Política

‘Único plano do PT é o Lula ser candidato’


Ex-prefeito de São Paulo e ex-ministro da Educação, Fernando Haddad é colocado dentro do PT como plano B caso o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não consiga viabilizar sua candidatura presidencial devido aos processos da Operação Lava Jato. Mas Haddad é taxativo em refutar esse rótulo.

Em entrevista exclusiva ao Diário, o ex-prefeito assegura que o único plano do petismo é reverter a condenação de Lula em segunda instância – no caso do triplex do Guarujá – para deixar o cacique petista livre para concorrer ao cargo máximo do País novamente.

“Espero que o Brasil tenha oportunidade mais uma vez de votar no presidente Lula. Visivelmente não se prova nada contra ele. Isso é claro. Ele foi condenado por uma suposição e não por uma prova. O sistema quer tirá-lo da frente”, diz o petista. “Qualquer coisa que nos desvie dessa cruzada não é desejável. Não vamos tratar de outro assunto que não seja defender a inocência do Lula.”

Haddad também traça balanço sobre a queda do petismo na eleição de 2016, que dizimou governos do partido, principalmente em São Paulo, como no seu caso e também no Grande ABC, onde nenhum filiado se elegeu prefeito. Para ele, vazamentos seletivos de denúncias contra petistas na Lava Jato foram determinantes para que o PT chegasse ao pleito do ano passado “no pior momento de sua história”.

“Era muito difícil naquele contexto você discutir os assuntos da cidade. Só se discutia as questões relativas ao PT. As informações sobre PMDB e PSDB só vieram à tona depois das eleições. Parecia que o PSDB e PMDB eram partidos sem problema e o PT era o grande problema. A população foi levada a tomar decisão com base nas informações que ela dispunha. O Grande ABC ficou inserido neste contexto. O PT perdeu 60% de seus votos entre 2012 e 2016, no Brasil inteiro”, argumenta.

Pela primeira vez desde a fundação do PT o Grande ABC ficou sem prefeito do partido. O sr. consegue explicar por qual motivo isso aconteceu?
Vou fazer referência a uma viagem recente que fiz. Fui a Pernambuco, dar uma palestra na Universidade Federal e na Universidade Católica. Eu me encontrei com João Paulo Lima, prefeito de Recife por oito anos (entre 2001 e 2008) e que fez seu sucessor (João da Costa Bezerra Filho). E que saiu com mais de 80% de aprovação. Ele quase não foi ao segundo turno na disputa pela prefeitura (em 2016) e perdeu a eleição com margem razoável (para Geraldo Julio, do PSB). Estou falando de uma capital do Nordeste, onde o PT tem grande penetração, Estado do presidente Lula. A verdade é que o pior momento da história do PT foi setembro de 2016. Era muito difícil naquele contexto você discutir os assuntos da cidade. Só se discutia as questões relativas ao PT. As informações sobre PMDB e PSDB só vieram à tona depois das eleições. Parecia que tucanos e peemedebistas eram sem problema e o PT era o grande problema. A população foi levada a tomar decisão com base nas informações que ela dispunha. O Grande ABC ficou inserido neste contexto. O PT perdeu 60% de seus votos entre 2012 e 2016, no Brasil inteiro. Foi um momento muito delicado e que está sendo revertido porque as pessoas vão tomando conhecimento de novas informações e vão formando juízo. Percebendo que aquele clima foi artificialmente construído.

Mas o partido discute rever ter esse quadro? E tem agido para dar esse salto?
Sempre está preparado para dar salto. O PT é o partido de maior preferência nacional. Até hoje. E crescente, segundo os institutos de pesquisa. Evidentemente que o governo Lula foi reconhecidamente o melhor período da história do País.

Ficou resquício de 2016?
Claro que sim. Tem resquício. Ficou trauma, mas para todo sistema político.

Isso que permitiu o fenômeno João Doria?
Ele está se revelando o maior político agora. O maior de todos, do tradicional.

O sr. acredita que sua derrota deve-se a esse contexto do pior momento da história do PT ou faltou algum diálogo com a cidade?
Acho que houve outros fatores também. Mas o principal foi esse.

Como o sr. absorve a militância colocando seu nome como plano B caso o ex-presidente Lula seja condenado e retirado das urnas?
Espero que o Brasil tenha oportunidade mais uma vez de votar no presidente Lula. Visivelmente não se prova nada contra ele. Isso é claro. Ele foi condenado por uma suposição e não por uma prova. O sistema quer tirá-lo da frente. Prova é conta no Exterior, mala de dinheiro.

Mas o sr. está preparado para ser um plano B? Porque o TRF (Tribunal Regional Federal) pode manter a condenação de primeira instância, do juiz Sérgio Moro.
Pode. Mas estamos trabalhando com a hipótese de reverter a sentença no tribunal. Esse é o plano A.

Muita gente defende seu nome para o Planalto. Não é vontade sua ser presidente?
Não vou trabalhar esse assunto com você porque nós estamos numa cruzada em defesa da inocência do Lula. Qualquer coisa que nos desvie dessa cruzada não é desejável. Não vamos tratar de outro assunto que não seja defender a inocência do Lula. Efetivamente a sentença é muito frágil. Quem conseguiria reunir espontaneamente 122 juristas para escrever um livro sobre a sentença condenatória? São professores de várias universidades, em 15 dias, que produziram obra vasta sobre as fragilidades da sentença. São pessoas que estão se expondo, não são filiadas em partido. São pessoas que acham a sentença injusta. É uma condenação frágil demais.

