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Como é que se chama isso?


Edgardo Brigatti e Itzhak Roditi*

31/05/2010 | 07:00


Como nascem as novas palavras? Lidar com um problema desse gênero não é tão estranho aos físicos, para quem isso pode ser feito por meio de um jogo simples, implementado em computadores no qual agentes artificiais trocam palavras na tentativa de se comunicar.

Apenas um jogo? Não. Estratégia semelhante pode ser usada em situações nas quais seja necessário ter máquinas capazes de se adaptarem a um ambiente, como robôs destinados tanto a explorar lugares desconhecidos quanto a cumprir tarefas que não podem ser programadas com antecedência.

Reflexão filosófica - A palavra linguagem nos remete à capacidade humana de adquirir e usar uma língua para comunicar e realizar interações sociais. Mas não só. A linguagem é estrutura primitiva por meio da qual podemos organizar conceitualmente nossa experiência. Ela está tão intimamente ligada com nossa representação do mundo - e tão intrinsecamente conexa com a possibilidade de pensar - que sem ela nem parece possível formular reflexões conscientes.

Se refletirmos sobre os processos que permitem a um indivíduo fazer uso da linguagem, podemos diferenciar vários sistemas que interagem nessa operação - mas todos esses sistemas são identificáveis com alguma forma de atividade cerebral.

Para o sistema de produção e percepção da linguagem, não há descontinuidade profunda entre animais e humanos. No entanto, no sistema de computação interno está o verdadeiro diferencial dos humanos. Em particular, o que mais impressiona é sua capacidade de recombinar unidades de significado em uma variedade sem limite de estruturas maiores, cada uma diferente no significado final.

Essa coleção enciclopédica de significados baseados em repertório de palavras que cada um de nós tem emerge do espaço comum no qual a comunidade de falantes se encontra; emerge por meio de práticas, experiências e saberes convividos.

Nessa intuição, a língua é a tríade ‘forma-significado-comunidade', na qual a dupla ‘forma-significado' se define por convenção por meio dos eventos comunicativos. Os significados são, em potência, indeterminados, mas, no ato, fixados socialmente no momento da fala.

Interdisciplinidade - A pluralidade dessas perspectivas evidencia a necessidade de um trabalho interdisciplinar.

Linguistas, biólogos, psicólogos, sociólogos, cientistas da informação, entre outros, são chamados a se empenhar em um programa colaborativo de pesquisa. Entre esses pesquisadores, os físicos também podem contribuir.

Memória - Se quisermos explorar como as interações sociais são responsáveis por gerar o triângulo linguístico ‘forma-significado-comunidade', uma primeira pergunta surge naturalmente: como nascem novas palavras?

Pode parecer curioso, mas lidar com um problema desse gênero não é tão estranho para físicos. Afinal, trata-se de um conjunto de indivíduos, cada um deles caracterizado por uma memória que contém um elenco de palavras que são trocadas, fixando-as ou reinventando-as, seguindo uma cadeia de interações sociais.

O sistema começa com cada indivíduo tendo na memória uma coleção de palavras para designar o mesmo conceito. Com o passar do tempo, o sistema converge na adoção de uma única palavra.

O primeiro problema que temos de enfrentar é como definir um indivíduo, o que faremos por meio de uma memória. O fator mais relevante em relação à memória é sua natureza aberta.

Ou seja, as unidades linguísticas - nesse caso, as palavras - são de natureza puramente convencional; portanto, são arbitrárias e, por isso, a priori, ilimitadas. Isso significa que devemos usar memórias capazes, em princípio, de acumular um número ilimitado de palavras.

A total liberdade que a unidade linguística tem na memória de cada indivíduo é limitada só por meio das interações com a comunidade. Essas interações reduzem a arbitrariedade dos signos e levam a comunidade ao consenso.

Essas considerações inspiram-se diretamente nas intuições de Wittgenstein - estamos aqui olhando a linguagem como produto de treinamento para reagir de forma específica a um signo específico, e consideramos que seja esse treinamento que define os significados das palavras por meio do uso.

Definimos nosso indivíduo e sua memória. Falta, então, definir coerentemente um conjunto de regras para as interações entre indivíduos.

Para isso, consideramos o que pode acontecer em um jogo linguístico simplificado, como o caso de um mestre de obra que pede um tijolo a um pedreiro que não fala a mesma língua dele.

Ao ouvir a palavra tijolo, o pedreiro levará para o mestre de obra uma pedra ou uma espátula... até que, ao trazer um tijolo, constatará que aquela palavra corresponde àquele objeto. Dali em diante, o pedreiro usará a palavra tijolo para indicar esse objeto e deixará de considerar outras possíveis expressões.

* Polo Universitário de Volta Redonda, Universidade Federal Fluminense; Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (RJ)



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Como é que se chama isso?

