Furacão capaz de levantar mais perguntas do que respostas. O diretor, ator, jornalista, apresentador e escritor Glauber Rocha (1939-1981) marcou época por ideias que vão muito além dos celebrados filmes pelos quais é conhecido do grande público. Amanhã se completa 30 anos de sua morte, aos 42. As décadas que se passaram serviram para que o mito em torno da figura de Glauber se modificasse para as gerações seguintes a ponto de ser tarefa complicada definir o que e quem ele foi.
As ideias ligadas à estética cinematográfica e à reflexão política continuam a gerar polêmica. Ainda hoje, as maneiras de se mostrar o Brasil nas telas e de se falar sobre os problemas sociais do País - questões berradas pelo cineasta - parecem não satisfazer a ninguém.
"Uma de suas características como cineasta foi a de ser político. Ele teve intervenção muito grande na cena cultural brasileira desde os anos 1960 até sua morte", explica a professora do curso de Comunicação da UFRJ, Ivana Bentes, responsável por organizar correspondências do diretor no livro Glauber Rocha - Cartas ao Mundo. A base para a obra foi sua tese de doutorado. "Foi um personagem múltiplo e um ativista e pensador singular."
Parte de seu impacto se reflete no nascimento da corrente conhecida como Cinema Novo, que buscava uma produção audiovisual o mais realista possível e que teve Glauber como estrela maior. É nesse movimento que surge o conceito de ‘uma câmera na mão e uma ideia na cabeça'. Pérolas do autor, casos de Deus e o Diabo na Terra do Sol (1963), Terra em Transe (1967) e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1968), são reverenciadas em todo o mundo, inclusive por nomes como Martin Scorsese, Jean-Luc Godard e Orson Welles.
Segundo André Gatti, professor de História do Cinema Brasileiro da Faap, a época foi propícia para que o atual mito despontasse. "Glauber foi fundamental no processo de repensar o Brasil no momento em que o País estava sendo analisado por todos os segmentos culturais. Apesar de já contarmos com grandes nomes na área, seu trabalho reinventa todo o cinema brasileiro", diz.
A postura firme e crítica também é lembrada nos textos que produziu. O mais famoso de seus manifestos é Eztetyka da Fome, de 1965. As conclusões elaboradas abordam os conflitos socio-culturais presentes na América Latina da época e o autor tenta analisar como e por que o latino se entende naquela então situação de fome. De acordo com o texto, "nossa originalidade é nossa fome e nossa maior miséria é que esta fome, sendo sentida, não é compreendida."
Apesar de todo respeito à obra de Glauber, a aceitação de suas ideias está longe da unanimidade. "Os contemporâneos são menos generosos em relação aos pensamentos ambiciosos do Glauber. Ele sempre teve pretensões de intervir na política e na cultura de maneira radical e anárquica. Essa postura incomodou e continua a incomodar", afirma Ivana Bentes, que ressalta todo o folclore de ‘exagerado', ‘louco' e ‘paranoico' que é relacionado ao artista até hoje.
Foram precisos quase 30 anos para que se realizasse um dos maiores sonhos do cineasta: por meio da Cinemateca Brasileira, o governo adquiriu no fim do ano passado grande parte de seu acervo, que estava guardado no espaço cultural carioca Tempo Glauber, mantido pela família. O potencial criativo do maior cineasta brasileiro foi interrompido de maneira precoce e, concordam os especialista, ninguém parece seguir com o legado cultural, político e social glauberiano.
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