Falar em plano B hoje então é desviar o foco?
Desvia o foco do nosso interesse, que é defender a candidatura do Lula, que ele seja candidato.

Não existe plano B, então?
Não existe. O único plano é o Lula candidato.

O sr. tem vontade política para o ano que vem?
Estamos discutindo as possibilidades para o ano que vem aqui no Estado. Tem havido conversa neste sentido.

O sr. tem preferência?
Ainda não tem decisão sobre isso.

O Senado agrada o sr.?
Há sondagens para isso. O que eu puder fazer para colaborar (na eleição) eu vou fazer. É uma possibilidade.

Ser candidato a governador é uma possibilidade também?
Essa discussão não está colocada nesses termos. O presidente do PT estadual, o Luiz Marinho, me sondou sobre possibilidade de ser candidato a senador.

Marinho é o melhor nome para ser candidato do PT no Estado?
Ele pretende ser. Foi prefeito muito bem avaliado. Foi reeleito com facilidade. Teria toda condição de nos representar nessa disputa.

Há outros nomes além do de Marinho?
Neste momento é o dele que está colocado.

Há discussão na militância contrária ao Marinho que ele sequer levou seu sucessor ao segundo turno e que é a hora de apresentar nome no campo petista que possa agradar a esquerda, como o seu ou do ex-senador Eduardo Suplicy. Como enxerga esse debate?
No momento oportuno isso será discutido. Mas hoje o único nome colocado é o do Luiz Marinho.

Como o sr. vê a gestão do Doria?
O que eu tenho acompanhado... a prefeitura só anuncia corte de benefício social. Cortou o Leve Leite, cortou o passe livre, a merenda, cortou o Orçamento da Cultura, da Assistência Social, as filas aumentaram, tanto da creche quanto a de exames na Saúde. Eu realmente só ouço falar em cortes e em venda de patrimônio público. São os dois assuntos da cidade. Ele também desmontou o De Braços Abertos e espalhou o crack pela cidade.

O PT não errou neste momento de crise? A queda do partido se dá apenas pelo contexto jurídico e da mídia contra a legenda?
Quando falo em contexto é no geral, nisso também. Só o fato de a gente não ter feito a reforma política... é um erro grave não ter feito a reforma política.

Esse foi o maior erro então do PT?
Eu acredito que sim.

Surpreende a briga entre Geraldo Alckmin e Doria?
Essa história é frequente, a criatura se virar contra o criador, trair o criador. Sobretudo no campo mais conservador, onde o individualismo prevalece. Não surpreende tanto. Eu dei entrevista ao jornal El País no fim do ano passado dizendo que o Doria iria se revelar o político que ele é muito antes do que as pessoas imaginam. Ele não é gestor, ele é político, e dos tradicionais. Foi o que aconteceu.

O Doria está preparado para sair candidato a presidente da República?
Não acho nem que está preparado para ser prefeito. Como vou achar que ele está preparado para ser presidente?

A Operação Lava Jato agora avança para PSDB e PMDB, não está mais só centrada no PT. Como o sr. avalia isso?
Houve seleção na época. Vazamentos escolhidos a dedo para ter impacto eleitoral. Porque as informações estavam disponíveis. Por que só vazaram informações contra o PT? Para prejudicar na eleição. Deixou passar a eleição e divulgou-se o resto.

Como o sr. enxerga o governo Michel Temer?
Está entre os piores da história republicana. Não tenho a menor dúvida disso. Pela truculência, falta de transparência e pelo time mesmo.

Temer conseguiria emplacar um sucessor? Dizem que o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, nutre esse sonho.
Talvez apoiem o Doria, não é?

Temer já não se mostrava esse tipo de político quando Lula fez questão de indicá-lo como vice de Dilma Rousseff (PT), em 2010?
Sinceramente não se mostrava. Eu não acreditava nisso. Sinceramente.

O sr. se surpreendeu ao ver o Renan Calheiros trocar afagos com o Lula em Alagoas?
Dizem que o Renan Filho (governador de Alagoas) está fazendo um governo voltado aos mais pobres. Ali o governador Renan Filho é o que fala. Tem safra de governadores do Nordeste que estão tentando mexer. Mais do campo de centro-esquerda, do PSB, do PT.

Mas não surpreendeu o sr.? Muito militante reclamou pela figura do Renan, um dos caciques do PMDB, partido que o PT diz ser golpista.
O Lula vai receber solidariedade de muita gente. Porque ele é querido por muita gente, inclusive por quem está em outro partido. Houve prefeito do PSDB que disse que o Lula foi o maior presidente da história do Brasil. Estão até ameaçando esse prefeito de expulsão. Esse tipo de solidariedade vai acontecer. É solidariedade, você vai negar?

Quando o sr. escreveu o artigo para revista piauí, com críticas ao governo de Dilma, muitos petistas criticaram veladamente. O sr. sente que há uma restrição ao seu nome no PT?
Eu não sei das pessoas que não gostam de mim dentro do PT. A verdade é essa, eu não sei quem são. Eu continuo não sabendo. Quando falam, não falam quem é nem o que é.

O sr. sente animosidade dentro do PT?
Nunca senti nada. Fui ministro (da Educação) por sete anos, prefeito outros quatro. Às vezes, não sei, é impressão. 

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