André Henriques/DGABC

"Aqui não tem censura. Pode perguntar tudo." Com bom-humor, o deputado federal Paulo Maluf (PP) preparou o terreno para a entrevista exclusiva concedida ao Diário. Em visita ao jornal, um dos políticos mais emblemáticos do País (participou, segundo o próprio, de 20 eleições) lançou um desafio: "É difícil encontrar um político do País que tenha a ficha mais limpa do que a minha."
O polêmico projeto Ficha Limpa, que foi aprovado pela Câmara dos Deputados e que agora tramita no Senado, não causa temor no progressista, acusado por alguns por encabeçar a política do ‘rouba, mas faz'. "São 43 anos de vida pública e nenhuma condenação penal", defende-se.
O progressista considera que a condenação que sofreu em segunda instância pela suposta compra superfaturada de frangos para a merenda escolar das escolas municipais de São Paulo não o impediria de pleitear cargos públicos eletivos, mesmo com o Ficha Limpa em vigor.
Ao longo dos questionamentos, Maluf, de 78 anos, cobra a patente do Rodoanel Mário Covas, mostra que pende a apoiar José Serra (PSDB) à Presidência, diz que o malufismo é "um estado de espírito", fala sobre seu relacionamento com a ex-prefeita de São Paulo e pré-candidata ao Senado Marta Suplicy (PT), e garante que seria melhor que os últimos cinco presidentes da República no comando do Brasil.
DIÁRIO - Na opinião do senhor, qual é a representatividade do Grande ABC na economia nacional?
PAULO MALUF - Sinto-me orgulhoso ao ver o que aconteceu aqui. Aqui o padrão de vida médio é 100% superior ao do resto do Brasil, apesar de alguns governadores permitirem que galpões tivessem ficados vazios, sem máquina e sem trabalhador. Apesar da falta de apoio desses governantes para impedir que indústrias fossem para outros estados, a região foi tão competente que hoje é forja de progresso nacional.
DIÁRIO - O sr. é reconhecidamente um tocador de obras. Qual a sua análise sobre o Rodoanel? Faria do mesmo jeito? O que mudaria?
MALUF - Sou favorável. Aliás, o projeto inicial do Rodoanel é meu. Era a chamada Beltway. Eu que consegui os primeiros empréstimos. Só lastimo que tenha sido inaugurado em 2010. Se o Maluf estivesse lá teria sido inaugurado em 1998.
DIÁRIO - A Câmara Federal aprovou recentemente o projeto Ficha Limpa, que veta a candidatura de condenados em decisão colegiada (exclui decisões em primeira instância). O sr. teme o projeto. Qual foi o seu voto?
MALUF - Votei a favor do Ficha Limpa. Tenho 43 anos de vida pública, sem uma condenação penal. É difícil encontrar um político no País que tenha a ficha mais limpa do que Paulo Maluf.
DIÁRIO - Mas o Ficha Limpa impossibilitaria a sua candidatura a deputado federal - Maluf tem ao menos quatro condenações judiciais decididas por órgão colegiado, entre elas a por suposto envolvimento no superfaturamento na compra de frango para merenda escolar quando era prefeito de São Paulo. O Tribunal de Justiça de São Paulo (segunda instância) condenou o progressista no caso conhecido como ‘frangogate'.
MALUF - A este processo cabe recurso, portanto, não fui condenado. Quem compra a merenda escolar não é o prefeito, é a prefeitura, através de secretaria. Portanto, não estou condenado. Reitero: a ficha mais limpa é a minha.
DIÁRIO - O Ficha Limpa é um projeto de iniciativa popular que visa a moralidade da política nacional. Porque tantos senões? O que os políticos temem?
MALUF - Tantas assinaturas (1,6 milhão) têm mais legitimidade do que o voto de um deputado. Mas há projetos que demoram 10 ou 15 anos para serem votados. Hoje quem legisla não é o legislador, nem o povo. É o governo através de medidas provisórias. Tudo é medida provisória, o que acaba trancando a pauta do Congresso.
DIÁRIO - E o reajuste dos aposentados, de 7,7% (o aumento foi aprovado na Câmara, mas o governo sinaliza para a sua rejeição)?
MALUF - Eu aprovei, mas este governo do PT dá dinheiro para a Grécia (R$ 286 milhões) e não quer dar dinheiro para o aposentado. O governo Lula fala em economizar R$ 10 bilhões e há dez dias aumentou os juros de 8,75 para 9,5%, o que representa R$ 12 bilhões. O mesmo governo que deu R$ 12 bilhões para banqueiros não quer dar pouco mais de R$ 1 bilhão ao aposentado.
