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Região gasta R$ 346 mi para enterrar lixo

Celso Luiz/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

No ano passado, cada morador do Grande ABC gerou, em média, 651 quilos de resíduos sólidos


Bia Moço
Do Diário do Grande ABC

28/06/2020 | 23:59


A destinação do lixo produzido pelos moradores da região custou R$ 346 milhões aos cofres das sete cidades do Grande ABC em 2019, segundo informações das prefeituras, levando em conta a coleta dos resíduos sólidos desde a porta das residências até que cheguem aos aterros localizados em Santo André e Mauá, e também a varrição de ruas, praças e parques. Como comparação, em 2017, o Diário publicou estudo que apontou custo de R$ 261 milhões apenas para enterrar os rejeitos.

O surgimento da pandemia causada pelo novo coronavírus favorece o aumento da produção do lixo doméstico em 2020, já que boa parte da população obedeceu determinação do governo do Estado para ficar confinada em casa. Este comportamento se reflete nos números. Em Santo André, por exemplo, de janeiro a maio de 2019, a Prefeitura gastou R$ 19 milhões para enterrar o lixo produzido na cidade. No mesmo período deste ano, já foram consumidos R$ 24 milhões.

Em toda a região, apenas de janeiro a maio deste ano já foram produzidas 766 mil toneladas de lixo, o que significa que cada um dos 2.789.871 habitantes do Grande ABC gerou, em média, 274 quilos de rejeitos levados aos aterros no período – em 2019, o montante foi de 1.815.896 toneladas de resíduos sólidos, o que representa 651 quilos por pessoa.

Bióloga, especialista em recursos hídricos e professora da USCS (Universidade Municipal de São Caetano), Marta Ângela Marcondes pontua que o momento da pandemia seria ideal para reeducação ambiental. “As pessoas em casa pedem alimentos por aplicativos, o que gera embalagens, usam mais produtos de higiene pessoal e também de limpeza doméstica, e não se tem por costume utilizar produtos retornáveis. Deveria ter tido uma campanha (de conscientização)”, defende a professora.

Marta destaca que a gestão dos rejeitos na região, no entanto, é problema discutido há pelo menos 30 anos – quando o Consórcio Intermunicipal do Grande ABC foi criado com intuito de unir os municípios em busca de soluções para questões comuns. No entanto, desde 1990 o valor gasto com o setor é pauta preocupante entre os especialistas, que criticam a falta de execução dos planos municipais de sustentabilidade e a negligência da população. “As pessoas acham que existe uma fada do lixo e que este material é colocado em um saco e desaparece. Mas isso não existe, então se percebe nitidamente que não se tem a noção (dos gestores e das pessoas) de onde vem e para onde vão os produtos que consumimos. Triste, mas é real”, desabafa Marta.

Professor da Universidade Metodista e consultor na área de saneamento e resíduos sólidos, Carlos Henrique de Oliveira compartilha da opinião e destaca que a desorganização regional vai na contramão da PNRS (Política Nacional de Resíduos Sólidos) – Lei número 12.305/10. O regulamento, que está baseado no chamado ‘3Rs’ da sustentabilidade – reduzir, reutilizar e reciclar –, visa preservar o meio-ambiente e destinar corretamente o lixo. Oliveira explica que a definição consiste em que toda a sociedade deve trabalhar e atuar no sentido de não gerar resíduo, reduzir a produção e que, o que for criado, deve ser reaproveitado e reutilizado, sendo encaminhado para reciclagem e tratamento. “Somente o que sobrar disso (rejeito) deve ir para os aterros sanitários”, destaca.

Segundo o professor, a destinação do lixo gerado nas casas é de responsabilidade do setor público, sendo que, de 50% a 52%, são resíduos orgânicos (sobras de alimentos), de 30% a 33%, resíduos secos (recicláveis), e, somente 15% a 20%, são os rejeitos. “Portanto, as duas primeiras frações dos resíduos que geramos não precisam ir para aterro sanitário. Podem ser reciclados. Os resíduos secos (recicláveis) devem ser encaminhados para a indústria recicladora e os resíduos orgânicos devem ser encaminhados para a compostagem ou biodigestão” pontua Oliveira.

