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Morreu aos 88 anos a atriz Sônia Oiticica, segunda-feira, às 15h, no Hospital Regional Sul, em São Paulo, onde estava internada desde o dia 16 por causa de uma fratura no fêmur, provocada por uma queda em sua casa. Uma infecção causou falência múltipla dos órgãos. O corpo foi liberado ao meio-dia e a cerimônia de cremação estava marcada para quarta-feira, às 15h, em Vila Alpina.

A ousadia marcou a carreira dessa atriz que enfrentou vaias do público ao encarnar personagens de Nelson Rodrigues – oito delas em sua carreira. Ao interpretar seu primeiro papel, a Julieta da tragédia de Shakespeare, fez questão de beijar de verdade, na boca, o ator que fazia Romeu, um escândalo para a época. Apesar disso, para muitos, ao ousar ela nada mais fez do que jus ao seu nome de família.

Sônia era filha do professor José Oiticica, anarquista convicto, que por isso amargou várias prisões. Numa delas, ele e a família saíram do Rio para ficar detidos no Engenho Riachão, em Alagoas. Ali nasceu Sônia, no dia 19 de dezembro de 1918, sexta filha de José e Francisca que tiveram sete filhas e um filho.

Alguns meses depois a família voltou ao Rio, onde ela passou sua infância e adolescência. Sua casa era freqüentada por nomes como Coelho Neto, Viriato Corrêa e Monteiro Lobato. Seu pai dava aulas de grego e, entre seus alunos, estavam Antônio Houaiss e Antônio de Pádua. Esse último apresentou Sônia ao embaixador Paschoal Carlos Magno, que acabara de criar um núcleo de teatro estudantil para encenar Shakespeare. Assim, ela e Paulo Ventania Porto seriam Romeu e Julieta, sob direção de Itália Fausta.

“Quando começamos a ensaiar a célebre cena do beijo, eu disse logo: não vou dar beijo fingido. Clima de escândalo... Risinhos... Beijo na boca era muito forte. Para mim, era a coisa mais natural e lógica”, conta em sua biografia Sônia Oiticica, Uma Atriz Rodrigueana?, escrita por Maria Thereza Vargas e publicada na Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial. Começava aí uma longa e profícua carreira.

Sônia atuou em 29 peças teatrais, sete filmes, 14 novelas e 12 programas de rádio. Dois anos depois de interpretar Julieta, é convidada a ingressar no teatro profissional. Em 1940, vai trabalhar na companhia de Luís Iglezias, no Teatro Rival, na Cinelândia. No mesmo ano, atua em seu primeiro filme, Pureza, produção da Cinédia, baseada na obra de José Lins do Rego.

No ano seguinte, começa a trabalhar em rádio, num programa de perguntas e respostas. Filha de intelectuais, atriz de boa formação, Sônia tomou parte de vários programas educativos, como Antigamente Era Assim, Momentos Líricos e Biblioteca do Ar.

CASAMENTO

Em 1944, porém, sua carreira sofre uma longa interrupção. Ela deixa tudo para

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casar com Charles Edward. “Nosso casamento parecia uma coisa impossível: ele, filho de capitalista, e eu, filha de anarquista.”

As diferenças ideológicas eles conseguem conciliar. Mas o marido exige que ela abandone o teatro. Ela chega a fazer figuração escondida para matar a saudade. E ao fim de seis anos, grávida, pede separação. Volta ao rádio, sua principal fonte de subsistência, e, em 1952, está volta aos palcos, a convite de Madame Morineau, na peça Jezebel.

No ano seguinte, com Sérgio Cardoso, Leonardo Villar e Nydia Licia, entre outros, embarca no sonho da fundação de uma companhia oficial subsidiada, a Cia. Dramática Nacional, que nasce com o objetivo de levar à cena bom repertório brasileiro.Ali, ela faz seu primeiro Nelson Rodrigues, A Falecida, no papel da tísica Zulmira, que sonha com um enterro de primeira.

Logo depois, na mesma companhia, ela é Moema e Nathália Timberg vive Eduarda em Senhora dos Afogados. “Quem dirigiu foi Bibi Ferreira e a direção foi muito boa. Com pulso firme, evitava que nós caíssemos em exageros e, quem sabe, mesmo num bom melodrama. Não teria sido difícil. As rubricas e os diálogos levavam a um certo exacerbamento”, diz Sônia em sua biografia.

Assim, atenta à voz dos mestres, Sônia evitou o risco até hoje comum aos intérpretes de Nelson – o exagero – e se tornou uma das atrizes prediletas desse autor.

Em 1958 mudou-se para São Paulo. Atuou novamente com Sérgio Cardoso em O Soldado Tanaka e logo depois se integrou ao Teatro Popular do Sesi, dirigido por Osmar Rodrigues Cruz, a quem ela tece largos elogios em sua biografia.

Na década de 1960, faz Os Últimos, de Máximo Gorki, 1968, com direção de Antônio Abujamra, produção do Teatro Livre, companhia de Nicette Bruno, Paulo Goulart e Abujamra. Nos anos 1970, integra o elenco que estréia O Anti-Nelson Rodrigues, mais um texto de Nelson, com direção de Paulo César Pereio, 1974; e Gota d'Água, de Chico Buarque e Paulo Pontes, com direção de Gianni Ratto, 1975.

Mas o diretor a quem mais dedica carinho e admiração é Eduardo Tolentino, do Grupo Tapa. “A época de ensaios do Teatro do Estudante foi maravilhosa! A imensa alegria de estar junto, de estar fazendo alguma coisa de muito valor, só iria sentir muitos e muitos anos mais tarde, trabalhando com o Grupo Tapa, em 1993”, diz em seu livro. Com o Tapa ela encenou seu derradeiro Nelson, Vestido de Noiva, no papel de Clessy, e ainda fez Ivanov, de Chekhov, e O Telescópio, de Jorge Andrade.

TELEVISÃO
Andrade seria também o autor da novela que lhe daria um dos maiores sucessos na TV – a Júlia de Ninho da Serpente, em 1982, na Rede Bandeirantes. Mas não o único. Ela também brilhou como Catarina em Cavalo de Aço e como Silvia Bastos em Gabriela, ambas na Globo.

Em sua biografia, chama atenção a forma como narra em detalhes a característica de um personagem, as dificuldades encontradas para criá-lo, o estilo dos diretores, provas de uma intérprete consciente, que além de garra e paixão, sempre usou a inteligência para sua criação artística.



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