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Gente do semáforo


Rodolfo de Souza

30/08/2018 | 07:00


 O menino do semáforo chega para lavar o para-brisa. Nem insiste mais diante da negativa. Vai logo pedindo aquelas moedas, estrategicamente guardadas no console, para estas ocasiões.

O velho do semáforo vende balas e quinquilharias. Seu olhar desalentador revela toda a miséria a que está mergulhada uma gente pobre, ou empobrecida, que habita uma rica nação.

O homem do semáforo vende panos alvejados. Quem sabe alguém naquele trânsito caótico esteja necessitando...? Talvez nem aborde o dono do carro de luxo, que não parece pertencer à categoria de pessoas que compram panos alvejados.

A mulher do semáforo oferece propagandas que enaltecem beleza e conforto dos apartamentos em construção: ótima oportunidade, local nobre, perto de tudo, com mensalidades que cabem no seu bolso, não no dela que limita-se a distribuir o folheto sem olhar para ele, cheia de medo do seu brilho que pode cegá-la.

O rapaz do semáforo não vende nem distribui nada, só pede.

Tudo é dificuldade no dia a dia do semáforo. Até uma jovem, curiosamente, pede dinheiro para ajudar no casamento. Mais fácil do que isso, é não casar – sugiro à moça que me fulmina com olhar incrédulo e indignado.

Um judoca também se aproveita do sinal fechado para pedir auxílio. Segundo ele, a associação, que certamente não é japonesa, necessita de grana para disputar o campeonato em lugar distante.

E, tal qual a população carente das esquinas, um adolescente se utiliza do sinal fechado para pedir um trocado que muito ajudará na formatura. Pedinte intelectual, era só o que faltava! Noiva dura, judoca pobre, formando morto de fome... Qualquer dia destes, toparemos com político maltrapilho pedindo dinheiro para a campanha (desculpe, amigo leitor, acho que exagerei na dose).

Mas a molecada do semáforo se esmera no malabarismo, na ginástica, nas piruetas com monociclos. Alguns vestidos de palhaço, outros só maquiados, todos exagerados na simpatia, todos necessitados de um trocado para forrar o bucho.

E os vendedores do semáforo, coitados, colocam seus doces nos retrovisores, na expectativa de que um motorista solidário meta a mão no bolso e compre o seu produto. E correm, e se perdem por entre os carros, e veem, com tristeza, a mercadoria voltar para a caixa.

Já os que pedem nos sinais têm perfis diferentes entre si. Alguns contam histórias tristes de mães doentes; outros, de filhos famintos; tem aqueles que só querem uma ajuda para comprar o gás, o remédio, ou para pegar a condução; não é raro se deparar ainda com o tipo que aborda alguém com uma conversa longa que sempre começa com a revelação de que não se trata de um assalto; tem o portador do HIV; o que só gesticula com a mão, com a intenção de comover o outro que deve perceber a presença da fome no seu olhar...

São muitos, pois, os semáforos das cidades, assim como muitos são os que se sugeitam ao trabalho informal ou à esmola. Estão cegos aqueles que não veem a ultrajante desigualdade social deste país de carros e necessitados.

Claro que na diversidade surge sempre o pitoresco para ilustrar uma crônica. Dia destes topei com um indivíduo que pediu um dinheirinho para comprar uma pinga. Olhei com olhar surpreso e indagador, ao que este disparou determinado: “não venho com conversa fiada não, seu moço. Vou logo dizendo que necessito de um auxílio para comprar uma cachacinha. Me sinto bem melhor assim, falando a verdade, sem embromação”.

Certo, parceiro! Tome aqui um trocado pela sua honestidade, objeto raro em qualquer segmento desta nossa sociedade de contrastes.

Ele não entendeu, mas aceitou.



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