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'Joao Voz e Violao' já é clássico

Mario Gioia
Da Redaçao
14/01/2000 | 20:15
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No século XXI, a bossa nova deve ser reconhecida como o mais importante movimento musical brasileiro e uma das maiores contribuiçoes culturais do país produzida nos últimos 100 anos.

Um dos testemunhos da vitalidade do estilo está sacramentado com Joao Voz e Violao, que chega às lojas do Grande ABC apenas no mês que vem, e que pode ser considerado, antecipadamente, um dos melhores CDs do ano. Desde 1991, quando lançou Joao, o mestre da bossa nova estava sem gravar um novo trabalho em estúdio. Também inédita é a gravaçao em estúdio das cançoes de Joao Gilberto apenas em voz e violao, sem acompanhamento de outros instrumentos musicais.

A produçao do CD foi de Caetano Veloso, que parece ter exercido influência quase nula no álbum, exceto pela presença da pré-tropicalista Coraçao Vagabundo (1967) e de Desde que o Samba é Samba (1993), ambas belíssimas na interpretaçao de Joao.

Caetano também sugeriu dois standards brasileiros, Desafinado (de Tom Jobim e Newton Mendonça) e Chega de Saudade (Tom Jobim e Vinicius de Moraes), além das esquecidas Nao Vou pra Casa (Antonio de Almeida e Roberto Roberti, 1941) e Segredo (composta por Herivelto Martins e Marino Pinto, e interpretada por Dalva de Oliveira, em 1947).

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"Embora seja um orgulho para mim ser creditado assim, eu nao me considero, praticamente, produtor desse disco. Eu fui uma espécie de produtor executivo do Joao, nao do disco", confessa Caetano no material de divulgaçao à imprensa.

A uniao de Joao e Caetano em um álbum repete a parceria vista no show de abertura do Credicard Hall, em Sao Paulo, em setembro passado. A apresentaçao teria sido histórica pela execuçao das maravilhosas Saudosa Maloca (de Adoniran Barbosa), Ronda (Paulo Vanzolini) e da inédita Você Vai Ver (de Tom Jobim), mas foi emblemática por revelar uma elite desinteressada na fruiçao de Joao Gilberto em voz e violao.

No início do show, Joao reclamou do som da casa, cheio de ecos, e, por isso, foi vaiado por parte dos 4,5 mil convidados, discutindo com parte da platéia. Além do som, o evento foi marcado por um interminável entra-e-sai do público, taças de Spumante Prosseco quebrando sucessivamente, chamadas de telefone celular e toda espécie de ruídos em contraposiçao à delicada sonoridade de Joao.

Mas amantes do melhor da MPB puderam ter uma prévia do novo trabalho com Desafinado, Eu Vim da Bahia (de Gilberto Gil, 1965), Coraçao Vagabundo, além de Você Vai Ver.

Parte do encanto do CD vem da quase total ausência de interferências recorrentes em estúdios, já que as faixas do álbum foram o resultado final de quatro dias de gravaçao, exatamente as primeiras versoes das cançoes.

Assim, é quase o registro de um show intimista de Joao (aqueles que você pode assistir no Gran Rex, em Buenos Aires), com versoes sempre inovadoras, como na mais acelerada Desafinado, na introspectiva Coraçao Vagabundo, na jovial Da Cor do Pecado (de Bororó, cantada por Sílvio Caldas desde 1939) que perde o tom de publicidade adquirido nos últimos anos, na resgatada Segredo e na interpretaçao bossa-nova de Eclipse (bolero de Ernesto Lecuona, gravado em 1979 por Joao).

Voz e Violao nasce clássico, como a trilogia Chega de Saudade (1959), O Amor, o Sorriso e a Flor (1960) e Joao Gilberto (1961). Que venham o silêncio e os ecos de Joao.




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