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Moradores de Pouso Alegre retomam rotina após enchentes

10/01/2000 | 22:18
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 Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Sob sol forte, os moradores das áreas atingidas pela enchente em Pouso Alegre, no Sul de Minas Gerais, tentam retomar a rotina quebrada pelas águas. A grande maioria passou os últimos dois dias lavando paredes, tirando lama e móveis estragados de dentro das casas. Algumas ruas do bairro Sao Geraldo, dos bairros mais afetados pela inundaçao, continuam alagadas. Segundo estimativas do Corpo de Bombeiros, havia na cidade cerca de dez mil desabrigados no fim de semana. Cinco mil moradores já se cadastraram na prefeitura para receber ajuda. Centenas deles estao em escolas, creches e igrejas.

Nas conversas, os assuntos sao os prejuízos da última semana e o que fazer para recomeçar. Alguns casos, como o da dona de casa Francisca Maria Josias, 58 anos, que teve a casa destruída, sao mais graves. Os moradores de Pouso Alegre contam os dramas vividos por eles mesmos ou por conhecidos.

O comerciante Antônio Claret de Carvalho foi uma das vítimas da enchente. Dono de uma mercearia, ele passou uma semana em cima da laje tomando conta dos negócios. Temia saques. "Foi sofrido, fiquei dias sem fazer a barba ou tomar banho e, depois de 30 anos sem chorar, chorei de desgosto", disse. Nesta segunda-feira, enquanto lavava garrafas e punha os freezers para secar do lado de fora da mercearia, ele lamentava também ter bebido cachaça durante a enchente. "Já fui alcoólatra e estava há dez anos sem beber, mas fiquei revoltado ao ver tudo debaixo da água e nao agüentei."

A doméstica Adriana Aparecida Rodrigues, 26 anos, era mais uma a lamentar a situaçao. Um corpo de cavalo foi trazido pelas águas para a frente da porta de sua cozinha. Quando a família voltou para casa no fim de semana, nao pôde entrar, pois o animal obstruía a passagem. "Além de perder tudo, ainda tenho de agüentar esse bicho cheio de moscas e com cheiro horrível", protestava. "Já estou pedindo há três dias para a Prefeitura retirá-lo, mas ninguém faz nada."

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Como Adriana, o industriário Jorge Celso Jordao, 47 anos, também queixava-se que tinha perdido tudo com a inundaçao. Conformado, fazia planos para recomeçar. "Vou ver se consigo dinheiro emprestado de parentes." Sua vizinha Isaura Cristina Chagas Ribeiro, 34 anos, tentava animar os conhecidos, afirmando que o pior já passou. "Deus dá, Deus tira", dizia a dona de casa. "É revoltante, chorei muito, nao tenho onde pôr a roupa dos meus filhos, mas o importante é estar vivo."

Para alguns a tragédia se agravou por falta de competência da administraçao municipal. "O que depende do povo foi feito, mas a Prefeitura está deixando a desejar: é preciso que eles tirem o lixo e desinfetem as ruas logo", dizia o comerciante José de Carvalho Mendes, 51 anos. Em dezembro, ele gastou R$ 7 mil para reformar sua casa e comprar móveis novos. Ao voltar depois da enchente, encontrou a pintura danificada, batentes das portas descascados, massa do teto solta. "O que nao está estragado, foi roubado; ainda nao tenho idéia de quanto vou gastar para refazer tudo, mas minha preocupaçao maior agora é voltar para casa e ao trabalho."

A assessoria de comunicaçao da Prefeitura de Pouso Alegre informou que, desde sábado, dez equipes de limpeza com 20 homens cada estao limpando a cidade. Outros 50 funcionários estao percorrendo os bairros de Santa Cecília, Faisqueira, Foch II, Jardins Olímpico e Yara, Parque Sao Camilo e Sao Geraldo para desinfetar as ruas. Neste último, o trabalho está mais lento, segundo a assessoria, pois ainda há ruas alagadas. Nos locais que servem como abrigo, as famílias recebem alimentaçao, roupas vindas de doaçoes e, quando necessário, assistência médica.

Abrigo - A ajudante de cozinha Juraci dos Santos Borges, 38 anos, era uma das cerca de 400 pessoas abrigadas hoje na Escola Estadual Vinícius Meyer. Ela estava visitando a mae em outra cidade no Réveillon e só soube que sua casa estava alagada quando voltou. "Perdi tudo e vim para cá, mas aqui também há problemas", diz. "Eles, por exemplo, separam as melhores roupas e os colchoes para quem é amigo." Por causa da enchente, o filho Gabriel, 10 anos, teve problemas de saúde. Nao foi o único.

Muitos moradores já estao se queixando de mal-estar, inchaços, picadas de mosquitos e problemas de pele. Alguns já receberam vacina antitetânica. A orientaçao é para que os que sofreram cortes ou beberam água da enchente procurem os postos médicos.

A prefeitura já avisou que a campanha de vacinaçao em massa deve começar só depois da limpeza das ruas, retirada de entulho e cadastramento das pessoas para o atendimento de emergência.

No sábado, agentes municipais começaram a visitar as áreas atingidas para verificar as necessidades das famílias. Professoras da rede pública foram chamadas para atuar como assistentes sociais. A extensao do auxílio, todavia, nao foi definida. "Pedimos o cadastramento para que posteriormente a Prefeitura dê a ajuda que for possível aos moradores", diz assessora de comunicaçao Ana Paula Ferreira Farago. " E isso vai depender de recursos dos governos estadual e federal, ainda nao anunciados."

Sobre as denúncias de que a prefeitura teria sido omissa quanto à questao das enchentes, a assessora disse que o prefeito Jair Siqueira (PPB) já havia explicado que as obras anti-enchente ainda nao estavam prontas. "A Prefeitura inaugurou a Avenida Dique 1, que serve como barragem do Rio Sapucaí Mirim, mas falta terminar a Avenida Dique Dois, que seguraria as águas do Rio Mandu."




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