Cotidiano

A preço de banana


A declaração infeliz de que com o dólar baixo as empregadas domésticas viajavam para a Disney, numa festa danada, foi alvo de muita crítica esta semana. E com toda a razão vociferaram as pessoas indignadas, sobretudo as que são ou descendem de gente que faz desta profissão a base para o seu sustento. Soaram mesmo como uma banana para o povo deste vasto sertão tais palavras.

Mas se a fala destrambelhada do ministro fosse o único problema que assola esta rica Pátria de bananas, até que daria para engolir com casca e tudo. Entretanto, quando deitamos os olhos nos detalhes sórdidos que permeiam de verdade os assuntos econômicos, sociais e tais, vemos que tudo vai de mal a pior. Acabo, inclusive, de ver a publicação de um jornalista, desses que vão a fundo nas questões antes de levá-las ao público. Dizia aquela que 80% do gasto com o setor militar vão para as pensões de gente que tem ou teve pai de alta patente e que, embora tenha passado há muito dos 50, continua mamando nas tetas governamentais. Não duvido.

Trocando em miúdos, faz troça da população o ministro quando discursa zombando das empregadas domésticas ou quando atribui à Previdência ou ainda aos desmandos do funcionalismo público toda a culpa pela quebradeira nacional. Na verdade, fala de toda a classe média, que ainda se esforça para se manter em pé. Gente que por certo não conta com a rica pensão de papai militar ou parlamentar, o que dá no mesmo.

E para todo esse povo, uma banana, das mais graúdas. Não a que compramos nas feiras ou mercados, mas aquela que se recebe da autoridade máxima quando questionada acerca das mazelas tão frequentes desde que tomara nas mãos o cetro dourado. Mas é preciso admitir que o sujeito foi eleito democraticamente. Suspeita-se até que o pleito não tenha sido dos mais honestos. De qualquer forma, o indivíduo está aí e ocupa o trono mais ambicionado deste reino perdido.

Outra banana, diga-se de passagem, foi endereçada à população quando queimaram o arquivo que continha dados importantíssimos para que toda essa angústia que dói no peito começasse a declinar.

E mais uma banana veio a jato quando a rainha fez beicinho e pleiteou um novo gabinete de onde pudesse despachar bem pertinho do seu amor. “Sem problemas! O que temos de mais inútil no palácio? Ah! A biblioteca? Pois então...”.

Aliás, mais outra gorda banana nos desce goela abaixo com a censura descarada e descabida de grandes obras da literatura. Nas escolas, templo do ensino em que o jovem começa a ter contato com o que há de melhor na arte de se lidar com a palavra escrita, é onde ocorre o sinistro. O povo que lê percebe o desastre iminente, os demais, não. E Machado, mesmo com toda a sua imaginação, por certo que nunca sonhou com obra sua guardada a sete chaves ou talvez queimada, como se viu décadas atrás em país não tão distante assim. 

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