O especialista destaca que, para atender ao que está previsto na lei nacional, os municípios “deveriam investir fortemente na informação qualificada e orientação à população, para que separe os tipos de resíduos”, incentivando ainda a coleta seletiva. Vida útil dos aterros depende de reciclagem. Embora a destinação do lixo urbano seja problema antigo no Grande ABC, a quantidade de resíduos despejados também é questão que salta aos olhos, já que os descartes irregular e inadequado contribuem ainda mais para a diminuição da vida útil dos aterros – que dura, em média, até 30 anos.

Segundo especialistas, a reciclagem seria o método mais rápido e eficaz para prolongar um pouco o uso dos aterros sanitários e, portanto, depende, sobretudo, da sociedade se conscientizar da importância da ação e do poder público de fazer a coleta seletiva de maneira correta.</div> <div> </div> <div>Conforme dados do inventário estadual de resídios sólidos urbanos, publicado anualmente pela Cetesb (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental), em oito anos as sete cidades produziram 798 toneladas a mais de resíduos domésticos por dia, já que em 2010 os municípios somavam 1.985 toneladas e, em 2018, foram 2.783.

O problema é que todo este lixo produzido nas cidades do Grande ABC é distribuído em apenas dois aterros, sendo um municipal, no Parque Gerassi, em Santo André – que recebe somente os resíduos coletados da cidade – e o outro particular, no Sertãozinho, em Mauá – Lara Central de Tratamento de Resíduos Ltda –, que enterra o detrito das outras seis cidades da região.

Professor da Universidade Metodista e consultor na área de saneamento e resíduos sólidos, Carlos Henrique de Oliveira explica que os aterros sanitários variam de porte e capacidade. “A vida útil dos aterros pode ser bastante ampliada, se forem adotadas medidas e ações voltadas à recuperação dos resíduos gerados”, sintetiza. O especialista garante que os resíduos secos e os orgânicos correspondem a mais de 80% de todo o volume e peso dos resíduos sólidos domiciliares. “Portanto, menos de 20% devem ir para os aterros”, explica Oliveira, pontuando que, desta forma, levaria mais tempo para que os aterros tivessem a capacidade esgotada.

“Os aterros sanitários são um local para receber resíduos e têm um limite para isso. É como uma gaveta onde guarda meias. Imagine só ir colocando as meias que compra, sem retirar nenhuma. Em algum momento, essa gaveta vai ficar cheia e não vai caber mais nenhuma meia”, ilustrou o professor. Incineração é alternativa a ser implantada em breve em Mauá. A Lara Central de Tratamento e Resíduos deve iniciar, neste mês, as obras da URE (Unidade de Recuperação Energética), em Mauá, com previsão de início dos trabalhos para dezembro. O projeto prevê a queima de lixo recolhido das nove cidades nas quais a empresa atua (São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá. Ribeirão Pires, Rio Grande da Serra, Ferraz de Vasconcelos, Itanhaém e Juquiá) para geração de energia, com previsão de destinar parte da eletricidade à rede mauaense – cada quilo de lixo queimado teria capacidade para gerar 80 kilowatt de energia, suficiente para manter ligado um secador de cabelo por 20 minutos

Se trata de alternativa para destinação do lixo da região que, ao invés de ser incinerado, poderá gerar energia. O Consórcio Intermunicipal do Grande ABC afirmou que, com o plano regional de gestão integrada de resíduos sólidos, apresentado em 2016, está buscando atualizar a iniciativa, por meio de recursos solicitados junto ao governo do Estado. Conforme nota enviada ao Diário, o colegiado “está articulando um plano metropolitano sobre a temática”. Além disso, o Consórcio garante que o GT (Grupo de Trabalho) Resíduos Sólidos tem trabalhado dentro das diretrizes regionais do plano elaborado “com foco na logística reversa, reciclagem e destinação correta dos resíduos da construção civil.”

