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Diretor fala sobre 'Prisioneiro da Grade de Ferro'


Cássio Gomes Neves
Do Diário do Grande ABC

25/04/2004 | 17:07


Sete anos foram consumidos no projeto do documentário O Prisioneiro da Grade de Ferro antes que o cineasta Paulo Sacramento, nascido em Santo André, conseguisse alojar sua obra no circuito comercial, no último dia 16, com boa recepção da crítica. Ser descoberto pelo espectador é o destino mais justo para o filme. “É o público que tem de julgar se é bom. Espero que (o filme e a platéia) se encontrem”, afirma o diretor, de 33 anos. A obra se infiltra no cotidiano de detentos do Carandiru um ano antes de três pavilhões do presídio serem demolidos em 2002. Sacramento delegou a captação de imagens aos próprios presidiários, num processo que levou um mês de curso, para ensiná-los a usar câmeras digitais, e seis meses para registrarem cenas. A obra chega num instante em que direitos humanos e penitências digladiam-se no horário nobre da TV.

Os cinegrafistas amadores perpetuam imagens e as quimeras vão se desintegrando para o espectador quando a liberdade provisória de um detento é revelada, ao sair para ver a família e retornar de olhos marejados ao cárcere; ou quando anônimos apresentam facas improvisadas, armas para purgar. Em entrevista ao Diário, o diretor defende pontos de vista e escolhas estéticas de O Prisioneiro..., um documentário que no presente retrata a urgência em seu contexto e já se firma como importante documento histórico.

Diário – Houve algum tipo de resistência por parte da administração do Carandiru ou mesmo dos presos para a realização de O Prisioneiro...?
Paulo Sacramento – Era uma idéia difícil de vender para os administradores da cadeia, porque nós filmaríamos fatos e lugares que eles mesmos não tinham acesso. Não é raro jornalistas e câmeras entrarem no complexo do Carandiru, mas na maioria das vezes eles não têm qualquer relação com aquelas pessoas (os presidiários). Não davam retorno para eles e acabavam tendendo ao sensacionalismo. Nosso trabalho foi diferente: andávamos pela cadeia sem escolta e tudo o que conseguíamos dependia diretamente da vontade dos presos. Não adiantava forçar a barra.

Diário – Então tudo o que aparece na tela foi de certa forma autorizado pelos próprios presidiários?
Sacramento – Não houve nenhuma filmagem feita às escondidas. Tudo foi mais do que combinado com os presos, eram eles que diziam onde podia ou não podia filmar. Eles, assim como eu, queriam mudar essa visão estereotipada dos presídios e foi tudo resolvido “na idéia”, como eles falam.

Diário – Como fica o roteiro numa situação em que não se imagina o que pode surgir a cada dia de filmagem?
Sacramento – Quando eu percebi, o roteiro já tinha ido para as cucuias. Reescrevemos o roteiro a partir do total de imagens captadas (170 horas de material bruto) para contar a história com precisão. Nos primeiros dois meses, eu assistia às fitas que os presos tinham produzido no mesmo dia. Depois de um tempo, já estava exausto e tinha confiança no que eles filmavam. Chegou um momento no qual eu sequer olhava para as fitas. Com o término das filmagens (seis meses depois), eu praticamente descobri todo um trabalho desconhecido. Levei um mês inteiro só para assistir ao que tinha sido registrado.

Diário – Você teve de ministrar um curso antes das filmagens para que os presos se habituassem aos comandos da câmera. Como foi a preparação?
Sacramento – O curso não era tão técnico. Seu princípio era mais o de analisar e criticar o material sobre as populações carcerárias disponível até então. Eles não se reconheciam em nenhum deles, seja nos filmes seja nos programas de TV, e diziam: “Isso não é a nossa realidade”. Descobriram que quem teria as melhores condições para mostrar a realidade de fato, e conseguir uma visão mais próxima do que seria uma visão interna, eram eles mesmos.

Diário – Algumas cenas do filme, como a da produção de cachaça e do plantio de maconha, não identificam as pessoas...
Sacramento – Às vezes, acontecia de haver alguém com medo de ser reconhecido, porque tinha praticado crimes que não tinham sido julgados ainda. De um certo modo, respeitamos isso. Sempre avisávamos sobre as filmagens em lugar aberto, para que aqueles que não quisessem aparecer saíssem dali. Era essa a nossa relação com aquela cidade (o Carandiru, que então abrigava 7,5 mil homens), que tinha uma demanda enorme para se exibir. E a qualidade da relação foi melhorando de tal maneira que chegou um momento em que nós, que prevíamos passar de dois a três meses lá dentro, decidimos ficar seis, mesmo que a produção não tivesse dinheiro para pagar todo mundo. A equipe foi contagiada pelo ímpeto dos presos.

