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“Fat but fit.” – Melhor não acreditar




“Obeso, mas em forma”, ou ainda, “Gordo, porém, saudável”, são expressões que derivam do termo inglês “fat but fit” e circulam há décadas por consultórios médicos, academias de ginástica e foros que envolvam comportamento e bem-estar. A afirmação em uma de suas versões parte do pressuposto que a obesidade não aumenta o risco de morte prematura de origem cardiovascular quando desacompanhada de hipertensão arterial, alterações no metabolismo da glicose ou elevações nos níveis de gordura no sangue.

Em parte, a alegação conforta (ou confortava) obesos sem estas comorbidades, muito embora não considere outras pendências clínicas que os acometem bem mais do que em magros, notadamente comprometimentos osteoarticulares, doenças do trato gastrointestinal, distúrbios psicológicos e alguns tipos de cânceres.

O primeiro estudo robusto com evidências contrárias a essa consideração foi apresentado no Congresso Europeu de Obesidade, realizado em Lisboa no ano de 2017, no qual, pesquisadores da Universidade de Birmingham, Reino Unido, mostraram resultados de imensa pesquisa revelando os riscos de morte precoce em pacientes obesos, independentemente da presença de comorbidades.

O grupo britânico analisou os registros médicos de 3,5 milhões de obesos ‘saudáveis’ entre 1995 e 2015, concluindo que estes indivíduos apresentaram 50 % maior probabilidade de desenvolver doença coronariana e entre 7% e 11 % para desenvolver doença cérebro vascular e doença vascular periférica, na comparação com não obesos.

Uma outra explicação para o ‘obeso, mas saudável’ aborda estes indivíduos, com ou sem comorbidades, em sua relação com exercícios, ou mais exatamente, qual a verdadeira resultante cardiovascular da prática de exercícios físicos neste grupo. Neste caso, questiona-se a ocorrência ou não de proteção pelos exercícios contra os efeitos negativos que o excesso de gordura proporciona.

Embora, nas últimas décadas, muitos pesquisadores tenham sinalizado que o condicionamento físico compense os prejuízos cardiovasculares causados pela obesidade, há algum tempo esse entendimento é contestado, como é visto no estudo sueco publicado em dezembro de 2015 no International Journal of Epidemiology, o qual demonstra que obesos que se exercitam regularmente são 30 % mais propensos a morte cardiovascular prematura do que indivíduos não obesos que se exercitam pouco.

Uma pesquisa espanhola desenvolvida na UEM (Universidad Europea de Madrid) e publicada em janeiro deste ano no European Journal of Preventive Cardiology, jornal da European Society of Cardiology, sugere fortemente que atividade física regular não repara os efeitos adversos causados pelo sobrepeso e obesidade.

O principal autor do estudo, Alejandro Lucia, professor de fisiologia do exercício da UEM, anota que estes resultados devem alertar os gestores públicos sobre o risco das campanhas em favor da prática de exercícios no enfrentamento da obesidade, no que deveriam priorizar o estímulo ao emagrecimento.

Sem alertar, mas apenas constatando, afirmo que tais embates ocorrem pela histórica confusão de conceitos provocada por imensos nichos mercadológicos dependentes dos obesos e suas resultantes. Pois, ao anotar sedentarismo como causa de obesidade, e realmente o é, a ausência de outras considerações deixa subentendido que os exercícios físicos emagrecem e, com isso, tudo passa a ser uma questão de força de vontade.

Entre tantas outras benesses, os exercícios nos protegem da obesidade e corroboram com propostas de emagrecimento dietéticas ou fármaco-dietéticas, mas não nos emagrecem pela perda calórica que proporcionam. Por outro lado, a prática moderada de exercícios para qualquer peso e idade, naqueles sem comprometimento cardiovascular estabelecido, trará mais benefícios que danos.

Mas, sem emagrecimento o obeso poderá portar inúmeros predicados, contudo, não será saudável!
 

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