Edgardo Brigatti e Itzhak Roditi*

31/05/2010 | 07:00


Como nascem as novas palavras? Lidar com um problema desse gênero não é tão estranho aos físicos, para quem isso pode ser feito por meio de um jogo simples, implementado em computadores no qual agentes artificiais trocam palavras na tentativa de se comunicar.

Apenas um jogo? Não. Estratégia semelhante pode ser usada em situações nas quais seja necessário ter máquinas capazes de se adaptarem a um ambiente, como robôs destinados tanto a explorar lugares desconhecidos quanto a cumprir tarefas que não podem ser programadas com antecedência.

Reflexão filosófica - A palavra linguagem nos remete à capacidade humana de adquirir e usar uma língua para comunicar e realizar interações sociais. Mas não só. A linguagem é estrutura primitiva por meio da qual podemos organizar conceitualmente nossa experiência. Ela está tão intimamente ligada com nossa representação do mundo - e tão intrinsecamente conexa com a possibilidade de pensar - que sem ela nem parece possível formular reflexões conscientes.

Se refletirmos sobre os processos que permitem a um indivíduo fazer uso da linguagem, podemos diferenciar vários sistemas que interagem nessa operação - mas todos esses sistemas são identificáveis com alguma forma de atividade cerebral.

Para o sistema de produção e percepção da linguagem, não há descontinuidade profunda entre animais e humanos. No entanto, no sistema de computação interno está o verdadeiro diferencial dos humanos. Em particular, o que mais impressiona é sua capacidade de recombinar unidades de significado em uma variedade sem limite de estruturas maiores, cada uma diferente no significado final.

Essa coleção enciclopédica de significados baseados em repertório de palavras que cada um de nós tem emerge do espaço comum no qual a comunidade de falantes se encontra; emerge por meio de práticas, experiências e saberes convividos.

Nessa intuição, a língua é a tríade ‘forma-significado-comunidade', na qual a dupla ‘forma-significado' se define por convenção por meio dos eventos comunicativos. Os significados são, em potência, indeterminados, mas, no ato, fixados socialmente no momento da fala.

Interdisciplinidade - A pluralidade dessas perspectivas evidencia a necessidade de um trabalho interdisciplinar.

Linguistas, biólogos, psicólogos, sociólogos, cientistas da informação, entre outros, são chamados a se empenhar em um programa colaborativo de pesquisa. Entre esses pesquisadores, os físicos também podem contribuir.

Memória - Se quisermos explorar como as interações sociais são responsáveis por gerar o triângulo linguístico ‘forma-significado-comunidade', uma primeira pergunta surge naturalmente: como nascem novas palavras?

Pode parecer curioso, mas lidar com um problema desse gênero não é tão estranho para físicos. Afinal, trata-se de um conjunto de indivíduos, cada um deles caracterizado por uma memória que contém um elenco de palavras que são trocadas, fixando-as ou reinventando-as, seguindo uma cadeia de interações sociais.

O sistema começa com cada indivíduo tendo na memória uma coleção de palavras para designar o mesmo conceito. Com o passar do tempo, o sistema converge na adoção de uma única palavra.

O primeiro problema que temos de enfrentar é como definir um indivíduo, o que faremos por meio de uma memória. O fator mais relevante em relação à memória é sua natureza aberta.

Ou seja, as unidades linguísticas - nesse caso, as palavras - são de natureza puramente convencional; portanto, são arbitrárias e, por isso, a priori, ilimitadas. Isso significa que devemos usar memórias capazes, em princípio, de acumular um número ilimitado de palavras.

A total liberdade que a unidade linguística tem na memória de cada indivíduo é limitada só por meio das interações com a comunidade. Essas interações reduzem a arbitrariedade dos signos e levam a comunidade ao consenso.

Essas considerações inspiram-se diretamente nas intuições de Wittgenstein - estamos aqui olhando a linguagem como produto de treinamento para reagir de forma específica a um signo específico, e consideramos que seja esse treinamento que define os significados das palavras por meio do uso.

Definimos nosso indivíduo e sua memória. Falta, então, definir coerentemente um conjunto de regras para as interações entre indivíduos.

Para isso, consideramos o que pode acontecer em um jogo linguístico simplificado, como o caso de um mestre de obra que pede um tijolo a um pedreiro que não fala a mesma língua dele.

Ao ouvir a palavra tijolo, o pedreiro levará para o mestre de obra uma pedra ou uma espátula... até que, ao trazer um tijolo, constatará que aquela palavra corresponde àquele objeto. Dali em diante, o pedreiro usará a palavra tijolo para indicar esse objeto e deixará de considerar outras possíveis expressões.

* Polo Universitário de Volta Redonda, Universidade Federal Fluminense; Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (RJ)

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