Fechar
Publicidade

Quarta-Feira, 25 de Novembro

|

Max º Min º
Clima da Região Trânsito Assine Clube do Assinante Diário Virtual Login

Política

politica@dgabc.com.br | 4435-8391

Por que mataram Carlão Arruda?

Heloisa Balarini 13/3/97 Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Execução do prefeito de Rio Grande faz 20 anos sem que motivos do crime tenham sido totalmente esclarecidos


Júnior Carvalho
Do Diário do Grande ABC

31/03/2018 | 07:00


Duas décadas depois da morte do prefeito de Rio Grande da Serra José Carlos Arruda, o Carlão (que pertencia ao PRP), completadas hoje, ainda pairam dúvidas sobre o que motivou o sequestro e execução do político, então com 57 anos, com cinco tiros.

Passado todo esse período, o caso registrado em março de 1998 permanece sem desfecho. Na época do crime, Rio Grande da Serra tinha 34 anos de emancipação de Ribeirão Pires e apenas um que havia lamentado a morte súbita do então prefeito Cido Franco (PTB), que sofreu infarto. Vereador por dois mandatos, Carlão tinha sido eleito vice na chapa do petebista, em 1996, e herdou o governo depois do ocorrido. De lá para cá, Rio Grande passou pelas mãos de seis prefeitos e chocou-se com a morte trágica de outro governante: Danilo Franco (PTB), após acidente de carro, em 2001.

Ao longo das investigações sobre o assassinato de Carlão, várias frentes foram cogitadas. O estado em que o corpo do prefeito foi encontrado, com hematomas e ferimentos na cabeça, levavam as autoridades a concluírem que os criminosos foram motivados por ódio.

Algumas decisões políticas tomadas por Carlão à frente do governo também abriram o leque de suspeitas. Então recém-empossado chefe do Executivo, Arruda descredenciou duas empresas de ônibus do município porque as concessionárias operavam com veículos com chassis adulterados e carros roubados. Proprietários dessas companhias entraram na mira dos investigadores, mas essa hipótese não avançou. Outra possível explicação era a demissão de vários comissionados da administração. “Dois ex-funcionários da Prefeitura que comentaram desejar ver o prefeito sequestrado e morto foram particularmente investigados. Os álibis que apresentaram foram verificados e aparentemente ambos são inocentes”, relatou o repórter do Diário, Delmar Marques, em abril de 1998.

SEQUESTRO
O prefeito de Rio Grande foi sequestrado por volta das 20h do dia 30 de março de 1998, uma segunda-feira. Dos poucos detalhes que se tem, sabe-se que Carlão havia acabado de chegar em sua casa e foi pego na garagem da residência. “Sua mulher, Marlene Sanches Arruda, encontrou na segunda à noite a porta da garagem entreaberta e o controle remoto no chão”, diz matéria do Diário, do dia 2 de abril de 1998, assinada pelos repórteres Gislayne Jacinto e Marcelo Mazuras. O imóvel onde a família do prefeito morava era monitorado por câmeras, mas o circuito interno não gravou o momento do sequestro de Carlão.

O corpo do prefeito foi encontrado no dia 31, pela manhã, em um barranco próximo à estrada do Sertãozinho, em Suzano, a cerca de 25 quilômetros de sua casa. Alguns de seus pertences estavam com ele, como pulseiras de ouro, celular e um relógio. Documentos de Carlão foram levados. O carro do prefeito, um Chevrolet Kadett, foi incendiado e estava a cerca de 300 metros de onde o corpo foi encontrado. Carlão foi sepultado no dia 1º de abril. “Naquele dia, a gente telefonava para os parentes para comunicar a morte do meu pai e eles achavam que era uma brincadeira, por causa do dia da mentira. Isso me marcou”, relembra Helenice Arruda, filha mais velha de Carlão e atual secretária de Educação de Rio Grande da Serra. Na época do crime, ela gerenciava a mesma Pasta no governo do pai.

PROCESSO
Seis pessoas foram formalmente acusadas pela morte de Carlão. Três vereadores da cidade na época foram apontados como mandantes do crime: Valdir Mitterstein, o Gaúcho; Ramón Velasquez (PT) e Expedito Oliveira (PSDB, presidente da Câmara na ocasião e que assumiu a Prefeitura interinamente com a morte do prefeito). Gaúcho foi condenado a 14 anos de prisão, mas cumpriu apenas metade da pena. Nas eleições de 2016, tentou voltar para a política ao projetar candidatura a vereador, pelo PTC. Teve o projeto impugnado pela Justiça Eleitoral, que o considerou ficha suja justamente por ter sido condenado no caso Carlão. Velasquez, genro de Gaúcho e que viria a ser prefeito tempos depois do episódio, teve o processo arquivado por falta de provas. Expedito foi absolvido.