DIÁRIO - Como estaria o Brasil se tivesse assumido a Presidência, como quis nos anos 1980?
MALUF - Não quero desmerecer os outros que assumiram, mas vou te dar os fatos. Perdi em 1985, quando o Brasil era economicamente maior que a China. Logo depois veio a inflação descontrolada. Não teria feito estas agressões ao bolso do brasileiro. E não teria deixado o País com 80% de inflação ao mês, como o ex-presidente José Sarney. Essa indecência aritmética eu não teria cometido. Sei que dois e dois são quatro. Portanto, teria sido melhor que os outros, com todo o respeito.
DIÁRIO - E nas eleições de outubro, quem apoiará para presidente da República? Em quem votará?
MALUF - Se o partido decidir que vai para um lado eu vou. Se decidir que não apoiará candidato, não apoiarei.
DIÁRIO - O PP tem representatividade junto ao governo Lula (o ministro das Cidades, Márcio Fortes, é vice-presidente nacional do partido). Esta condição interferiria na escolha do partido pró-Dilma Rousseff (PT)?
MALUF - Não, porque o governo Lula não pode ter um ponto de reclamação de Paulo Maluf. Tudo aquilo que era de bom eu votei porque estou na base do Brasil, não na base do governo. Votei contra a CPMF e contra dar R$ 20 milhões a favelados da Bolívia. Tem favelado em São Paulo e no Rio de Janeiro, não vou dar dinheiro para boliviano. A Dilma é candidata do Lula, não nossa.
DIÁRIO - Está sendo cogitada a hipótese do senador Francisco Dornelles (presidente nacional do PP) ser candidato a vice-presidente na chapa encabeçada por José Serra (PSDB).
MALUF - Desconheço porque é problema do Serra. Agora, se Dornelles for com Serra, acho que vou junto.
DIÁRIO - O sr. registrou nos últimos anos grande queda no potencial de voto em eleições majoritárias. Acredita que isso se deve ao apoio irrestrito ao ex-prefeito Celso Pitta (na ocasião, Maluf disse: "Votem no Pitta. E se ele não for um bom prefeito, nunca mais votem em mim.")?
MALUF - Isso foi em 1996. Naquela época São Paulo deu um exemplo maravilhoso, elegeu um prefeito negro. Dez anos depois fui o deputado federal (eleições proporcionais) mais votado do Brasil. Fui votado em todas as cidades de São Paulo.
DIÁRIO - Qual a relação do sr. hoje com a ex-prefeita Marta Suplicy (PT)?
MALUF - Qual das relações (risos)? Não tenho relação com ela. Sou homem de construção. Ela foi a única prefeita de uma grande cidade que perdeu a reeleição. Teve o Lula três vezes no palanque e não foi eleita. Eu graças a Deus estou muito bem, sou reconhecido. Por onde ando todo mundo reconhece as obras que fiz. Não se anda um quilômetro no Grande ABC sem encontrar uma obra minha.
DIÁRIO - O malufismo ainda existe?
MALUF - O malufismo é um estado de espírito, e vai sempre existir. O Juscelino Kubitscheck existiu, o Adhemar de Barros existiu, o Jânio Quadros existiu. Todos deixaram suas marcas. A minha será a do progresso. Fui processado porque disse que tinha petróleo na Bacia de Santos, na Bacia do Paraná. E a Petrobras descobre o segundo maior poço de petróleo aqui. Tive dois anos para perfurar e não me deram o mérito. Petrobras está aí desde 1953. E não tornou o Brasil auto-suficiente. Se fosse presidente, não tenha dúvidas que o Brasil faria parte da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo).
DIÁRIO - Em março o sr. entrou para a lista de procurados pela Interpol e, por isso, não pode desembarcar em 181 países que são integrantes do órgão. Está acatando esta condição?
MALUF - Estou processando os promotores americanos. Eles não têm o direito de invadir aqui. Se quiser que eu deponha, será por carta rogatória. Os Estados Unidos invadiram o Iraque e Afeganistão, mas comigo aqui não vão invadir. Querem me ouvir? Perfeitamente. Por carta rogatória. Não vão me levar até lá.
DIÁRIO - O sr. vê potencial de vitória na candidatura de Celso Russomanno (PP) ao governo do Estado?
MALUF - Posso escrever um livro sobre as eleições perdidas que ganhei e eleições ganhas que perdi. Há cinco meses da eleição não há previsão nenhuma. Se falar que o Juscelino Kubitscheck é candidato ele vai ter 7%; o Getúlio Vargas terá 8%. Estou certo de que Celso irá para o segundo turno e ganhará a eleição porque ele é a única coisa nova que apareceu na política de São Paulo nos últimos anos.
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