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Carla Tiene fala sobre o desafio do tênis

15/12/2001 | 19:07
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 Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Aos 20 anos, a brasileira Carla Tiene é um dos poucos exemplos do tênis que se fez grande pelas próprias forças. Filha de um professor e de uma funcionária aposentada, a atual segunda melhor tenista do Brasil e número 300 do ranking mundial, aos 15 anos largou pai, mãe e as duas irmãs mais velhas em Rio Claro, interior de São Paulo, para encarar a sorte na capital. O dinheiro para se sustentar na megalópole vinha dos torneios disputados. O sucesso nas quadras lhe trouxe a oportunidade de disputar o Aberto da França juvenil em 1997, acertar um contrato com a Brastemp, mudar para São Caetano, além de se profissionalizar e subir posições no ranking.

Ao final de 2000, Carla já era a número 415 do mundo, quando sofreu uma contusão no ombro causada por um cachorro que lhe mordeu na academia em que treinava em São Caetano. Como resultado, ficou parada mais de quatro meses. Um tempo difícil, pois, além da inatividade, perdeu o patrocínio da Brastemp. "Fiquei sem dinheiro nenhum, tinha de pagar as fisioterapias, o aluguel em São Caetano, treinamento, contas", disse a atleta, que chegou a fazer rifas de duas raquetes suas para pagar dívidas. "Acho que eram 100 números a cinco reais. Eu sei que ganhei uns mil reais. Não cheguei a passar fome nesta época, mas só tinha o arroz o e o feijão e falava para minha mãe que, se eu tivesse de comer só ovo para me manter, eu comeria", afirmou.

Em julho, Tiene voltou às quadras. Acertou dois apoios: das lojas A Esportiva, de Santo André, e das raquetes Head. Disputou 13 torneios internacionais com uma recuperação fulminante. Foi vice-campeã em Campos do Jordão, La Paz (Bolívia), El Salvador, e campeã em Guayaquill (Equador), Lima (Peru) e no Alphaville Open. Resultados que a fizeram subir da posição 909 para 300 do mundo e fechar o ano com seu objetivo conquistado mesmo com todas as adversidades pelas quais passou. "Foi um ano duro, mas acabou como o melhor da minha carreira".

Como há algum tempo se sustenta, Tiene se acha uma pessoa diferente no mundo do tênis cheio de patricinhas e mauricinhos. Em cada torneio, faz seu aquecimento, joga e vai embora, sem dar muita conversa. Sem muitos sorrisos, à primeira vista parece antipática. Mas é só a primeira impressão. Quando cria empatia por alguém, é muito gentil. "Gosto de tratar todos com respeito". Tiene adota o estilo de poucos amigos no circuito. "Não estou no tênis para fazer amigos e sim para jogar". Mas não cria inimizades. "Sei que muitos falam mal de mim, mas não quero mal a ninguém". Locais pacatos para treinar fazem parte também do seu perfil. Há um ano, treina em São Bernardo, cidade que representa nos Jogos Regionais e Abertos há um ano. Na academia ABC Tênis, na avenida Nações Unidas, ela encontra seu equilíbrio. "Aqui é muito calmo. É a minha cara. Sou assim, na minha", disse a tenista solitária. O Diário conversou com a segunda melhor jogadora do Brasil. Vela os principais trechos.

DGABC

DIÁRIO – Você passou um ano de altos e baixos, mas no final foi bem-sucedida. Qual é o seu objetivo para 2002?

CARLA TIENE – Pretendo disputar torneio de premiações maiores para subir no ranking. Tenho de estar entre as número 250 e 220 do mundo para ter a chance de disputar pela primeira vez o qualifying do torneiode profissionais em Roland Garros.

DIÁRIO – Disputar um Grand Slam como o Aberto da França, em Roland Garros, é o seu grande sonho?

CARLA – Tinha o sonho de estar entre as 300 do mundo. Agora que cheguei aqui, quero disputar o meu primeiro Grand Slam. Quando chegar lá, sei que vou querer ganhar o título.

DIÁRIO – Quando você estava em dificuldades financeiras no começo do ano passado, o olhar dos outros tenistas era diferente do que é hoje?

CARLA – As pessoas acreditavam que eu pudesse voltar. Mas hoje eu posso contar com mil e uma pessoas que me viraram as costas. Hoje eu sei quem são os meus verdadeiros amigos.

DIÁRIO – Como é o relacionamento no circuito mundial e brasileiro? Os tenistas se dão bem? Há muita inveja? Muita concorrência?

CARLA – No tênis feminino, o ambiente é uma porcaria. É uma rivalidade que não precisava existir. Tudo bem, na quadra todo mundo quer vencer. Mas fora dela uma tenista tem inveja da outra, muita desunião. Se todo mundo fosse unido, seria muito melhor.

DIÁRIO – Você acha que isso é relacionado a quê?