Outros três foram condenados, sendo dois considerados executores do crime: José Zito Jacinto da Silva (18 anos) e Reinaldo Dionísio, o Pilica (12 anos). Os dois estão em liberdade. Pilica é pastor em Rio Grande da Serra. Considerado intermediador do assassinato, Ademir Miranda de Almeida, o Brinquinho, foi solto em 2010 após cinco anos na prisão.

‘Ainda não sabemos a verdadeira história’

Helenice Arruda (sem partido), filha mais velha do prefeito José Carlos Arruda, o Carlão, afirmou ao Diário que, mesmo após 20 anos, a família nunca ficou sabendo exatamente sobre o que motivou a execução do político.

“Por incrível que pareça, passaram-se duas décadas e a gente vê que a Justiça do nosso País é bem complicada. Na verdade, ainda não sabemos exatamente a verdadeira história. As investigações não foram claras para nós. Até hoje ninguém sabe de nada”, lamenta Helenice, que atualmente é secretária do governo do prefeito Gabriel Maranhão (PSDB).

Apesar das críticas às conclusões sobre o assassinato do pai, Helenice prefere lembrar da memória do prefeito. Ex-juiz de Ribeirão Pires, Carlão realizou casamentos durante 16 anos, função que lhe rendeu o apelido de Carlão Casamenteiro. “A lição que ele deixou foi de humildade e respeito. Quando sumiu, havia chegado em casa, mas percebemos que ele não tinha entrado e a garagem estava aberta. A nossa primeira reação foi a de pensar que ele havia ido buscar gás ou levar alguma criança, porque era isso que ele fazia. Era muito fácil pegar meu pai, porque ele tinha um ritual (depois que deixava a Prefeitura). (Antes de ir para casa) Passava na casa do norte e ficava conversando com os amigos”, relembra.

Na época do crime, Helenice chegou a sacramentar o afastamento da família da política. Passadas duas décadas e após ter sido vice-prefeita por dois mandatos, entre 2005 e 2012, Helenice é um dos nomes cotados para a sucessão de Maranhão, em 2020. “Se for da vontade de Deus... Mas fico muito feliz, pois aonde eu passo as pessoas que conheceram meu pai só têm a agradecer.”

Atual prefeito de Rio Grande, Maranhão relembrou a morte de Carlão e criticou a violência contra políticos no País. “Meu pai sempre me dizia que política é ter argumentos. Vence na vida quem tem bons argumentos. Essa é a maior ferramenta. Por isso, olho com tristeza quando chegamos a esse extermínio.” 



Comentários

Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.

Por que mataram Carlão Arruda?

Execução do prefeito de Rio Grande faz 20 anos sem que motivos do crime tenham sido totalmente esclarecidos

Júnior Carvalho
Do Diário do Grande ABC

31/03/2018 | 07:00


Duas décadas depois da morte do prefeito de Rio Grande da Serra José Carlos Arruda, o Carlão (que pertencia ao PRP), completadas hoje, ainda pairam dúvidas sobre o que motivou o sequestro e execução do político, então com 57 anos, com cinco tiros.

Passado todo esse período, o caso registrado em março de 1998 permanece sem desfecho. Na época do crime, Rio Grande da Serra tinha 34 anos de emancipação de Ribeirão Pires e apenas um que havia lamentado a morte súbita do então prefeito Cido Franco (PTB), que sofreu infarto. Vereador por dois mandatos, Carlão tinha sido eleito vice na chapa do petebista, em 1996, e herdou o governo depois do ocorrido. De lá para cá, Rio Grande passou pelas mãos de seis prefeitos e chocou-se com a morte trágica de outro governante: Danilo Franco (PTB), após acidente de carro, em 2001.

Ao longo das investigações sobre o assassinato de Carlão, várias frentes foram cogitadas. O estado em que o corpo do prefeito foi encontrado, com hematomas e ferimentos na cabeça, levavam as autoridades a concluírem que os criminosos foram motivados por ódio.

Algumas decisões políticas tomadas por Carlão à frente do governo também abriram o leque de suspeitas. Então recém-empossado chefe do Executivo, Arruda descredenciou duas empresas de ônibus do município porque as concessionárias operavam com veículos com chassis adulterados e carros roubados. Proprietários dessas companhias entraram na mira dos investigadores, mas essa hipótese não avançou. Outra possível explicação era a demissão de vários comissionados da administração. “Dois ex-funcionários da Prefeitura que comentaram desejar ver o prefeito sequestrado e morto foram particularmente investigados. Os álibis que apresentaram foram verificados e aparentemente ambos são inocentes”, relatou o repórter do Diário, Delmar Marques, em abril de 1998.

SEQUESTRO
O prefeito de Rio Grande foi sequestrado por volta das 20h do dia 30 de março de 1998, uma segunda-feira. Dos poucos detalhes que se tem, sabe-se que Carlão havia acabado de chegar em sua casa e foi pego na garagem da residência. “Sua mulher, Marlene Sanches Arruda, encontrou na segunda à noite a porta da garagem entreaberta e o controle remoto no chão”, diz matéria do Diário, do dia 2 de abril de 1998, assinada pelos repórteres Gislayne Jacinto e Marcelo Mazuras. O imóvel onde a família do prefeito morava era monitorado por câmeras, mas o circuito interno não gravou o momento do sequestro de Carlão.

