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Indianos e descendentes apontam falhas em 'Caminho das Índias'


Marília Montich
Especial para o Diário OnLine

25/03/2009 | 10:12


A novela global "Caminho das Índias" tem como pano de fundo a cultura desse país asiático repleto de particularidades, crenças e costumes exóticos aos olhos ocidentais. Porém, indianos e descendentes que vivem no Brasil e que acompanham a trama apontam uma série de erros presentes na obra de Glória Perez.

Filho de indianos, o empresário e músico Sagar Karahe, 26 anos, morador de São Bernardo, participou da abertura da novela e é envolvido com a divulgação de sua cultura ancestral no Brasil. Porém, ele afirma que "Caminho das Índias" tem exagerado em vários pontos. "Quanto às castas, por exemplo, não existe essa coisa de não chegar perto da sombra de um Dalit (intocável), mesmo porque no ônibus fica todo mundo grudado um no outro", afirma.

Segundo ele, o governo da Índia aboliu a discriminação desde a independência, em 1947, e agora quem a comete pode ser punido. "Isso pode até existir ainda, mas nas zonas rurais, não nas grandes cidades como Calcutá e Nova Déli. Muitas castas se misturaram ao longo do tempo, por isso, não existe mais esse preconceito", explica.

Kahare, que acabou de se casar na Índia, diz que a novela também está desatualizada em relação ao que tem mostrado sobre o casamento. "Hoje os noivos é que se escolhem. Essa história de os pais escolherem com quem os filhos vão se casar é coisa de 50 anos atrás. Tem gente até que se casa sem aprovação da família", afirma.

De acordo com o músico, o que acontece na maioria das vezes no país é que os filhos procuram agradar os pais nas escolhas que fazem em relação ao casamento por uma questão de respeito. "No meu caso, tentei unir o útil ao agradável", conta Kahare, que conheceu a atual esposa por meio da tia, que lhe mostrou uma foto da companheira. Ele se interessou e começou a conversar via Skype.

Em fevereiro deste ano, o músico foi à Índia para conhecê-la. "Minha mãe já estava lá e acabou conhecendo minha noiva e gostando dela também. Esse foi um fator que me inclinou na escolha por Gyanshree", conta Kahare, que explica ainda que os indianos preferem casar entre si, e não com os chamados firangues (estrangeiros), a fim de dar continuidade aos costumes e às tradições.

Sexo - A relação sexual entre Maya e Bahuan também é um ponto que gera controvérsias. Segundo Kahare, ser virgem até o casamento acaba sendo uma opção da maioria das pessoas na Índia. "O que acontece é que as próprias indianas se preservam. Os namoros na Índia são raros, tudo é feito depois do casamento. Assim como as mulheres, os noivos também escolhem se entregar depois da união", explica.

Além das falhas culturais, "Caminho das Índias" comete também erros de vocabulário, segundo o músico. "Eles repetem muitas vezes os mesmos termos, como 'Are Baba' e 'Are Are Are', muitas vezes sem sentido no momento em que são ditos", diz.

Já a analista de marketing Meha Dixite, 25, também filha de indianos, afirma que há muitos elementos da novela que a família desconhece. "Mesmo minha mãe, que saiu da Índia aos 20 e poucos anos, nunca ouviu algumas coisas que estão sendo faladas na novela, como a história de que dá azar ver uma viúva ou que não é bom olhar para uma grávida", conta.

Mesmo morando no Brasil, Meha segue a religião da terra natal de seus pais, porém, isso não a impediu de manter um namoro com um brasileiro, com quem diz ter um relacionamento normal aos moldes ocidentais. "Meus pais prefeririam que eu casasse com um indiano, mas eles acabam entendendo que isso é difícil", diz.

Para a analista, a novela peca na forma como alguns costumes estão sendo retratados. "O dote, por exemplo, está sendo mostrado como algo mercenário, como se o pai estivesse vendendo a filha, e isso não é verdade. O que acontece é que os pais dão uma ajuda de custo ao casal para que eles comecem a vida. O jeito que está aparecendo na novela chega a ser ofensivo, viramos até motivo de chacota", desabafa.

A mãe de Meha, Shobha Dixit, 53, também considera que a autora da trama global erra ao tentar mostrar muitos elementos do país de uma vez só. "Certas vezes eu penso que Glória Perez quer mostrar tudo da Índia, o passado e o presente, o que acontece no interior e nas grandes cidades, tudo de uma vez só. Para os brasileiros, fica uma imagem confusa do que o país realmente é", afirma a professora de inglês nascida na Índia.



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