CARLA – Têm muitas meninas que jogam tênis porque o pai tem dinheiro e para se divertir. Não levam o tênis como uma profissão. Isso acontece muito em torneios menores, com premiações de US$ 10 mil. Muita delas vão para brincar. Aí perdem no primeiro torneio e ficam cochichando, espalhando boato.

DIÁRIO – Você é muito discreta na vida pessoal e profissional. Continua a manter a privacidade, dar poucas entrevistas. É um comportamento bem diferente de suas contemporâneas como Vanessa Menga (4ª do Brasil), que vai à programas de TV, faz comerciais e já até posou nua para a Playboy.

CARLA – Não gosto de ir a danceterias. Prefiro assistir a um filme ou jantar com os amigos. Em quadra, me concentro no jogo. Sobre a Vanessa, cada um tem o jeito de chamar a mídia. Eu acho que se eu jogar, for bem nos torneios, vou ser notícia. Ela vai à televisão, sai na capa da Playboy. Mas é difícil conseguir patrocínio sem resultado. Acho estranho só ela ir na TV e a Hebe falar que ela é a melhor jogadora do país.

DIÁRIO – Isso te magoa?

CARLA – Não. Gosto da Vanessa, é o jeito dela. Não julgo. O pessoal fala que ela não treina. Que só pensa em sair e posar na Playboy. Mas os resultados dela este ano foram bons, e daí?

DIÁRIO – Você, assim como a Vanessa, aceitaria posar nua para uma revista masculina?

CARLA – Eu não falo que nunca vou sair na Playboy. É uma coisa que eu não gostaria de fazer. Mas se um dia isso for o único meio para que eu possa viajar, eu poso.

DIÁRIO – Você já foi assediada por um fã?

CARLA – Não. Isso acontece mais com os tenistas top no ranking. No Brasil, o Meligeni e o Guga são bem assediados.

DIÁRIO – Você uma vez disse que não está no tênis para fazer amigos e sim para jogar. Qual é a sua grande amiga no circuito?

CARLA – Falo muito com a Nanda (Fernanda) Alves (número três do Brasil). A gente se dá muito bem.

DIÁRIO – Quem você não topa?

CARLA – Acho que tem muita gente que fala mal de mim, que não conversa comigo. Mas eu acho que se chegar e conversar assim, eu não vou deixar de falar com elas. Não guardo mágoa.

DIÁRIO – Você disputou varios torneios no exterior e nunca pôde levar seu técnico ou conhecido pelo fato de não ter ainda muitos recursos. Como é essa experiência de ficar tanto tempo fora de seu país, treinar e jogar sozinha?

CARLA – É muito ruim. Por três anos eu tive um técnico exclusivo. Ele passava a viagem toda comigo. Tem torneio que você chega e não tem ninguém para olhar e dizer "vamos!" Posso ficar dois meses fora, mas se tiver um técnico.

DIÁRIO – Existe algo bom nisso também?

CARLA – Fiquei muito mais madura. Antes eu gastava fortunas no cabeleireiro, era vaidosa, pintava o cabelo cada dia de uma cor. Hoje eu não ligo tanto para isso. Passei um ano sem comprar roupas. Abri mão da minha vaidade. O que eu mais quero hoje é fazer com que meu pai não precise trabalhar.

DIÁRIO – Como você vê o tênis feminino hoje no Brasil?

CARLA – Está totalmente discriminado. Ninguém pode cobrar resultados do tênis feminino, porque não há apoio. Se um dia, chegar em um nível mais alto na minha carreira, será mérito meu. Confederação, COB, Federações não fazem nada.

DIÁRIO – Há privilégio para o masculino?

CARLA – Sem dúvida. Uma coisa que me deixa muito triste, por exemplo, é o BCP Cup, que antes tinha masculino e feminino e que no ano que vem só terá masculino. Vai ter um pré-qualifying em que vão pagar US$ 15 mil. Oitenta por cento dos meninos que disputam esse pré nunca vão ter um ponto na vida no ranking mundial. Mas mesmo entre os homens, o desenvolvimento e o apoio estão muito difíceis.

DIÁRIO – Quer dizer que o fenômeno Guga não deu frutos?

CARLA – Por mais que o Guga tenha feito muito pelo esporte, o tênis ainda é um esporte de rico no Brasil. Menino pobre que quer ter destaque não tem futuro, fora raras exceções. Melhor tentar outra coisa, porque o incentivo sempre terá de vir do bolso. Patrocinador só pinta depois que se ganha muita coisa.

DIÁRIO – E a realidade é a mesma em outros países?

CARLA – Em países da América Latina sim. Na Argentina, por exemplo, a situação é a mesma. Isso não acontece nos Estados Unidos e na Europa.

DIÁRIO – Tenista tem uma vida nômade. Existe ainda um local em que você se sente em casa?

CARLA – Eu gosto muito do ABC. Às vezes eu falo para o meu pai que nunca mais vou voltar para Rio Claro. A região me acolheu de braços abertos. Outro dia estava descendo do ônibus e o cara me parou e disse: "Oi Carla, você continua sendo a número dois do Brasil?" É um pessoal que me respeita.




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