Número regional No Dia Internacional dos Povos Indígenas, ativistas da região destacam que Censo traz luz à diversidade
André Henriques/DGABC

A população indígena no Grande ABC corresponde a 3.031 pessoas, sendo 2.916 em contexto urbano e 165 moradores de aldeias. São Bernardo é o maior território indígena da região (1.300). Na cidade, há as aldeias Guarani Mbya, de acordo com a Prefeitura. A Tekoa (aldeia) Guyrapaju, Tekoa Kuaray Rexakã e Tekoa Nhamandu Miri estão localizadas no Bairro Curucutu, no Pós-Balsa. No Dia Internacional dos Povos Indígenas, comemorado hoje, lideranças reivindicam direitos, principalmente à saúde, e falam sobre a importância desses dados para projetar políticas públicas.
Os números são do Censo 2022 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). No Brasil, são 1.693.535 indígenas. Em 2010, eram 896.917 (aumento de 88.8%). Para a ministra dos Povo Indígenas, Sonia Guajajara, muitos não se autodeclaravam por medo de serem mortos.
Jaqueline Haywã, cacica do povo Pataxó Hã Hã Hãe etnia Kariri Sapuya e moradora do Bairro Santa Luzia, em Ribeirão Pires, afirma que até hoje há grande preconceito contra indígenas, que gera o apagamento desses povos. “Em alguns lugares, ainda é perigoso se autodeclarar. Quem está na aldeia já sofre preconceito. Na sociedade em geral, quando você fala que é indígena, as pessoas questionam o porquê estamos em determinados espaços e dizem: ‘por que não voltam pra aldeia?’. Tem indígenas que preferem se esconder, não se assumir, porque é muita humilhação, mas o racismo é um crime. Não podemos ficar calados.” Ao todo, de acordo com a liderança, são 308 indígenas Pataxós no Grande ABC.
Segundo Jaqueline, a falta de informação sobre a pluralidade indígena é um desafio. “São mais de 300 povos. Cada um tem sua especificidade, forma de vida, cultura, pintura, cores. Muitas pessoas acham que é ‘todo mundo igual’. Não é bem assim. Eu fui consagrada cacica, mas tem outros povos que não admite que mulher seja liderança. Não é todo indígena que pode usar cocar, por exemplo. Há ainda muito a se aprender sobre isso”.
A partir dos números do Censo, é possível mensurar o tamanho da população indígena, o que contribui para a criação de políticas públicas regionais. “Com essas informações conseguimos pleitear ações direcionadas para nós. A maior reivindicação é o direito à saúde, com profissionais multidisciplinares direcionados ao atendimento especializado. Esses dados mostram que nós existimos”, analisa a cacica.
Para a socióloga e ativista Silvia Muiramomi, liderança do povo Guayaná-Muiramomi, co-fundadora do Movimento Multiétnico Nhande vae'eté ABC e conselheira do Compir (Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial de Santo André), saber que boa parte dos indígenas da região estão em contexto urbano é fundamental para que os governos repensem ações de proteção, fomento à cultura, saúde especializada, entre outros benefícios à população. “Os indígenas que vivem nas aldeias devem sentir que os centros são locais que acolhem a diversidade. Ainda há a ideia que os povos indígenas estão à parte da nossa construção social, quando na verdade somos a base disso. As pesquisas mostram que estamos presentes nas cidades e as cidades nos pertencem. Nossos corpos precisam ser respeitados dentros dos centros urbanos.”
PÓS-BALSA
A aldeia Guyrapaju faz parte do território indígena Guarani Tenondé Porã. Em São Bernardo, no pós-balsa, eles representam 28 famílias (cerca de 60 pessoas). Nela, são promovidas visitas regulares para quem quiser conhecer a vivência em terra indígena.
“São grupos de, no mínimo, 10 pessoas. Promovemos rodas de conversa sobre a nossa etnia, fazemos caminhada para conhecerem o território, temos oficina de arco e flecha, pinturas no rosto, apresentação do coral de crianças da aldeia e artesanato”, comenta Elson Mirim, liderança da aldeia Guyrapaju. Ao todo, a programação tem três horas e custa R$ 35 por pessoa.
Região terá programação para debates sobre Agosto Indígena
Santo André, São Bernardo e São Caetano estão com agenda em comemoração ao Agosto Indígena, marcado pelo Dia Internacional dos Povos Indígenas celebrado hoje. Em geral, a programação busca exaltar a pluralidade de povos originários e as diversas culturas existentes, assim como fomentar os debates sobre pertencimento, políticas públicas e inclusão.
Em 17 de agosto, haverá o II SEMINÁRIO AGOSTO INDÍGENA: Yvy rupa Nhande kuery mba'e (toda a terra é nossa) no Teatro Elis Regina (Av. João Firmino, 900 - Assunção, São Bernardo), das 12h às 17h30. No dia, os temas discutidos serão permanência na universidade, educação comunitária indígena no Pós-Balsa, fortalecimento dos povos originários no Estado de São Paulo a partir do programa Guardiões das Florestas, entre outros assuntos levantados por lideranças indígenas. Para se inscrever, é necessário preencher formulário disponível no site da Prefeitura.
NOS SESC
No Sesc Santo André, haverá a programação "Brincadeiras do Povo Guarani" entre 12 e 19 de agosto, a partir das 14h, com os educadores Karai Valcenir Tibes, Eliane da Silva e Rony Tibes. A agenda é recomendada para crianças a partir de 5 anos e adultos. O curso on-line “Poesia e pertencimento pelas lentes de mulheres indígenas” acontece toda terça-feira até 29 de agosto das 19h às 21h, com a ativista Jamille Anahata.
Em 23 de agosto, às 16h, o Sesc São Caetano promove roda de conversa mediada por Nivia Andrade, que recebe a socióloga Silvia Muiramomi, co-fundadora do Movimento Multiétnico Nhande vae'eté ABC.
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