receber alunos. A dirigente diz que os colégios estão tomando medidas para garantir a segurança. “Nenhuma escola abrirá sem ter protocolo de segurança. Temos como garantir totens de álcool gel perto das portas, medição da temperatura, sanitização após manipulação dos brinquedos, entre outras ações”, afirma.

Oswana diz que há pais de alunos retornando ao trabalho e pedindo para deixar os filhos na escola, o que não é permitido. “E nós pagamos um preço por sermos honestos”, comenta. “É mais seguro deixar a criança na escola, que está preparada para recebê-la, do que com algum cuidador, com sete ou oito crianças”, pondera.
A dirigente diz que não pretende forçar a situação da reabertura e se coloca à disposição para debater o assunto. “Queremos ser lembrados como parceiros.”

NOVO NORMAL
Para seguir com as portas abertas e na expectativa de voltar a receber alunos neste ano, as escolas se adaptaram. Além de dar descontos na mensalidade, aderiram aos programas do governo federal para manter o emprego dos funcionários, mesmo com redução de salários e carga horária.

Essa é a situação da Escola Passo a Passo, que atende berçário e educação infantil, em Mauá. As proprietárias Karin Bozzi Ferreira, 42 anos, e sua irmã, Katia Bozzi Guazzelli, 49, mantém 14 funcionárias fixas e mais quatro professores semanais com aulas extras. “Logo que começou a pandemia, repassamos desconto nas mensalidades. Aderimos ao programa do governo federal que paga parte do salário. A pandemia destruiu muitos empregos. Muitas escolas fecharam. Estamos tentando sobreviver”, explica Karin, que oferece atividades remotas para manter o vínculo com os alunos.

Esperando pela reabertura, Karin se adiantou. “Está previsto o retorno para setembro. Vamos acatar todas as exigências da vigilância sanitária. Compramos tapetes higiênicos, termômetros, álcool gel e produtos para higienizar a escola. Refizemos toda parte de lavagem de caixa d’água e dedetização. Estamos nos preparando”, explica. “Os pais precisam trabalhar e não têm com quem deixar as crianças. Eles precisam da escola para poder ter o emprego” justifica. 


Especialista aponta riscos do retorno

Epidemiologista especialista em dinâmica em transmissão de doenças infecciosas e professora de medicina da USCS (Universidade Municipal de São Caetano), Adélia Marçal dos Santos vê obstáculos na retomada das aulas presenciais agora.

“O risco de contágio depende de fatores externos e internos. O local de funcionamento da escola e a origem dos frequentadores, por exemplo. A frequência em escolas públicas de nível fundamental ou médio pode ser predominantemente de crianças da região, mas em escolas privadas e universidades, a diversidade de origem de moradia dos estudantes é enorme. Isso aumenta o risco de introdução de vírus na escola. Quanto maior a diversidade de locais de origem dos frequentadores, maior o risco de a escola se tornar um centro de transmissão e introdução de novos casos em comunidades que já não estão mais com casos ativos”, avaliou.

Outro aspecto levantado pela epidemiologista é o contato direto com os amigos. “Pessoas tendem a pensar que o amigo não está doente, então não tem perigo. Somos mais indulgentes com os amigos. A tendência é que os estudantes não mantenham distância”, destaca a especialista, que se preocupa com o contexto. “Precisa haver flexibilidade e apoio para aqueles que se sentem inseguros para volta, possuem mais vulnerabilidade à doença, ou vivem com pessoas nestas condições. Ainda precisa haver preparo e contingenciamento para atender alunos e professores que venham a precisar ficar em quarentena ou isolamento, para não haver interrupção das atividades e perdas irreparáveis”, acrescenta.

Caso a decisão do poder público seja pela volta das aulas presenciais, a epidemiologista dá conselhos. “Uma estratégia para minimizar e conter a transmissão é, além do distanciamento, ventilação e cuidados de desinfecção de superfícies, manter horários diferentes para alimentação e intervalos de descanso, de forma a reduzir a interação de grupos diferentes. Mantendo conjunto de estudantes que só interagem entre si, é possível conter a introdução do vírus nestes pequenos grupos, sem afetar a comunidade estudantil, ou perder o controle da transmissão. Para isso, são necessárias medidas de barreiras como higiene dos refeitórios e banheiros entre os turnos. É importante que professor mantenham suas reuniões de forma virtual e evitem ser as pontes entres os grupos de jovens, ao mesmo tempo que se protegem da exposição à um número maior de pessoas”, aconselhou.

“Tudo isso pode funcionar, mas depende diretamente de um sistema de comunicação em que as pessoas confiem para que aqueles que se tornem sintomáticos ou tenham contato com alguém doente notifiquem imediatamente para que sejam tomadas mediadas de controle imediatas. A capacidade de identificar riscos e tomar ações de controle irá proteger as escolas e a comunidade que servem. Irá também garantir que permaneçam abertas caso algum estudante ou funcionário fique doente”, finaliza.



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