O corpo do prefeito foi encontrado no dia 31, pela manhã, em um barranco próximo à estrada do Sertãozinho, em Suzano, a cerca de 25 quilômetros de sua casa. Alguns de seus pertences estavam com ele, como pulseiras de ouro, celular e um relógio. Documentos de Carlão foram levados. O carro do prefeito, um Chevrolet Kadett, foi incendiado e estava a cerca de 300 metros de onde o corpo foi encontrado. Carlão foi sepultado no dia 1º de abril. “Naquele dia, a gente telefonava para os parentes para comunicar a morte do meu pai e eles achavam que era uma brincadeira, por causa do dia da mentira. Isso me marcou”, relembra Helenice Arruda, filha mais velha de Carlão e atual secretária de Educação de Rio Grande da Serra. Na época do crime, ela gerenciava a mesma Pasta no governo do pai.

PROCESSO
Seis pessoas foram formalmente acusadas pela morte de Carlão. Três vereadores da cidade na época foram apontados como mandantes do crime: Valdir Mitterstein, o Gaúcho; Ramón Velasquez (PT) e Expedito Oliveira (PSDB, presidente da Câmara na ocasião e que assumiu a Prefeitura interinamente com a morte do prefeito). Gaúcho foi condenado a 14 anos de prisão, mas cumpriu apenas metade da pena. Nas eleições de 2016, tentou voltar para a política ao projetar candidatura a vereador, pelo PTC. Teve o projeto impugnado pela Justiça Eleitoral, que o considerou ficha suja justamente por ter sido condenado no caso Carlão. Velasquez, genro de Gaúcho e que viria a ser prefeito tempos depois do episódio, teve o processo arquivado por falta de provas. Expedito foi absolvido.

Outros três foram condenados, sendo dois considerados executores do crime: José Zito Jacinto da Silva (18 anos) e Reinaldo Dionísio, o Pilica (12 anos). Os dois estão em liberdade. Pilica é pastor em Rio Grande da Serra. Considerado intermediador do assassinato, Ademir Miranda de Almeida, o Brinquinho, foi solto em 2010 após cinco anos na prisão.

‘Ainda não sabemos a verdadeira história’

Helenice Arruda (sem partido), filha mais velha do prefeito José Carlos Arruda, o Carlão, afirmou ao Diário que, mesmo após 20 anos, a família nunca ficou sabendo exatamente sobre o que motivou a execução do político.

“Por incrível que pareça, passaram-se duas décadas e a gente vê que a Justiça do nosso País é bem complicada. Na verdade, ainda não sabemos exatamente a verdadeira história. As investigações não foram claras para nós. Até hoje ninguém sabe de nada”, lamenta Helenice, que atualmente é secretária do governo do prefeito Gabriel Maranhão (PSDB).

Apesar das críticas às conclusões sobre o assassinato do pai, Helenice prefere lembrar da memória do prefeito. Ex-juiz de Ribeirão Pires, Carlão realizou casamentos durante 16 anos, função que lhe rendeu o apelido de Carlão Casamenteiro. “A lição que ele deixou foi de humildade e respeito. Quando sumiu, havia chegado em casa, mas percebemos que ele não tinha entrado e a garagem estava aberta. A nossa primeira reação foi a de pensar que ele havia ido buscar gás ou levar alguma criança, porque era isso que ele fazia. Era muito fácil pegar meu pai, porque ele tinha um ritual (depois que deixava a Prefeitura). (Antes de ir para casa) Passava na casa do norte e ficava conversando com os amigos”, relembra.

Na época do crime, Helenice chegou a sacramentar o afastamento da família da política. Passadas duas décadas e após ter sido vice-prefeita por dois mandatos, entre 2005 e 2012, Helenice é um dos nomes cotados para a sucessão de Maranhão, em 2020. “Se for da vontade de Deus... Mas fico muito feliz, pois aonde eu passo as pessoas que conheceram meu pai só têm a agradecer.”

Atual prefeito de Rio Grande, Maranhão relembrou a morte de Carlão e criticou a violência contra políticos no País. “Meu pai sempre me dizia que política é ter argumentos. Vence na vida quem tem bons argumentos. Essa é a maior ferramenta. Por isso, olho com tristeza quando chegamos a esse extermínio.” 

Ao acessar você concorda com a nossa Política de Privacidade.


Para continuar, faça o seu login:


  • Aceito receber novidades e ofertas do Diário do Grande ABC e parceiros por
    correio eletrônico, mala direta, SMS ou outros meios de comunicação.


Ou acesse todo o conteúdo de forma ilimitada:

Veja como ter acesso a todo o conteúdo de forma ilimitada:

Copyright © 1995-2017 - Todos direitos reservados

;