Diário – Quando você teve de cortar a maioria das 170 horas filmadas, você se sentiu mais como benefício ou interferência no momento de editar?
Sacramento – A gente tinha de fazer um filme que fosse assistível e que interessasse ao espectador que tem o hábito de se dedicar ao assunto e refletir sobre ele. Para a montagem, que é uma ferramenta genial do cinema, eu levei uns sete meses limpando o material até chegar a umas 30 ou 40 horas e tornar a coisa mais humana para a co-montadora (Idê Lacreta). Dizem que um montador não deve editar o filme que dirigiu. Acredito que consegui o que pretendia, cenas que isoladas não têm grandes significados, mas que obtêm sentido quando unidas, um significado por acúmulo. Uma outra coisa que eu tinha muito clara: eu não queria facilitar a vida do espectador, não queria que a montagem tornasse tudo muito mastigado para ele.

Diário – O Prisioneiro... estreou dentro de um panorama excelente para o documentário no país. Atualmente, em São Paulo, estão em cartaz cerca de cinco deles. Como você avalia o período atual para o gênero?
Sacramento – O documentário tem a função de fazer você querer aprender e deixar de lado seus preconceitos, suas certezas e arrogâncias. Para isso, você tem de ouvir o outro, e ouvi-lo muito. Tenho pensado nisso diante dos documentários mais recentes. Existe uma produção gigante que não conhecemos neste momento, que é riquíssimo. E o documentário hoje é o que melhor representa a passagem do cinema clássico para o moderno. A câmera que antes conhecia toda a história, que procurava a melhor posição possível para contar os fatos, agora é uma câmera falível, cada vez mais humanizada. Agora ela não dispõe de todos os dados, deve trabalhar a partir de fragmentos. Hoje em dia, (o filme documental) perdeu seu caráter estritamente educacional e mais pergunta do que afirma. Espero que não seja momentâneo. Não consigo encarar o bom momento como uma moda, mas como um processo lento de conquista de espaço.

Diário – Algum dos presos que participaram do filme pôde assisti-lo?
Sacramento – Foram quatro deles que assistiram ao filme e a repercussão foi uma das coisas mais emocionantes que já vi. Eles tinham a auto-estima superbaixa, pois uma vez lá dentro são todos iguais e quando de lá saírem, por causa de preconceitos, serão sempre ex-presidiários para a sociedade. O filme é uma prova material da capacidade deles mesmos. De repente, um presidiário pode se transformar em cineasta e ter seu filme exibido em Paris e Nova York, e isso faz crescer a auto-afirmação.

Diário – Algum projeto novo, agora que O Prisioneiro... está enfim entregue ao público?
Sacramento – Agora eu preciso descansar um pouquinho. Essa coisa de lançamento de filme é muito cansativa, ter de falar sempre sobre o mesmo assunto e verbalizar a toda hora sobre um trabalho que você levou tanto tempo para fazer. Mas não tenho do que reclamar – só descansar.



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Diretor fala sobre 'Prisioneiro da Grade de Ferro'

Cássio Gomes Neves
Do Diário do Grande ABC

25/04/2004 | 17:07


Sete anos foram consumidos no projeto do documentário O Prisioneiro da Grade de Ferro antes que o cineasta Paulo Sacramento, nascido em Santo André, conseguisse alojar sua obra no circuito comercial, no último dia 16, com boa recepção da crítica. Ser descoberto pelo espectador é o destino mais justo para o filme. “É o público que tem de julgar se é bom. Espero que (o filme e a platéia) se encontrem”, afirma o diretor, de 33 anos. A obra se infiltra no cotidiano de detentos do Carandiru um ano antes de três pavilhões do presídio serem demolidos em 2002. Sacramento delegou a captação de imagens aos próprios presidiários, num processo que levou um mês de curso, para ensiná-los a usar câmeras digitais, e seis meses para registrarem cenas. A obra chega num instante em que direitos humanos e penitências digladiam-se no horário nobre da TV.

Os cinegrafistas amadores perpetuam imagens e as quimeras vão se desintegrando para o espectador quando a liberdade provisória de um detento é revelada, ao sair para ver a família e retornar de olhos marejados ao cárcere; ou quando anônimos apresentam facas improvisadas, armas para purgar. Em entrevista ao Diário, o diretor defende pontos de vista e escolhas estéticas de O Prisioneiro..., um documentário que no presente retrata a urgência em seu contexto e já se firma como importante documento histórico.

Diário – Houve algum tipo de resistência por parte da administração do Carandiru ou mesmo dos presos para a realização de O Prisioneiro...?
Paulo Sacramento – Era uma idéia difícil de vender para os administradores da cadeia, porque nós filmaríamos fatos e lugares que eles mesmos não tinham acesso. Não é raro jornalistas e câmeras entrarem no complexo do Carandiru, mas na maioria das vezes eles não têm qualquer relação com aquelas pessoas (os presidiários). Não davam retorno para eles e acabavam tendendo ao sensacionalismo. Nosso trabalho foi diferente: andávamos pela cadeia sem escolta e tudo o que conseguíamos dependia diretamente da vontade dos presos. Não adiantava forçar a barra.