O empreendimento custará R$ 900 milhões e projeta ser uma das dez maiores usinas do tipo em todo o mundo. Porém, é visto pela bióloga, especialista em recursos hídricos e professora da USCS (Universidade Municipal de São Caetano) Marta Ângela Marcondes, como “altamente perigoso”. Segundo ela, a criação da URE seria ainda mais prejudicial, ao invés de solução, já que gera poluentes orgânicos persistentes que são, inclusive, cancerígenos. “Este projeto nada mais é do que um incinerador, que é o pior modelo para tratamento e destinação final de resíduos. Se as politicas públicas de saneamento fossem efetivadas, não precisaríamos de um.

A professora destaca ainda que os municípios não prepararam seus planos municipais de saneamento e que, ao menos, deveriam ter projeto emergencial. No entanto, pelo que caracteriza como “falta de planejamento”, teorias de novas práticas, como é o caso da URE, são “vendidas” como método de solução. “As pessoas são enganadas quando esse modelo é vendido para as prefeituras e para a sociedade civil”, lamenta Marta. Para a especialista, o governo deixa de fazer a “lição de casa” quando o assunto é descarte de lixo.

A coleta seletiva feita de forma correta, além de contribuir no aspecto ambiental, com a diminuição do volume de itens enviados aos aterros, também impacta em outros setores, como social e econômicos. Isso porque promove a geração de empregos e renda a diversas pessoas que atuam nesta área.

O secretário executivo da plataforma Reciclar pelo Brasil, projeto integrante do movimento Separe Não Pare, Edy Merendino destaca que os serviços de reciclagem aproveitam muito bem os itens e destinam para outros fins, sem enviar aos aterros da região. “É um meio de aproveitar algo que não teria um fim correto. Além disso, não só no Grande ABC, mas em demais cidades de São Paulo, este serviço é realizado por cooperativas de catadores que tiram seu rendimento por este serviço. Então, além de gerar esse emprego, também possibilita essa condição econômica para família, gerando benefícios diante deste período.

O reflexo da pandemia impactou diretamente o processo da coleta seletiva e muitas cooperativas optaram em estacionar os serviços. Outras, permaneceram trabalhando com número reduzido de funcionários. “O cuidado com este serviço deve se manter redobrado, para benefício não virar malefício e logo, contribuir para uma disseminação maior”, explica Merendino.

Para isso, o especialista alerta que a atenção na separação dos itens é fundamental em todas as etapas da coleta, principalmente, no início, pelos consumidores. “O importante é conseguir separar os itens possíveis de reciclagem. Limpos e secos, seria o ideal”, reforça.

No Grande ABC, seis das sete cidades possuem programas de coleta seletiva – Rio Grande da Serra não respondeu até o fechamento desta edição. Em Santo André cerca de 31 toneladas de resíduos recicláveis por dia são encaminhados para as cooperativas da cidade. São Bernardo contabiliza mensalmente, onde 1.000 toneladas vão para distribuição, cerca de 5% de todo material coletado no município. Diadema soma, em média, 150 toneladas por mês de itens recicláveis. Em Mauá, por dia, a cidade recolhe pelo menos 1 tonelada e Ribeirão Pires, 19 toneladas ao mês. Em toda região, são, em média, oito cooperativas trabalhando. São Caetano não divulgou os dados atualizados.

Em Mauá, a Coopercata (Cooperativa de Catadores de Materiais Recicláveis, de Papel e Papelão) não pausou os trabalhos durante a pandemia, apenas afastou os profissionais do grupo de risco. Atualmente, a unidade possui 27 cooperadores que sentiram, diretamente, o impacto da quarentena. “O impacto também foi grande para a venda dos materiais, pois muitas empresas que compravam, fecharam neste período. Com isso, começamos a buscar empresas que retornaram aos poucos e os materiais prensados que deixamos parados, conseguimos distribuir para a venda”, explica a presidente Edilaine Gonçalves, a Naná.

A mandatária destaca que, durante a pandemia, mensalmente a cooperativa recebeu cerca de 28 toneladas e acredita que, não fosse a quarentena, este número seria o dobro. “Quando assumimos a cooperativa (em janeiro deste ano), estávamos buscando alternativas para que esse número crescesse a cada mês. Infelizmente, com a pandemia, tivemos esses problemas, por isso, optamos em não deixar de trabalhar”, finaliza a presidente. Cada catador da cooperativa recebe, por mês, R$ 200, em média.



