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Poesia artesanal

Escritores de Santo André fomentam universo literário distribuindo poesia

Vinícius Castelli
28/01/2019 | 07:23
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Nario Barbosa/DGABC
Nario Barbosa/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Carinho e dedicação transbordam dos envelopes cujos remetentes são Jurema Barreto de Souza e Zhô Bertholini. Escritores e poetas de Santo André, eles dedicam boa parte de seus tempos para elaborar correspondências que levam algo que, para eles, é sagrado: poesias.

Tudo feito de forma artesanal. Para isso, contam com a ajuda da também andreense Luzia Maninha na assessoria visual dos zines – publicações impressas independentes e de pequena escala. Envelopes verdes, azuis e das mais diversas cores são postados para levar o trabalho de ambos. E quem recebe não paga. A sugestão, segundo Bertholini, é “resgatar a comunicação mais tátil e visual que há muito se perdeu e resistir à massificação da informação”.

O uso do correio para divulgação de conteúdos artísticos e poéticos não é novidade. Surgiu na metade do século passado. “Foi a grande sacada dos artistas para se comunicarem, o que causou uma grande agitação nacional e internacional, gerando a ‘arte postal’ ou ‘mail art’”, explica Bertholini.

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Ele, 65 anos, e Jurema, 61, estão na ativa no universo literário há muito tempo. Ela começou a escrever poemas aos 13, no jornalzinho da escola e nos concursos de poesia. Na faculdade, conheceu publicações alternativas e criou A Cigarra, para veicular seus poemas e de outras pessoas. Bertholini começou a escrever aos 15. Ele conta que o universo de publicações alternativas, “que surgiu no início dos anos 1970 para burlar a censura da época”, o instigou a continuar produzindo de forma independente.

Jurema e Bertholini se conheceram em 1993, na Livraria Alpharrabio, em Santo André. “Compartilhando ideias e desejos acabamos nos reunindo em torno da A Cigarra, que evoluiu para revista literária e chegou aos 42 números, 25 anos de publicação, de forma independente”, explica ela.

Em 2003, ainda editando A Cigarra, sentiram necessidade de criar uma publicação para o Dia Nacional da Poesia (14 de março). Aí que veio o Zine Zero e, mais tarde, o Frenezine, produções repletas de poesia. “Também fazemos plaquetes individuais, postais”, diz ele.

Segundo o escritor, a periodicidade das publicações também é independente, mas fazem isso com frequência. Os textos são individuais e geralmente inéditos. Vez ou outra colocam material de outros poetas. Vale ressaltar que eles sempre se preocupam em usar linguagem que dialogue com nossos tempos. “Nos surpreendemos com uma nova geração que está retomando o trabalho artesanal com zines, livros, quadrinhos e boa qualidade de escrita”, diz Jurema.

E além das poesias, eles fomentam outras linguagens. “Sempre agregamos desenhos, fotos e outras artes”, explica a poetisa. O cuidado é tanto que os envelopes, destinados ao círculo de leitores dos artistas, são enviados com carimbos avisando que ali há poesia. “Fazemos um trabalho com dedicação sabendo da importância dos detalhes, tanto artísticos quanto visuais. Os carimbos são parte de uma autenticidade das nossas propostas”, explica Bertholini.

Jurema conta que eles nem sempre sabem do que tratar nos textos até que ela (poesia) esteja escrita. “Segue-se o trabalho com a palavra, os sentidos e seus labirintos”. “A poesia muitas vezes fala mais alto do que nossas vontades ou intenções. Ela tem vida própria”, reforça Bertholini.

A escritora acredita ser bom trabalhar na contramão e enviar arte nos envelopes, ainda mais em tempos em que muito é feito de forma digital. “A carta é uma publicação artesanal, cria intimidade entre autor e leitor, diferentemente da correspondência em massa”, afirma.

Ela acredita que fazer dessa forma reforça o diálogo, porque, além de um poema, enviam uma ideia. “Sempre acreditamos que pequenas ações, em termos de arte, resultam na retomada da convivência e afinidades”, reforça ele.

Além de enviar pelo correio, eles costumam distribuir suas publicações a pessoas do cotidiano, em encontros de fanzines, saraus de poesias e feiras de livros.

“A poesia tornou-se nosso projeto de vida. Observar o mundo e transformar as descobertas em arte e criar parcerias, amizades, criatividades têm um valor inestimável”, encerra Jurema. Quem quiser receber as poesias deve enviar o endereço físico para o e-mail [email protected] ou revistacigarra@gmail. 




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