
Os médicos autorizam apenas a presença da mulher, uma interminável paixão que começou em 1956. Dona Albertina Pereira dos Santos, 76, eterna cúmplice, vai lá assiduamente para segurar nas mãos do marido e beijá-lo duas ou três vezes no rosto. Repete os gestos de carinho na chegada e na saída. No entanto, o companheiro não reage. Perdeu a noção de tudo. Da bola chutada para fora ou colocada nas redes dos endiabrados inimigos que o perseguiam inútil e sistematicamente nos cinco títulos estaduais conquistados pelo São Paulo entre 1930/49. Dos rivais que não se equilibravam nas próprias pernas na tentativa de brecar o artilheiro da Copa do Mundo de 1938 na França pela Seleção Brasileira.
O inconfundível Homem de Borracha era decantado em prosa e verso nas ruas de Paris. "O primeiro Pelé que surgiu nos estádios", como diria o publicitário Washington Olivetto em depoimento num filme promocional apresentado quarta-feira à noite na reabertura da exposição alusiva ao ex-craque. É provável que a futura obra cinematográfica da Publikan Propaganda e MKT, baseada no livro de André Ribeiro – O Diamante Eterno – Uma Biografia de Leônidas da Silva (editora Gryfus) – esteja pronta em 18 meses. A mostra de fotos e painéis do personagem permanece aberta ao público até o final do mês no Memorial do Morumbi. Vale a pena conferir.
Primeiro? A compreensível comparação de Olivetto não impede que algumas testemunhas do futebol romântico o coloquem no mesmo nível ou, sob outras óticas, num pedestal bem superior àquele ainda ocupado pelo Atleta do Século. Exagero? Não importa. Não é o caso de reaquecer a polêmica numa Era em que o Rei ainda se beneficia das galinhas dos ovos de ouro. Ou de um poderoso balcão de negócios que o mantém nas alturas de uma incomparável evidência.
Não é justo acirrar o bate-boca num momento em que o pobre Leônidas, esquecido entre quatro paredes, resiste à morte graças à protetora política tradicionalmente adotada pelo São Paulo – a de jamais abandonar os atores de um palco listrado nas cores branco, preto e vermelho. O jurista, jornalista, escritor e conselheiro tricolor, Paulo Planet Buarque, 76, que arrancou lágrimas de Albertina ao discursar na recente homenagem a Leônidas, o coloca muitos degraus acima de Pelé. Mas, segundo ele, a força da mídia é que desequilibra os palpites favoráveis ao sr. Edson Arantes do Nascimento.
Convenhamos: os dois passaram dos limites. Se Pelé se transformou num dos maiores vendedores planeta – do Viagra ou da Vitasay – não esqueçam que, muito antes, o Diamante Negro virou marca de chocolate. Que não podia sair às ruas para curtir um passeio sem lenço nem documento. Como aconteceu em 1942 na estação de trem do Brás, o fim da viagem iniciada no Rio. Milhares de torcedores o aguardavam e o sufocaram no trajeto até a sede do clube no Largo do Paissandu. O São Paulo investiu 200 contos de réis para concluir a "milionária transferência" e tirá-lo do Flamengo. De repente, Leônidas escreveria um dos mais belos capítulos da história são-paulina.
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