O próprio nome do disco já dá uma pista das intençoes de Zeca com esse novo álbum, que, como ele mesmo define, "é um baú cheio de retratos afetivos e musicais". Além de se referir à embolada, ritmo presente na empolgante cançao-título, 'Vô imbolá' também foi a maneira encontrada pelo cantor para definir a mistura de ritmos - muito bem resolvida, diga-se - presente no CD.
Mais maduro do que 'Por onde andará Stephen Fry?', sua estréia em disco, 'Vô imbolá' impressiona pela variedade de informaçoes sonoras e pela facilidade e competência com que Zeca transita entre elas. Samba, rap, guitarras e baladas convivem em harmonia, na rede tecida pelo cantor. Quanto aos samples e outros recursos eletrônicos, sao usados de forma certeira, e aparecem integrados quase que organicamente aos elementos da música nordestina e aos demais componentes dos arranjos.
No caldeirao de Zeca, segundo ele mesmo afirma, "tem tempero de muita gente". Adepto das participaçoes especiais, além dos produtores Mazolla e Celso Fonseca, o compositor contou com as presenças de Zeca Pagodinho, Faces do Subúrbio, Zé Ramalho e o grupo Bumba-meu-boi da cidade de Axixá em seu disco. "A música é um exercício de liberdade. Sou chato com os detalhes, mas, durante o processo de gravaçao, estou aberto às possibilidades e ao acaso", diz.
A cançao gravada com Pagodinho, 'Samba do approach', foi escolhida para iniciar a divulgaçao do disco. A música é uma crítica bem-humorada à invasao do idioma inglês no cotidiano dos brasileiros, embalada no balanço do partido-alto. Ramalho junta-se ao compositor no repente 'Bienal', outra letra irônica, desta vez sobre as figuras clichês do pseudo-intelectual (a música foi inspirada no tema desmaterializaçao da arte, da Bienal de 1996).
O potencial dançante de cançoes como Nêga tu dá no couro, Pagode russo (de Luiz Gonzaga) e Semba é mantido, embora modificado em seu formato, por meio do uso da eletrônica como instrumento. Do forró ao trance, do chao de terra batida às pistas clubbers.
Piercing, uma das cançoes preferidas pelo cantor em Vô imbolá, traz uma outra crítica à modernidade, lembrando que a prática, originalmente usada para fins de elevaçao espiritual, foi banalizada como símbolo de uma modernidade artificial. Os ritmos da vez sao o rap e o hip-hop, com participaçao dos rappers recifenses do Faces do Subúrbio.
As baladas (para os fas da belíssima Bandeira, do disco anterior) também nao decepcionam. Nao tenho tempo e Tem que acontecer certamente vao agradar aos fas mais românticos do cantor. Destaque também para Boi de haxixe, parceria de Zeca com seus conterrâneos do grupo folclórico Boi de Axixá.
A tao falada síndrome do segundo disco parece ter passado bem longe do músico, e a MPB envenenada e turbinada de Vô imbolá vem embalada na segurança de um artista com mais de dez anos de carreira e boas referências - muitas delas, devidamente homenageadas em dedicatórias no início de cada cançao, no encarte. Compre (Polygram, R$ 18) e descubra.
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