Diário – Então tudo o que aparece na tela foi de certa forma autorizado pelos próprios presidiários?
Sacramento – Não houve nenhuma filmagem feita às escondidas. Tudo foi mais do que combinado com os presos, eram eles que diziam onde podia ou não podia filmar. Eles, assim como eu, queriam mudar essa visão estereotipada dos presídios e foi tudo resolvido “na idéia”, como eles falam.

Diário – Como fica o roteiro numa situação em que não se imagina o que pode surgir a cada dia de filmagem?
Sacramento – Quando eu percebi, o roteiro já tinha ido para as cucuias. Reescrevemos o roteiro a partir do total de imagens captadas (170 horas de material bruto) para contar a história com precisão. Nos primeiros dois meses, eu assistia às fitas que os presos tinham produzido no mesmo dia. Depois de um tempo, já estava exausto e tinha confiança no que eles filmavam. Chegou um momento no qual eu sequer olhava para as fitas. Com o término das filmagens (seis meses depois), eu praticamente descobri todo um trabalho desconhecido. Levei um mês inteiro só para assistir ao que tinha sido registrado.

Diário – Você teve de ministrar um curso antes das filmagens para que os presos se habituassem aos comandos da câmera. Como foi a preparação?
Sacramento – O curso não era tão técnico. Seu princípio era mais o de analisar e criticar o material sobre as populações carcerárias disponível até então. Eles não se reconheciam em nenhum deles, seja nos filmes seja nos programas de TV, e diziam: “Isso não é a nossa realidade”. Descobriram que quem teria as melhores condições para mostrar a realidade de fato, e conseguir uma visão mais próxima do que seria uma visão interna, eram eles mesmos.

Diário – Algumas cenas do filme, como a da produção de cachaça e do plantio de maconha, não identificam as pessoas...
Sacramento – Às vezes, acontecia de haver alguém com medo de ser reconhecido, porque tinha praticado crimes que não tinham sido julgados ainda. De um certo modo, respeitamos isso. Sempre avisávamos sobre as filmagens em lugar aberto, para que aqueles que não quisessem aparecer saíssem dali. Era essa a nossa relação com aquela cidade (o Carandiru, que então abrigava 7,5 mil homens), que tinha uma demanda enorme para se exibir. E a qualidade da relação foi melhorando de tal maneira que chegou um momento em que nós, que prevíamos passar de dois a três meses lá dentro, decidimos ficar seis, mesmo que a produção não tivesse dinheiro para pagar todo mundo. A equipe foi contagiada pelo ímpeto dos presos.

Diário – Quando você teve de cortar a maioria das 170 horas filmadas, você se sentiu mais como benefício ou interferência no momento de editar?
Sacramento – A gente tinha de fazer um filme que fosse assistível e que interessasse ao espectador que tem o hábito de se dedicar ao assunto e refletir sobre ele. Para a montagem, que é uma ferramenta genial do cinema, eu levei uns sete meses limpando o material até chegar a umas 30 ou 40 horas e tornar a coisa mais humana para a co-montadora (Idê Lacreta). Dizem que um montador não deve editar o filme que dirigiu. Acredito que consegui o que pretendia, cenas que isoladas não têm grandes significados, mas que obtêm sentido quando unidas, um significado por acúmulo. Uma outra coisa que eu tinha muito clara: eu não queria facilitar a vida do espectador, não queria que a montagem tornasse tudo muito mastigado para ele.

Diário – O Prisioneiro... estreou dentro de um panorama excelente para o documentário no país. Atualmente, em São Paulo, estão em cartaz cerca de cinco deles. Como você avalia o período atual para o gênero?
Sacramento – O documentário tem a função de fazer você querer aprender e deixar de lado seus preconceitos, suas certezas e arrogâncias. Para isso, você tem de ouvir o outro, e ouvi-lo muito. Tenho pensado nisso diante dos documentários mais recentes. Existe uma produção gigante que não conhecemos neste momento, que é riquíssimo. E o documentário hoje é o que melhor representa a passagem do cinema clássico para o moderno. A câmera que antes conhecia toda a história, que procurava a melhor posição possível para contar os fatos, agora é uma câmera falível, cada vez mais humanizada. Agora ela não dispõe de todos os dados, deve trabalhar a partir de fragmentos. Hoje em dia, (o filme documental) perdeu seu caráter estritamente educacional e mais pergunta do que afirma. Espero que não seja momentâneo. Não consigo encarar o bom momento como uma moda, mas como um processo lento de conquista de espaço.

Diário – Algum dos presos que participaram do filme pôde assisti-lo?
Sacramento – Foram quatro deles que assistiram ao filme e a repercussão foi uma das coisas mais emocionantes que já vi. Eles tinham a auto-estima superbaixa, pois uma vez lá dentro são todos iguais e quando de lá saírem, por causa de preconceitos, serão sempre ex-presidiários para a sociedade. O filme é uma prova material da capacidade deles mesmos. De repente, um presidiário pode se transformar em cineasta e ter seu filme exibido em Paris e Nova York, e isso faz crescer a auto-afirmação.

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