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Região gasta R$ 346 mi para enterrar lixo

No ano passado, cada morador do Grande ABC gerou, em média, 651 quilos de resíduos sólidos

Bia Moço
Do Diário do Grande ABC

28/06/2020 | 23:59


A destinação do lixo produzido pelos moradores da região custou R$ 346 milhões aos cofres das sete cidades do Grande ABC em 2019, segundo informações das prefeituras, levando em conta a coleta dos resíduos sólidos desde a porta das residências até que cheguem aos aterros localizados em Santo André e Mauá, e também a varrição de ruas, praças e parques. Como comparação, em 2017, o Diário publicou estudo que apontou custo de R$ 261 milhões apenas para enterrar os rejeitos.

O surgimento da pandemia causada pelo novo coronavírus favorece o aumento da produção do lixo doméstico em 2020, já que boa parte da população obedeceu determinação do governo do Estado para ficar confinada em casa. Este comportamento se reflete nos números. Em Santo André, por exemplo, de janeiro a maio de 2019, a Prefeitura gastou R$ 19 milhões para enterrar o lixo produzido na cidade. No mesmo período deste ano, já foram consumidos R$ 24 milhões.

Em toda a região, apenas de janeiro a maio deste ano já foram produzidas 766 mil toneladas de lixo, o que significa que cada um dos 2.789.871 habitantes do Grande ABC gerou, em média, 274 quilos de rejeitos levados aos aterros no período – em 2019, o montante foi de 1.815.896 toneladas de resíduos sólidos, o que representa 651 quilos por pessoa.

Bióloga, especialista em recursos hídricos e professora da USCS (Universidade Municipal de São Caetano), Marta Ângela Marcondes pontua que o momento da pandemia seria ideal para reeducação ambiental. “As pessoas em casa pedem alimentos por aplicativos, o que gera embalagens, usam mais produtos de higiene pessoal e também de limpeza doméstica, e não se tem por costume utilizar produtos retornáveis. Deveria ter tido uma campanha (de conscientização)”, defende a professora.

Marta destaca que a gestão dos rejeitos na região, no entanto, é problema discutido há pelo menos 30 anos – quando o Consórcio Intermunicipal do Grande ABC foi criado com intuito de unir os municípios em busca de soluções para questões comuns. No entanto, desde 1990 o valor gasto com o setor é pauta preocupante entre os especialistas, que criticam a falta de execução dos planos municipais de sustentabilidade e a negligência da população. “As pessoas acham que existe uma fada do lixo e que este material é colocado em um saco e desaparece. Mas isso não existe, então se percebe nitidamente que não se tem a noção (dos gestores e das pessoas) de onde vem e para onde vão os produtos que consumimos. Triste, mas é real”, desabafa Marta.

Professor da Universidade Metodista e consultor na área de saneamento e resíduos sólidos, Carlos Henrique de Oliveira compartilha da opinião e destaca que a desorganização regional vai na contramão da PNRS (Política Nacional de Resíduos Sólidos) – Lei número 12.305/10. O regulamento, que está baseado no chamado ‘3Rs’ da sustentabilidade – reduzir, reutilizar e reciclar –, visa preservar o meio-ambiente e destinar corretamente o lixo. Oliveira explica que a definição consiste em que toda a sociedade deve trabalhar e atuar no sentido de não gerar resíduo, reduzir a produção e que, o que for criado, deve ser reaproveitado e reutilizado, sendo encaminhado para reciclagem e tratamento. “Somente o que sobrar disso (rejeito) deve ir para os aterros sanitários”, destaca.

Segundo o professor, a destinação do lixo gerado nas casas é de responsabilidade do setor público, sendo que, de 50% a 52%, são resíduos orgânicos (sobras de alimentos), de 30% a 33%, resíduos secos (recicláveis), e, somente 15% a 20%, são os rejeitos. “Portanto, as duas primeiras frações dos resíduos que geramos não precisam ir para aterro sanitário. Podem ser reciclados. Os resíduos secos (recicláveis) devem ser encaminhados para a indústria recicladora e os resíduos orgânicos devem ser encaminhados para a compostagem ou biodigestão” pontua Oliveira.

