ABC da Economia

Bancos comunitários e periferia urbana




Quando realizávamos pesquisa de doutorado, entre os anos de 2011 e 2014, em Rio Grande da Serra – no Grande ABC –, havia no município quatro agências bancárias. A cidade tinha, nesse período, a mesma população que o bairro Rudge Ramos, em São Bernardo, que, por sua vez, registrava em torno de 20 agências bancárias. O que faz um bairro ter cinco vezes mais agências bancárias que toda uma cidade? Rio Grande da Serra é uma localidade que podemos classificar como periférica. Rudge Ramos é um bairro de classe média. Tratei do tema no livro-coletânea A Era Digital e o Trabalho Bancário, realizado pelo Sindicato dos Bancários do ABC, e lançado no fim de 2020. O texto será reproduzido também em uma das próximas Cartas de Conjuntura da USCS.

Se esta situação ocorre em um município do Grande ABC, o que dizer das regiões mais pobres do País? Levantamento do Banco Central, em 2016, indicava que 352 municípios não possuíam agências bancárias. Em outros, há a presença exclusiva de um banco público. Os bancos estão em localidades que podem obter lucros e não, necessariamente, onde as pessoas precisam de seus serviços.

Entre aquilo que caracteriza a periferia está a insuficiência de trabalho e renda. É verdade que não devemos reduzir a ‘pobreza’ à ausência de meios econômicos, mas é um elemento importante de análise, o que é agravado pela deficiência de políticas públicas e infraestrutura urbana adequadas. Some-se a isso o ‘efeito de lugar’. Quem mora numa região considerada distante e violenta, torna-se refém dessa condição, visto que ela será levada em consideração em determinadas situações, como, por exemplo, na disputa de uma vaga de emprego. A tendência desse local é produzir uma situação de segregação social pelo seu distanciamento das regiões centrais onde estão, por exemplo, os ‘bons’ empregos.

Os bancos comunitários e sua importância na periferia devem ser pensados nessas condições, em que o isolamento físico impede, ou dificulta, as condições para o acesso ao trabalho e à renda, contribuindo na manutenção de pessoas sobrevivendo em situações de alta vulnerabilidade social.

Os bancos comunitários no Brasil foram concebidos a partir de experiências que propunham, entre outras coisas, o desenvolvimento econômico local, o fortalecimento do sentimento de comunidade para a população de uma determinada localidade e a geração de trabalho e renda a partir da economia solidária. Este ‘modelo econômico’ estrutura-se em grupos de trabalho que se organizam de forma cooperada, igualitária e democrática. No Brasil, o Banco Palmas, em Fortaleza, foi o primeiro banco comunitário.

Os bancos comunitários possuem seus desafios e limitações, sobretudo pela falta de conhecimento de órgãos públicos sobre seu funcionamento, contudo, são bancos focados na economia local e no desenvolvimento dos negócios da população do entorno. Levam em consideração os ‘mal incluídos’ (mulheres, classe média baixa, pequenos produtores).

Para a população que reside nas periferias é importante a organização de projetos que possibilitem a geração de renda, especialmente quando há uma valorização do desenvolvimento local. Um conjunto de fatores, como uma baixa escolaridade, ausência de um ‘bom’ currículo ou mesmo a distância territorial, são situações que dificultam a obtenção de emprego, em geral nas regiões centrais, ainda mais quando há alguma crise econômica no País.

Essas pessoas, grande parte das vezes, necessitam das redes de relacionamento, dentro da própria comunidade, para conseguir uma colocação ou um bico. Por isso, a possibilidade de um banco que empreste a uma taxa de juro mais baixa (ou sem juro) e que fomente o desenvolvimento local, estimulando o comércio, por exemplo, é importante, tanto para possibilitar capital em que as pessoas possam consumir, muitas vezes, o básico, como para contribuir para o comércio local, o que acaba gerando mais empregos.

Evidentemente que o ideal é que as pessoas tivessem um bom emprego, com renda suficiente para adquirir os itens básicos para uma vida com qualidade. Mas essa ainda não é a realidade de uma parte da sociedade brasileira. Por isso projetos sociais, que visem o desenvolvimento local, são importantes, como forma de prover uma melhor inclusão. Nesse sentido, a proposta dos bancos comunitários é gerar também o sentimento de pertença, fomentar as relações de confiança e promover o sentido de comunidade. O elemento básico em torno dos bancos comunitários é a solidariedade. 

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