
Os travestis se prostituem na avenida Industrial e as mulheres, na avenida D. Pedro II. Eles foram recrutados depois de vários meses de encontros e reuniões, realizados em alguns casos, em um drive-in.
Pioneira no país, o mérito da iniciativa é da secretária de Educação do município, Cleusa Repulho. As aulas de alfabetização e de complementação escolar serão ministradas por voluntários do Mova (Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos). O curso profissionalizante de estética ficará a cargo de J.J.C., 38 anos, a Kelly, que é travesti e chegou a freqüentar a avenida Industrial. Hoje, Kelly não se prostitui mais e dirige seu próprio salão de cabeleireiro, em Santo André.
O meio-de-campo entre a administração e os profissionais do sexo foi feito pelo diretor do Departamento de Educação do Trabalhador, Antonio Viana Balbino. O enfoque da pasta de Balbino é agir em segmentos que encontram dificuldade de inserção no mercado, como jovens e adolescentes (entre 16 anos e 25 anos), portadores de necessidades especiais e outros grupos sociais excluídos.
Assembléia – O diretor do Departamento de Educação promoveu assembléias em um drive-in da avenida Industrial e conseguiu reunir um número de prostitutas e travestis suficiente para abrir a primeira turma. A maior dificuldade foi superar as divergências entre os dois grupos: “Havia muita rivalidade entre as meninas e os travestis. Talvez o fato de elas participarem de uma atividade conjunta sirva para iniciar uma nova relação”.
Balbino acredita que a iniciativa da Prefeitura de Santo André terá “uma boa aceitação da sociedade”. Ele entende que servirá também para “passar uma outra idéia do poder público”. Balbino explica: “Até então, a idéia que elas tinham do poder público era de uma força que prendia e espancava. O fato de termos ido até elas, mostrado interesse e aberto esse curso talvez sirva para mudar essa imagem”.
Segundo o diretor do Departamento de Educação, as garotas de programa vêem sua atividade como transitória e o curso aparece como uma oportunidade para modificar seu modo de vida. Já a maior parte dos travestis gostaria de ter outra atividade, sem deixar necessariamente a prostituição. Não é o caso de Márcia, um travesti mineiro de Três Pontas, que vê nas aulas “uma janela para se afastar da violência das ruas”.
A secretária Cleusa Repulho conta que algumas garotas de programa e travestis chegaram a freqüentar isoladamente salas do Mova, mas a adaptação foi difícil. A maioria desistiu do curso. Outro problema enfrentado era conciliar essa classe especial de alunos com entidades conveniadas, que dão cursos de alfabetização (muitas dessas entidades são igrejas). A parceria foi firmada finalmente com a entidade Régua e Compasso.
A idéia inicial que era abrir uma sala de aula dentro de um drive-in foi abandonada e decidiu-se por concentrar as atividades educacionais na Casa Amarela, no Craisa, onde a Educação municipal montou seu QG.
Cleusa lembra que foram “meses de negociação” e a conversa nem sempre foi fácil. Ela se recorda que, nos encontros, as prostitutas e os travestis duvidavam que a “secretária em pessoa” participasse da reunião. “Eles se sentem tão excluídos que não se vêem mais como munícipes, com os mesmos direitos e deveres das outras pessoas.”
O prefeito João Avamileno estará presente na aula inaugural. O fato do curso ter início em junho, mês da tradicional Parada Gay, foi apenas “uma coincidência”, garante o diretor do Departamento de Educação, que não esconde a animação e assegura que o programa será “inspirador para outros municípios”. As aulas do primeiro módulo experimental, com duração prevista para seis meses, vão custar aos cofres públicos R$ 1,5 mil mensais.
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