Cotidiano

Mas tão perto da vacina!


O governo determinou a volta às aulas, como é papel seu determinar. Disse que os protocolos serão seguidos e, por isso, ninguém correrá perigo. Protocolo, aliás, soa na cabeça deste cronista como algo meio burocrático, que cheira a repartições públicas antigas funcionando em prédios velhos, de paredes mofadas. De qualquer jeito, serve de consolo imaginar que o leitor divide comigo tal impressão.

Claro que, em tempos pandêmicos, protocolo ganhou cara nova e caiu nas graças da sociedade, que se habituou a conviver com o termo, sempre mencionado, aqui e ali, por médicos, enfermeiros, epidemiologistas e afins, pessoas que também ganharam notoriedade e prestígio nas mídias do País, por causa dele, do vírus.

E é bom ter em mente que os protocolos, em tempos de peste, foram criados para proporcionar segurança e garantir que se cumpra uma série de regras que visam proteger, por exemplo, todos os envolvidos com a educação quando chegar o momento de retorno às aulas presenciais. Para tanto, o poder providenciou, como é papel seu providenciar, baldes de álcool gel, medidores de temperatura, turmas reduzidas e, talvez, cartazes contendo instruções para o distanciamento físico, higienização das mãos etc e tal. Protocolo de segurança deve ser mesmo assim, penso eu. Não consigo me lembrar de mais nada que possa preencher os requisitos protocolares.

Voltar para a escola é, segundo o poder, imprescindível em momento em que se agrava a peste, com as novas mutações da molécula, inclusive. Ouvi de um pediatra que as crianças estão sendo acometidas por crises de depressão pela falta de contato com os coleguinhas. Teria feito uso deste expediente, o clínico, talvez para justificar a medida que os governantes, sempre preocupados com o bem do povo, julgaram necessário lhe enfiar goela abaixo. Admito que seja mesmo verdade a alegação do médico, a despeito de nunca ter ouvido alguém que falasse da tristeza das crianças que perderam avós, ou até mesmo pais, para a doença.

Os técnicos em educação, normalmente gente que nunca esteve numa sala de aula, explicam que a garotada estará segura dentro da escola. Muito compreensível, a despeito do silêncio sobre o perigo que correrão professores e demais funcionários, levando em conta a idade de muitos e a possibilidade de serem os alunos os portadores do tinhoso que, com eles, dividirá o espaço escolar. Nada se sabe, afinal, a respeito da procedência de cada jovem. Todos vêm de lares que, nem sempre, obedecem às regras sanitárias vigentes. Asseguram, os técnicos, que na escola serão vigiados para que não se aglomerem, mesmo estando em turmas reduzidas.

É meio improvável, no entanto, que o poder se disponha a averiguar o ambiente doméstico de cada estudante, criança ou adolescente. Pode ser que haja ali um irmão mais velho que não abre mão dos <CF160>pancadões</CF>, de uma festinha <CF160>rave</CF> maneira, de uma aglomeração para celebrar a vitória do seu time... Pode ser até que a sua família, como tantas, curta tirar uma onda numa praia abarrotada, nos fins de semana ensolarados... Há de se indagar, portanto, que tipo de mago ou bruxa de plantão numa escola tem o poder de garimpar algo de sinistro dentro de um universo de possibilidades?

Mas todos estarão de máscara e guardando a devida distância, dirá o defensor das aulas presencias, sem saber que a garotada tirará a máscara para tomar água (no verão, a cada cinco minutos), para comer, para coçar o nariz, porque está quente, porque aproveitará a distração do inspetor para dar no colega ou na colega aquele beijo inconsequente de saudade...

Estou certo de que o caríssimo leitor se solidariza comigo nesta minha apreensão, e que também divide comigo este anseio pelas vacinas, que estão chegando. Elas vêm para dar alívio e uma sensação de fuga do caos. A liberdade parece que chega aos poucos, em pequenas doses de vida, que deviam ser aguardadas antes de se meter os pés pelas mãos.

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