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A velha e juvenil Coimbra

Enquanto construções seculares dão ao turista a sensação de ter retrocedido mil anos, um ar de jovialidade contagia as ruas


Heloísa Cestari
Do Diário do Grande ABC

26/08/2010 | 07:05


Como diria Cazuza em uma de suas músicas, "o tempo não para". Mas tem um time diferente em Coimbra. Enquanto construções seculares dão ao turista a sensação de ter retrocedido mil anos, um ar de jovialidade contagia as ruas da honorável cidade acenando para o futuro. Também, pudera: todos os anos, cerca de 50 mil estudantes lotam as salas da famosa Universidade de Coimbra, cuja torre, com traçado de coruja - o símbolo da sabedoria - paira do alto como a revelar para quem vem da autoestrada a sua pendência natural aos livros.

São os seus sinos e relógios que, desde 1733, chamam para as aulas os universitários, que, à primeira vista, parecem querer fazer tipo com suas capas pretas sob o sol de rachar. Mas, com o passar do tempo, percebe-se que tais vestes têm mais a ver com a preservação das tradições do que com um capricho de adolescentes tardios propriamente dito.

Um dos pontos mais interessantes do complexo é a biblioteca, construída com ouro, jacarandá e cedro trazidos do Brasil. Mas nem pense em se esbaldar nos mais de 250 mil livros dispostos nas prateleiras: eles só podem ser consultados por professores, doutorandos e olhe lá! Tudo bem. Muitas das publicações, de tão antigas, provavelmente desmanchariam em suas mãos na primeira folheada... Afinal, estamos falando de uma das mais antigas universidades de toda a Europa.

Não à toa, sua fachada é o cartão-postal por excelência da cidade. E de lá ainda tem-se uma vista panorâmica de toda Coimbra, que já foi capital do país a partir de 1139, quando o primeiro monarca lusitano, Afonso Henriques, decidiu transferir o comando da nação de Guimarães para um local mais ao Sul.

Desde então, foram erguidos diversos monumentos que resistem até hoje e parecem fazer questão de impor certa sobriedade à alegria juvenil que impera nas ruas, cafés e salas de aula. Um contraste entre o velho e o novo que virou marca registrada da região e que se evidencia até mesmo nos nomes de alguns edifícios construídos no passar dos séculos.

Catedrais da Sé, por exemplo, há duas: a Velha e a Nova. A primeira foi erguida em 1064 para comemorar a expulsão dos mouros. Todos os anos, em maio, serve de palco para um dos eventos mais tradicionais da agenda local, a Queima das Fitas, que marca o fim do ano letivo com muita cerveja, cores e fado no último volume. Já a Sé Nova, apesar da designação de mocinha, foi erguida por jesuítas nos idos de 1598.

Ambas ficam na parte alta da cidade, a Velha, enquanto a baixa concentra a maior parte das lojas, cafés e restaurantes ao longo dos calçadões das ruas Ferreira Borges e Visconde da Luz.

Já na agitada Praça Oito de Maio, o destaque fica por conta da igreja de Santa Cruz, de 1131, onde estão enterrados Afonso Henriques e Sancho I, os dois primeiros reis de Portugal.

Descendo a colina de Alcáçova na direção do Rio Mondego, o turista ainda encontra vários monumentos que confirmam a tendência de o velho ceder espaço ao novo. Assim como as catedrais, há também os conventos de Santa Clara-a-Velha e de Santa Clara-a-Nova.

O edifício mais antigo - referência para o estudo do gótico em Portugal - teve sua construção iniciada em 1286. Mas só em 1314 Isabel de Aragão, a Rainha Santa Isabel, obteve licença do papa para fundar o mosteiro.

É lá que, nos anos pares, em julho, ocorre a Festa da Rainha Santa, cuja procissão relembra o Milagre das Rosas, quando a monarca teria transformado pão em rosas.

A história também passeia pelo Pátio da Inquisição - palco das atrocidades do temido Tribunal do Santo Ofício a partir de 1548 - e pela Quinta das Lágrimas, onde Camões situa as mais importantes estrofes sobre o caso de amor entre Pedro e Inês em Os Lusíadas.

O verso "Lágrimas são a água, e o nome Amores" faz referência à Fonte dos Amores, local eleito pelo poeta para pontuar a morte da castelã. Muita gente acredita que a coloração vermelha das pedras no fundo da fonte - provocada por uma espécie rara de alga - tenha algo a ver com o sangue de Inês derramado ali.

A viagem no tempo retrocede ainda mais com visitas, nos arredores de Coimbra, ao Castelo de Montemor-o-Velho - na estrada, aproveite para saborear o tradicional pastel de Tentúgal do Café Pousadinha - e às ruínas de Conímbriga, que remetem às povoações celtas em 9 a.C. e às conquistas romanas empreendidas a partir da segunda metade do século 2 a.C.


Onde Inês é viva!

Vários pontos em Coimbra, Alcobaça e Montemor-o-Velho mantêm acesa a chama do amor que mais inspirou poetas, músicos, dançarinos, artistas plásticos e dramaturgos portugueses em toda a história da Terrinha: a tórrida paixão entre Pedro e Inês de Castro. O episódio que fala da "mísera mesquinha que depois de morta foi rainha" é o trecho mais traduzido da obra Os Lusíadas, de Camões, e a canção Coimbra - onde se passou "a história dessa Inês tão linda" -, a música mais cantada e com mais interpretações em Portugal.

Tudo começou por volta de 1340, quando D. Constança resolve trazer a prima Inês de Castro a Portugal para servir-lhe de dama de companhia. Mas quem mais desfrutou dessa ‘companhia' foi o marido gago de Constança, o príncipe herdeiro D. Pedro, que passou a se encontrar com a bela jovem nos palácios de caça da família real em Coimbra.

Inês residia no Paço do Convento de Santa Clara-a-Velha, onde recebia as cartas de amor de Pedro, transportadas em pequenos barquinhos de madeira por um cano que levava as águas das fontes da Quinta do Pombal - hoje, Quinta das Lágrimas - até o mosteiro.

O rei D. Afonso IV, pai de Pedro, não via com bons olhos a relação. Afinal, o príncipe era casado e Inês, além de prima, era madrinha de seus filhos. Mas o que mais incomodava o imperador era a ambição e influência dos Castro, irmãos de Inês, na corte.

Quando Constança morre, Pedro passa a viver maritalmente com Inês e tem três filhos com ela. Chega a pedir ao papa uma bula que lhe permitisse casar com parente tão chegada.

Obstinado em garantir o reino ao legítimo herdeiro de Pedro e afastar Portugal de uma possível guerra contra Castela, D. Afonso IV aproveita a ausência do príncipe para invadir o Paço de Santa Clara e degolar Inês. Mas falece tempos depois.

Com a morte do pai, D. Pedro aproveita sua ascensão ao trono para vingar, com requintes de extrema crueldade, o assassinato da amante. Entra para a história como Pedro O Cruel. E também apaixonado, que mandou exumar o corpo e obrigou toda a corte a beijar a mão já decomposta da amada, coroando-a rainha de Portugal. A essa altura, no entanto, Inês já era morta...



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