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Jatene é médico voluntário em favela


Do Diário do Grande ABC

18/12/1999 | 16:09


O ex-ministro da Saúde Adib Jatene, um dos cardiologistas mais requisitados do país, está aproveitando o tempo livre que lhe deu a aposentadoria para trabalhar como voluntário na periferia de Sao Paulo. Desde que deixou a cadeira de professor-titular da Faculdade de Medicina da Universidade de Sao Paulo (USP) e a direçao do Instituto do Coraçao (Incor), em 4 de junho, quando completou 70 anos, ele tira uma ou duas manhas por semana para visitar postos e ambulatórios de Sapopemba e Vila Cachoeirinha, duas das áreas mais pobres das Zonas Leste e Norte da cidade - territórios do programa Qualidade Integral de Saúde (Qualis), nome dado em Sao Paulo ao Programa Saúde da Família (PSF), mantido pelo Ministério da Saúde em convênio com estados e municípios.

Jatene, que continua operando no Incor e no Hospital do Coraçao, do qual é diretor, nao dá consultas nem faz cirurgias na periferia, mas supervisiona todo o serviço sem ganhar um centavo pelo que faz. ''O governador Mário Covas me pediu que ficasse como coordenador``, informa o cardiologista, sorrindo de satisfaçao pela oportunidade de trabalhar em contato direto com pacientes vindos de favelas e de bairros populares. Secretário de Saúde no governo de Paulo Maluf, ele transita com desembaraço ao volante de seu Omega cinza para percorrer as unidades do Qualis 2, administrado pela Fundaçao Zerbini, do qual foi presidente. Junto com o Qualis 1, que as freiras do Hospital Santa Marcelina administram em Itaquera, na Zona Leste, o programa tem mais de 100 equipes atuando na capital.

''Embora seja parecido com o programa Médico de Família, criado pelo regime socialista cubano, o PSF é um projeto desenvolvido no Brasil que se adapta mais à nossa realidade, pois ele se baseia nos agentes comunitários e nao na figura do médico``, diz Adib Jatene, apontando para uma diferença fundamental. Os dois modelos sao semelhantes, porque estabelecem um vínculo entre as equipes que prestam atendimento e as pessoas que o recebem. Ao contrário de Cuba, onde há médicos de sobra para morar perto dos pacientes, a estrutura brasileira exige que apenas os agentes comunitários vivam nos núcleos atendidos por suas equipes. Cada grupo tem um médico, uma enfermeira, uma auxiliar de enfermagem e cinco ou seis agentes.

O ex-ministro da Saúde conhece a maioria do pessoal das regioes que coordena. Nas inspeçoes aos postos, aonde chega quase sempre de improviso, ele conversa com os funcionários da administraçao, pede informaçoes aos médicos, pergunta aos pacientes se estao sendo bem atendidos, checa as instalaçoes e verifica se os equipamentos estao funcionando. ''A vinda do professor aqui é uma bênçao para a gente``, diz a irma Maria Fernanda, freira portuguesa que abriu espaço na Comunidade Sao José Operário, no Parque Santa Madalena Baixo, para abrigar um posto do Qualis. A parceria com entidades como a Fundaçao Zerbini, observa Jatene, dá flexibilidade para a assinatura de convênios desse tipo e a contrataçao de pessoal sem as amarras do serviço público.

Uma das maiores dificuldades para a constituiçao das equipes multiprofissionais é recrutar clínicos-gerais dispostos a trabalhar com todas as espécies de doenças. ''Nossas faculdades formam especialistas, entre outras razoes porque nao havia campo para os clínicos-gerais``, lamenta Adib Jatene, com a esperança de que o PSF possa alterar esse quadro. Os médicos de família do programa visitam as casas sempre que é necessário. O elo entre eles e seus pacientes é o agente comunitário, que conhece bem o núcleo em que trabalha e mora. A partir de um cadastro feito pelos agentes, a equipe convoca os moradores para consultas e exames periódicos. Os postos e ambulatórios funcionam como uma referência na regiao e, na maioria das vezes, substituem os hospitais.

''Esse sistema desafoga os prontos-socorros, porque muita gente que antes recorria aos hospitais agora é atendida pelos médicos de família``, observa Jatene. Um dos primeiros efeitos da novidade é o fim das filas de espera. Cada agente cuida de um núcleo de cerca de 250 famílias, numa média de 1,2 mil pessoas por equipe. ''Conheço cada um de meus pacientes``, diz Sérgio Roberto Simoes, médico intensivista de 43 anos, com 17 de formado, que trocou a UTI por um crachá de generalista. Trabalhando em tempo integral num consultório do Posto Guairacá, em Sapopemba, Simoes recebe um salário de R$ 4,8 mil, bem acima da faixa dos seus colegas do serviço público.

As enfermeiras ganham R$ 2,7 mil, as auxiliares de enfermagem ganham R$ 1,1 mil e os agentes comunitários sao contratados por R$ 350 mensais. O Qualis nao exige dedicaçao exclusiva, mas ninguém dispoe de tempo nem de disposiçao para buscar um segundo emprego. Além dos clínicos-gerais que compoem as equipes, os ambulatórios contam com especialistas que nao sao só os médicos, mas também dentistas, fonoaudiólogos e terapeutas.

O PSF abriu também casas de parto, para atendimento de gestantes e parturientes. Depois de fazer o pré-natal, as mulheres vao ter seus filhos numa espécie de clínica, com a assistência de parteiras e a ajuda dos maridos, aos quais cabe cortar o cordao umbilical.. ''Só os casos complicados sao encaminhados para as maternidades``, informa a enfermeira- obstetra Ruth Hitori Osava, diretora da Casa de Parto da regiao de Sapopemba. A parturiente passa de 12 a 24 horas ''internada`` e, ao receber alta, encontra em sua residência uma equipe completa - médico, enfermeira e agente - à disposiçao.

Criador de um programa pioneiro do PSF no Vale do Ribeira, no começo dos anos 80, quando era secretário estadual de Saúde, o duas vezes ministro Adib Jatene (governos Fernando Collor e Fernando Henrique) nao hesita em usar seu prestígio para ampliar o Qualis na periferia. ''Como tenho acesso a empresários e autoridades, consigo motivar pessoas e instituiçoes que podem ajudar``, diz o cardiologista, apontando o exemplo de dois postos construídos pelo Bradesco e pela Votorantim na Fazenda da Juta, antigo loteamento invadido e ocupado pelos sem-teto na Zona Leste.



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