O especialista destaca que, para atender ao que está previsto na lei nacional, os municípios “deveriam investir fortemente na informação qualificada e orientação à população, para que separe os tipos de resíduos”, incentivando ainda a coleta seletiva. Vida útil dos aterros depende de reciclagem. Embora a destinação do lixo urbano seja problema antigo no Grande ABC, a quantidade de resíduos despejados também é questão que salta aos olhos, já que os descartes irregular e inadequado contribuem ainda mais para a diminuição da vida útil dos aterros – que dura, em média, até 30 anos.

Segundo especialistas, a reciclagem seria o método mais rápido e eficaz para prolongar um pouco o uso dos aterros sanitários e, portanto, depende, sobretudo, da sociedade se conscientizar da importância da ação e do poder público de fazer a coleta seletiva de maneira correta.</div> <div> </div> <div>Conforme dados do inventário estadual de resídios sólidos urbanos, publicado anualmente pela Cetesb (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental), em oito anos as sete cidades produziram 798 toneladas a mais de resíduos domésticos por dia, já que em 2010 os municípios somavam 1.985 toneladas e, em 2018, foram 2.783.

O problema é que todo este lixo produzido nas cidades do Grande ABC é distribuído em apenas dois aterros, sendo um municipal, no Parque Gerassi, em Santo André – que recebe somente os resíduos coletados da cidade – e o outro particular, no Sertãozinho, em Mauá – Lara Central de Tratamento de Resíduos Ltda –, que enterra o detrito das outras seis cidades da região.

Professor da Universidade Metodista e consultor na área de saneamento e resíduos sólidos, Carlos Henrique de Oliveira explica que os aterros sanitários variam de porte e capacidade. “A vida útil dos aterros pode ser bastante ampliada, se forem adotadas medidas e ações voltadas à recuperação dos resíduos gerados”, sintetiza. O especialista garante que os resíduos secos e os orgânicos correspondem a mais de 80% de todo o volume e peso dos resíduos sólidos domiciliares. “Portanto, menos de 20% devem ir para os aterros”, explica Oliveira, pontuando que, desta forma, levaria mais tempo para que os aterros tivessem a capacidade esgotada.

“Os aterros sanitários são um local para receber resíduos e têm um limite para isso. É como uma gaveta onde guarda meias. Imagine só ir colocando as meias que compra, sem retirar nenhuma. Em algum momento, essa gaveta vai ficar cheia e não vai caber mais nenhuma meia”, ilustrou o professor. Incineração é alternativa a ser implantada em breve em Mauá. A Lara Central de Tratamento e Resíduos deve iniciar, neste mês, as obras da URE (Unidade de Recuperação Energética), em Mauá, com previsão de início dos trabalhos para dezembro. O projeto prevê a queima de lixo recolhido das nove cidades nas quais a empresa atua (São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá. Ribeirão Pires, Rio Grande da Serra, Ferraz de Vasconcelos, Itanhaém e Juquiá) para geração de energia, com previsão de destinar parte da eletricidade à rede mauaense – cada quilo de lixo queimado teria capacidade para gerar 80 kilowatt de energia, suficiente para manter ligado um secador de cabelo por 20 minutos

Se trata de alternativa para destinação do lixo da região que, ao invés de ser incinerado, poderá gerar energia. O Consórcio Intermunicipal do Grande ABC afirmou que, com o plano regional de gestão integrada de resíduos sólidos, apresentado em 2016, está buscando atualizar a iniciativa, por meio de recursos solicitados junto ao governo do Estado. Conforme nota enviada ao Diário, o colegiado “está articulando um plano metropolitano sobre a temática”. Além disso, o Consórcio garante que o GT (Grupo de Trabalho) Resíduos Sólidos tem trabalhado dentro das diretrizes regionais do plano elaborado “com foco na logística reversa, reciclagem e destinação correta dos resíduos da construção civil.”

O empreendimento custará R$ 900 milhões e projeta ser uma das dez maiores usinas do tipo em todo o mundo. Porém, é visto pela bióloga, especialista em recursos hídricos e professora da USCS (Universidade Municipal de São Caetano) Marta Ângela Marcondes, como “altamente perigoso”. Segundo ela, a criação da URE seria ainda mais prejudicial, ao invés de solução, já que gera poluentes orgânicos persistentes que são, inclusive, cancerígenos. “Este projeto nada mais é do que um incinerador, que é o pior modelo para tratamento e destinação final de resíduos. Se as politicas públicas de saneamento fossem efetivadas, não precisaríamos de um.

A professora destaca ainda que os municípios não prepararam seus planos municipais de saneamento e que, ao menos, deveriam ter projeto emergencial. No entanto, pelo que caracteriza como “falta de planejamento”, teorias de novas práticas, como é o caso da URE, são “vendidas” como método de solução. “As pessoas são enganadas quando esse modelo é vendido para as prefeituras e para a sociedade civil”, lamenta Marta. Para a especialista, o governo deixa de fazer a “lição de casa” quando o assunto é descarte de lixo.

A coleta seletiva feita de forma correta, além de contribuir no aspecto ambiental, com a diminuição do volume de itens enviados aos aterros, também impacta em outros setores, como social e econômicos. Isso porque promove a geração de empregos e renda a diversas pessoas que atuam nesta área.

O secretário executivo da plataforma Reciclar pelo Brasil, projeto integrante do movimento Separe Não Pare, Edy Merendino destaca que os serviços de reciclagem aproveitam muito bem os itens e destinam para outros fins, sem enviar aos aterros da região. “É um meio de aproveitar algo que não teria um fim correto. Além disso, não só no Grande ABC, mas em demais cidades de São Paulo, este serviço é realizado por cooperativas de catadores que tiram seu rendimento por este serviço. Então, além de gerar esse emprego, também possibilita essa condição econômica para família, gerando benefícios diante deste período.

O reflexo da pandemia impactou diretamente o processo da coleta seletiva e muitas cooperativas optaram em estacionar os serviços. Outras, permaneceram trabalhando com número reduzido de funcionários. “O cuidado com este serviço deve se manter redobrado, para benefício não virar malefício e logo, contribuir para uma disseminação maior”, explica Merendino.

Para isso, o especialista alerta que a atenção na separação dos itens é fundamental em todas as etapas da coleta, principalmente, no início, pelos consumidores. “O importante é conseguir separar os itens possíveis de reciclagem. Limpos e secos, seria o ideal”, reforça.

No Grande ABC, seis das sete cidades possuem programas de coleta seletiva – Rio Grande da Serra não respondeu até o fechamento desta edição. Em Santo André cerca de 31 toneladas de resíduos recicláveis por dia são encaminhados para as cooperativas da cidade. São Bernardo contabiliza mensalmente, onde 1.000 toneladas vão para distribuição, cerca de 5% de todo material coletado no município. Diadema soma, em média, 150 toneladas por mês de itens recicláveis. Em Mauá, por dia, a cidade recolhe pelo menos 1 tonelada e Ribeirão Pires, 19 toneladas ao mês. Em toda região, são, em média, oito cooperativas trabalhando. São Caetano não divulgou os dados atualizados.

Em Mauá, a Coopercata (Cooperativa de Catadores de Materiais Recicláveis, de Papel e Papelão) não pausou os trabalhos durante a pandemia, apenas afastou os profissionais do grupo de risco. Atualmente, a unidade possui 27 cooperadores que sentiram, diretamente, o impacto da quarentena. “O impacto também foi grande para a venda dos materiais, pois muitas empresas que compravam, fecharam neste período. Com isso, começamos a buscar empresas que retornaram aos poucos e os materiais prensados que deixamos parados, conseguimos distribuir para a venda”, explica a presidente Edilaine Gonçalves, a Naná.

A mandatária destaca que, durante a pandemia, mensalmente a cooperativa recebeu cerca de 28 toneladas e acredita que, não fosse a quarentena, este número seria o dobro. “Quando assumimos a cooperativa (em janeiro deste ano), estávamos buscando alternativas para que esse número crescesse a cada mês. Infelizmente, com a pandemia, tivemos esses problemas, por isso, optamos em não deixar de trabalhar”, finaliza a presidente. Cada catador da cooperativa recebe, por mês, R$ 200, em média.

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